Américo Rodrigues , 3 de Setembro de 2014

Américo Rodrigues

Uma poesia para abrir os ouvidos

texto Mafalda Costa

É uma das figuras maiores da música improvisada em Portugal. Ganhou nome internacionalmente como poeta sonoro, mas somou essa actividade às de escritor, actor, encenador, animador cultural e programador. Depois de ter sido afastado da direcção do Teatro Municipal da Guarda, está a desenvolver uma série de novos projectos (ilustração acima de Alexandre Gamelas)…

«Ó país que te atolas num lamaçal! Óooo país que. Óooo que te atolas. Óooo num lamaçal. Óooo país que te. Que te. Que te. Que te. Óooo lamaçal. Que pátria és. Que pátria és. És. És. Pátria. És. Óooo és pátria. Óooo és lamaçal. És pátria. Um lamaçal»…

Começa assim "Porta-Voz", o disco que Américo Rodrigues editou em Março deste ano. Dois minutos e 36 segundos de vozes sobrepostas, que são por vezes um eco da voz principal, outras vezes um coro entoando apenas o longo "Ó" principal. Um coro de vozes que logo se junta à voz solista em nova interjeição, um "Ó" de invocação a um país. Como se lê acima, a frase inicial é decomposta e os seus elementos, recombinados, comandam a nossa atenção. O sentido inicial não só é reforçado como explicitado - não fosse dar-se o caso de estarmos distraídos -, mas a ele se ligam novos sentidos. A peça, intitulada "Ó", termina com a mesma interjeição, já isolada, que se prolonga em cambiantes de espanto, desafio e medo.

"Porta-Voz" é um disco de poesia sonora, que se soma a "Cicatriz:ando" (2011), "Aorta Tocante" (2005), "Trânsito Local: Trânsito Vocal" (2004), "Escatologia" (2003) e "O Despertar do Funâmbulo" (2000) - todos discos de improvisação que têm como instrumento principal a voz, mas à qual Américo Rodrigues junta outras fontes sonoras: lâminas, ossos, apitos, buzinas de ar, telefones, “walkie talkies”, megafones, intercomunicadores, colheres, garfos, batatas fritas, motores de frigorífico, fecho éclair, brinquedos vários, cornetas de plástico.

É a voz, no entanto, a sua matéria-prima. Ou, no dizer do investigador Manuel Portela, da Universidade de Coimbra, autor de uma curta biografia de Rodrigues no “site” da Po-Ex - Arquivo Digital da Literatura Experimental Portuguesa, é todo o aparelho fonador que é recrutado no trabalho do improvisador: «Os cliques da língua nos dentes, os ruídos da inspiração, os barulhos da saliva, os ruídos dos lábios, a nasalização dos sons, as obstruções respiratórias, o gemido, o grito, o choro, o riso.»

Pulmões, traqueia, lábios, dentes, língua, nariz - o corpo de Américo Rodrigues é um instrumento vivo, usado de forma "virtuosística", como refere Portela. Ele é, nas palavras de Rui Torres, da Universidade Fernando Pessoa, do Porto, e criador do projecto Po-Ex, «um solitário representante da poesia sonora», em Portugal. A esta opinião junta-se a de José Alberto Ferreira, professor na Universidade de Évora e fundador do Festival Escrita na Paisagem. «Eu, para já, não acredito muito nisso…» O tom é sério, pausado: «Ainda se vão descobrir gravações de alguém que tenha feito alguma coisa semelhante. Ou que prenunciasse o que estou a fazer.» 

Bicho raro 

No que admite ser uma espécie de "bicho raro" é em ter ficado na Guarda toda a sua vida. «Muita gente, na Guarda, que soube que eu fazia este tipo de trabalho encarou-o de forma depreciativa, como se eu tivesse enlouquecido e começasse a usar palavras que ninguém entende.» A Guarda, a sua cidade de sempre, é uma pedra no sapato. «No início… eu não queria usar o termo “irresponsabilidade”, mas a verdade é que não pensei muito no meu futuro, senão teria feito aquilo que todos os meus colegas fizeram, sem excepção, que foi sair da Guarda.» O desalento escapa-se na conclusão: «Neste momento tenho muitas dúvidas se devia ter ficado.»

Américo Rodrigues foi demitido do cargo que ocupava desde 2005, como director artístico do Teatro Municipal da Guarda, em Novembro de 2013, pelo novo presidente da Câmara, Álvaro Amaro. Durante anos, diz, acreditou na ideia da cultura como «uma estratégia para o desenvolvimento». «É um cliché, mas todos percebemos. O que se quer dizer é que a cultura tinha de estar no centro do progresso da terra. E eu lutei e contribuí.»

Enquanto outros se mudavam para o litoral, Rodrigues decidiu ficar. «Havia até uma certa solidariedade, um certo apoio, desses que saíram, como se dissessem, “ele ficou a lutar, nós achámos que não valia a pena insistir, mas ele ficou”. Durante muitos anos, cumpri esse papel como animador cultural da Guarda, como a pessoa que ficou para ajudar a transformar a cidade.» E encarou o papel como uma missão, ao mesmo tempo que desenvolvia o seu trabalho criativo: «Eu disso nunca abdiquei, do teatro e da poesia.»

É na infância que encontramos as raízes da aventura sonora que o improvisador começou a registar apenas na década de 1990: «Desde que me lembro, sempre improvisei com a voz, sempre criei línguas imaginárias. Trauteava e usava a voz de uma forma experimental, sem ter consciência de que estava a fazer poesia sonora… muito menos improvisação vocal.»

Aos 53 anos, Rodrigues vê-se como actor, poeta sonoro (para além de poeta, “tout court”, uma vez que escreve poesia) e músico improvisador. «Esse interesse pelo teatro, pela oralidade, pela utilização da voz, aconteceu em simultâneo. Caminhou tudo ao mesmo tempo.» Era ainda criança quando começou a fazer teatro, «umas brincadeiras a que agora posso chamar teatro». «O meu primeiro momento teatral foi com “A Nau Catrineta"…»

Tudo se passou nas traseiras da casa do avô, numa aldeia chamada Barracão, «colada à Guarda», o sítio onde nasceu. A palavra, ou seja, os sons, eram o seu verdadeiro interesse no teatro - mais do que a representação ou a possibilidade de dirigir actores e construir um espectáculo. «Era o texto o que me atraía. Por isso é que surgiu, mais tarde, a ligação à poesia.» Começou a escrever poesia, «como os adolescentes escrevem». Fotocopiava e distribuía as folhas pelos cafés, «a pessoas mais velhas». Envolveu-se no jornalismo na mesma altura, primeiro na Rádio Altitude, depois na imprensa escrita: Lancia Oppidana, «que é um nome antiquíssimo da Guarda», foi o jornal que fundou, aos 16 anos, com António José Teixeira, «a pessoa que agora dirige a SIC Notícias».

Era Abril de 1977. Rodrigues escrevia para uma secção intitulada Crónicas, Exercícios de Maldição e Estilo e os seus textos reflectiam o primeiro contacto com obras de Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Herberto Hélder e Antonin Artaud, que conheceu «com o senhor Prata, que andava numa biblioteca itinerante, de terra em terra, e que me viu a folhear uns livros do Pacheco». A obra "Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus", de Artaud, foi uma das que marcaram o adolescente Américo Rodrigues, ao ponto de ter perseguido, anos mais tarde, a gravação do original francês com a voz do autor.

«Nessa altura, escrevi um texto chamado "Canto da Criação", a partir dessa obra do Artaud, e publiquei-o nesse tal Lancia Oppidana. Foi um texto muito, muito provocador para a Guarda. Havia, na época, uma organização da direita fascista, chamada MIRN (Movimento Independente para a Reconstrução Nacional), que reagiu. Distribuiu um comunicado na rua, a protestar pela publicação do meu texto no jornal, que ainda por cima era pago pelo FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis) e era, portanto, dependente do Ministério da Educação. O título do comunicado era: "Você é Doido Varrido, Sr. Américo Rodrigues". É fantástico!» Rodrigues não se ri. Acrescenta: «Não se podia falar do Artaud na Guarda, era uma provocação para uma cidade extremamente fechada e asfixiante para os jovens.» 

Balão de oxigénio

 

Por essa altura, o seu pequeno grupo de amigos troca livros e ideias acaloradas nos cafés da cidade e partilha poesia. São cinco, os jovens poetas que fundam, então, os Cadernos de Poesia Aquilo, dos quais foram editados «uns 18 ou 20 números». Um balão de oxigénio na aridez da região. Era um tempo, sublinha Rodrigues, em que «a Guarda era, na opinião de Eduardo Lourenço, uma cidade profundamente conservadora». «Reaccionária é a palavra. Na Guarda há um peso enorme não só da interioridade como da Igreja Católica, que é muito conservadora. Não havia espaços para ir, a não ser os cafés. Havia um cineteatro velhíssimo, que passava filmes pornográficos ou filmes comerciais, e que quase não tinha teatro. E um salão, o Salão do Montepio Egitaniense, uma associação de socorros mútuos típica da Primeira República, que tinha uma sala muito formal onde havia um piano de cauda. Era o único piano de cauda do distrito da Guarda.»

Interventivo, Américo Rodrigues concorre ao cargo de animador cultural do FAOJ da Guarda, na área do teatro. Frequenta «centenas de estágios» pelo País, a única formação possível na animação sociocultural, à época, até ter um encontro decisivo, em 1979. É em Paris que conhece Catherine Dasté, num “workshop” do Institut National de L'Education Populaire. Actriz e encenadora, Dasté foi uma das primeiras francesas a trabalhar o teatro infanto-juvenil e a levar à cena, entre outros projectos, peças escritas por crianças. Nas suas palavras, «a pedagogia está na beleza, na invenção». O português, 18 anos acabados de fazer, fica fascinado. O grupo de Dasté comunica através de línguas imaginárias, tendo por base uma série de poemas. «Poemas de Paul Éluard, por exemplo. Eram desconstruídos de forma que as palavras sofriam uma alteração fonética… prolongando as palavras, martelando as sílabas, rebentando com as sílabas… Ou seja, o poema era abordado não de maneira convencional, declamatória, mas de forma criativa, dando atenção aos fonemas, à unidade mínima.»

A experiência com a actriz francesa revela-se emocional e Rodrigues recorda: «Desde logo porque ela me tratou muito bem. Soube depois porquê. Ela tinha um filho precisamente da minha idade e que, na altura, tinha fugido de casa. De certa forma, ela canalizou para mim a sua doçura de mãe… fazia-me puxos no cabelo, era muito engraçado.» Agarra o cabelo cinza no alto da cabeça e sorri: «Mas o que ela fazia no “workshop” correspondia a algo que eu já experimentava na Guarda. Eu fazia aquelas coisas, com a boca, com os sons, na rua, em todo o lado. Os meus colegas, o Zé Neves (actor do Teatro Nacional D. Maria II) e outros, chamavam-lhe “a música do Américo”.»

Explica, então, que os seus recitais de poesia na Guarda, continham já uma abordagem sonora. O repertório era baseado em textos dadaístas e surrealistas e em poesia erótica. Recita: «”Pára-me de repente o pensamento”… É um poema do Ângelo de Lima escolhido para o recital "Consórcio Fernando Pessoa apresenta Ângelo de Lima”. Outro foi o "Consórcio Fernando Pessoa apresenta Raul Leal em 'Sodoma Divinizada'”. Com Catherine Dasté percebi que aquela era uma via que podia explorar. Era algo para utilizar no teatro, para explorar as possibilidades vocais de um actor.» 

Sessões de improvisação 

E é como actor que começa a explorar a voz, sem pensar no conceito de poesia sonora. Regressado à Guarda, cria uma banda sonora para o espectáculo "Uma Mão Deslizante Sábia num Amor Invisivel", em parceria com Élia Fernandes. «Eu punha a voz e ela trabalhava ao piano… Não era uma voz cantada, mas também não era declamatória, mas parecia que a noção da voz já se estava a autonomizar.» Num reflexo desta ideia, Rodrigues é convidado a participar em sessões de música improvisada. A primeira surge na Covilhã, com a Oficina Musical da Beira Interior, criada por Miguel Rainha - hoje responsável pelo espaço A Moagem, no Fundão. «Foi aí que eu fiz em palco, com público, o que fazia numa sala de ensaios e para bandas sonoras. Improvisação vocal como performance. A primeira sessão foi com o baterista Luís Desirat e um saxofonista. A seguir, na mesma sessão, tocou o pianista Rodrigo Pinheiro (Red Trio).»

As sessões de improvisação multiplicaram-se: na Covilhã, no Fundão ou no Ó da Guarda - Festival de Novas Músicas, Rodrigues partilhou o palco com Carlos “Zíngaro”, Manuel Mota, Nuno Rebelo, Albrecht Loops, Marco Franco e Ulrich Mitzlaff, entre muitos outros, e aproveitou os ensinamentos de músicos como Gunter Muller, Silvia Barrios, Shelley Hirsch, Catherine Jauniaux e Phil Minton.

O Festival Ó da Guarda foi um eixo central no florescer da música improvisada na região, já na década de 1990, e novamente a partir de 2005, com o impulso de Rodrigues como programador do Teatro Municipal da Guarda. «Na província era seguramente o primeiro festival de música improvisada. A certa altura fundámos mesmo um grupo chamado Ó - Colectivo de Improvisação. A Guarda tinha para aí uns 10 músicos na área da improvisação, o que era incrível para a época.»

A ligação de Rodrigues à música improvisada não surgiu apenas com o trabalho de actor. Lembra-se de assistir a um concerto dos Plexus, no liceu, levados à Guarda pela associação de estudantes. A única discoteca que existia na cidade, na passagem dos anos 1970 para a década de 80, tinha «umas raridades, mais até de música étnica, e catálogos como o da ECM. Eu tinha tudo o que era da ECM.» A descoberta musical do improvisador e poeta sonoro é solitária e dedicada: encomenda discos da lisboeta AnAnAnA, da portuense Audeo - a editora do seu primeiro disco, "O Despertar do Funâmbulo" - e viaja para ver concertos, como em 1989, à Bienal Universitária de Coimbra (BUC), para ver Meredith Monk. «E vim no comboio ao fim da noite, para vir trabalhar no dia seguinte. Fazia coisas assim… Ou seja, havia gente com muita curiosidade, mas como a Guarda estava muito isolada, eram as pessoas que estudavam fora que vinham para a cidade com muitas novidades. E assim se construiu este gosto.» 

Phil Minton

 

Depois do encontro com Dasté, o segundo momento de revelação no percurso de Rodrigues surge ao lado do percussionista José Oliveira, numa performance. «Lembro-me perfeitamente de ele me dizer: “Há um músico inglês que faz o que tu fazes.” Perguntei quem era. “É o Phil Minton.” E ofereceu-me um disco do Minton com um baterista, penso que era Roger Turner. E eu disse: “Incrível! É isto que ando a fazer há anos!”»

A descoberta leva-o a mudar de direcção e a «cortar com os músicos». Mesmo com o "grupo exemplar" que entretanto se formara à sua volta e com o qual se apresentou num festival de música improvisada no Porto: Gregg Moore (trombone), Élia Fernandes (piano, harmónio) e Jean-François Lézé (percussão). «Achei que os músicos me traziam, de alguma forma, um conforto que eu queria recusar, para fazer as minhas experiências sonoras. Era um conforto fantástico, dado por pessoas de quem gosto muito, como Lézé. Mas eu inspirava e o som dele estava lá, ao mesmo tempo que o meu! Parecia haver uma comunhão tão grande, que aquilo começou a ser uma obra sem arestas, sem sujidade… Era tudo tão certinho!»

O solo de Rodrigues é, a partir daí, exploratório e chega a desafiar o bem-estar físico: «Houve alturas em que o radicalismo das vozes que eu fazia, que me agrediam as cordas vocais, ou o falar ou produzir som não na expiração mas na inspiração do ar, me levaram a ter tonturas… mas ninguém vinha em meu socorro. Os erros, o exagero físico, tenho de os recuperar durante o espectáculo e integrá-los na própria performance. Mesmo os silêncios, tenho de ser eu a administrá-los, não dependo de ninguém… Posso morrer em directo, ao vivo…» Dá uma gargalhada: «Morrer ao vivo é fantástico.» Rodrigues tem um humor pleno de ironia, e esta emerge, de forma clara, no seu trabalho.

"O Despertar do Funâmbulo" (2000), o seu primeiro disco, reúne gravações feitas na Guarda, em Viseu, Lisboa, Coimbra e Porto, entre 1996 e 1999. É o primeiro momento da sua afirmação enquanto poeta sonoro. Inclui várias peças registadas no concerto Vozes Viscerais, para o qual criou partituras: «Há uma composição que corresponde a uma intenção poética, e a partir de então passei a chamar àquilo poesia sonora.» O som das palavras, das sílabas ou dos fonemas, como numa pauta, é moldado pela voz e pelo corpo do improvisador. 

O Despertar do Funâmbulo 

Que se tratava de poesia sonora também o entenderam dois investigadores a quem Rodrigues enviou as gravações: o italiano Enzo Minarelli, «que dirige um centro de documentação de poesia sonora e visual», e o brasileiro Philadelpho Menezes, poeta e professor de semiótica na Universidade de São Paulo. «Eles é que filiaram aquilo na tradição dos dadaístas, com influência do movimento Fluxus. E aí começou tudo a fazer sentido.» Minarelli e o já falecido Menezes assinam ambos os textos que acompanham "O Despertar do Funâmbulo".

O disco seguinte, "Escatologia" (2003), brindado com um texto do escritor E. M. de Melo e Castro - autor que Rodrigues publicou nos Cadernos de Poesia Aquilo -, começa com o Canto I dos “Lusíadas” de Camões, dito por uma boca que come batatas fritas, num ritmo cada vez mais lento e de forma progressivamente imperceptível. A peça - para «voz, batata frita e Camões» - chama-se "Ões". "Zip Fluxus", do mesmo disco, tem um fecho éclair, aberto e fechado a ritmos diversos, acompanhado por uma voz suspirante que tenta manter o ritmo do fecho. Termina num arfar e num estertor da voz.

"Aorta Tocante" (2005) é um disco de "música vegetal" feito com recurso a um pecíolo de aboboreira, ou «trombone de aboboreira», como o poeta-músico lhe chama. Em "Cicatriz:ando" (2009), propõe-se trabalhar vários elementos da tradição oral portuguesa em diferentes acções poéticas. Um projecto que levou o seu tempo a concretizar-se: «Alguém que herda a atitude dos dadaístas e que depois se põe a fazer temas com adivinhas populares e provérbios… Tive muita dificuldade em decidir se fazia ou não o disco, porque era misturar dois mundos, a minha preocupação com o local e o interesse pelo universal.» Ao usar lengalengas, ditos, orações e alcunhas, Rodrigues teve receio de ser mal interpretado nas suas intenções. «Do género “este tipo vai agora pegar nestes provérbios”… achei que ia ser diminuído. Porque, como sabe, a literatura popular é muito marginal e muito marginalizada. Muito mal entendida. E eu julguei que seria vítima também desse equívoco, de que tudo o que é popular não presta ou não tem interesse.»

O registo acabou por ter o apoio do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa, que avançou com um patrocínio. Américo Rodrigues ficou surpreendido, porque o seu trabalho é de reinvenção de elementos da cultura popular: em "A Máquina das Adivinhas" telefonou a dezenas de pessoas perguntando pela solução de adivinhas populares e para "Provérbios ao Domicílio" andou de casa em casa, dizendo e inventando provérbios através dos intercomunicadores. «Mas eu alterei as coisas, e nalguns casos alterei substancialmente a moralidade. Ou seja, não é um registo documental, é uma reinvenção.»

Queremos saber qual a motivação por detrás destas acções poéticas. Rodrigues interroga-se… «Boa pergunta. A intenção não é provocar para ser desagradável. Isso não. Nem para incomodar. Há um lado lúdico nisto. Aliás, todas as outras coisas que faço têm essa componente, são prazenteiras. Têm esse lado do jogo.» Esta dimensão de divertimento, cultivada pelos dadaístas e surrealistas que tanto marcaram o poeta sonoro, não anula a intenção de comunicar emoções, que está no centro do seu trabalho.

O poder emotivo do som é uma questão que lhe ocupa o pensamento: «Primeiro, como é que as emoções estão presentes na minha fala, na minha voz. E como é que isso se analisa e se percebe. E depois como é que a minha voz e a minha fala agem em relação a algo exterior. E por fim que emoções produzem a voz e a fala nos espectadores.» Questões que o levaram a estudar e a apresentar, como tese de mestrado em Ciências da Fala e da Audição, na Universidade de Aveiro, "As Emoções na Fala". 

Desassossegar os outros

A missão de «desassossegar os outros» continua, para Rodrigues. Nos últimos meses criou, na Guarda, mais um grupo de teatro, o Teatro do CalaFrio, com José Neves, Valdemar Santos e outras pessoas da cidade. A primeira peça que encenou, em Março deste ano, "Mas Era Proibido Roer os Ossos", tem como base três textos de Kafka, "Carta ao Pai", "Comunicação a uma Academia" e "Uma Pequena Fábula". «Não posso ser mais claro», diz. «O meu trabalho teatral fala por mim.»

Um espectáculo a acrescentar a muitos outros criados com o Grupo de Teatro Aquilo, desde 1982. Peças como "Culpas" (1996), baseada no Caderno de Culpas do Bispado da Guarda, com «relatos da Inquisição de pessoas, na Guarda, que denunciavam outras… espreitavam pelos interstícios das pedras e denunciavam práticas judaicas ou proibidas», ou como "O Mal: A Incrível Estória do Homem-Macaco Português" (2003), inspirada em Albano Beirão, «o homem que conseguia trepar pelas igrejas acima, com uma força inexplicável».

Enquanto o Teatro do CalaFrio não chega a Lisboa - o que deve acontecer em Novembro, no Teatro Meridional, para uma apresentação de "Mas Era Proibido Roer os Ossos" -, Américo Rodrigues trabalha no seu novo disco. Pensa chamar-lhe “Guilhotina”. «A guilhotina», explica, «é um objecto da minha infância. Saía da escola primária na Guarda, a Escola do Bonfim, situada à frente da delegação da Pide e do Seminário Maior», os risos interrompem-lhe a frase, «e ao lado da minha casa havia uma tipografia. Uma tipografia onde trabalhavam antifascistas, como soube mais tarde. E eu ia para aquela tipografia aprender a compor, porque eles compõem com as letras de pernas para o ar. Aquilo sempre me agradou, aquela decifração. E cortar papel numa guilhotina enorme.»

Estas memórias são contadas no texto "Dobrado Sobre as Letras", que foi incluído no disco "Trânsito Local: Trânsito Vocal" (2004), uma colaboração com Jorge dos Reis, tipógrafo e docente na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. “Guilhotina”, que ainda está só nos planos, será uma colaboração com o actor José Neves: «Gostaria de ser acompanhado por alguém que faça uma dramaturgia do som e queria que ele fizesse isso com o meu trabalho vocal.»

A poesia sonora, como escreveu o especialista Rui Torres a propósito de Américo Rodrigues, «é uma poesia para abrir os ouvidos».

 

Para saber mais

http://po-ex.net/taxonomia/transtextualidades/metatextualidades-alografas/americo-rodrigues-biografia