, 22 de Maio de 2017

Biblioteca Nacional expõe 100 anos de jazz

Comissariada pelo investigador, divulgador, radialista (o seu programa Jazz a Dois, na Antena 2, aproxima-se da milésima edição) e ex-produtor de festivais e concertos João Moreira dos Santos, a Biblioteca Nacional vai acolher a exposição “Txim, Txim, Txim, Pó, Pó, Pó, Pó: 100 Anos de Jazz em Portugal” de 1 de Junho a 15 de Setembro próximos. Documentos vários darão conta da maneira como o jazz tem sido encarado no nosso país desde os primeiros ecos que nos chegaram em 1916/17 – caso da menção na imprensa portuguesa ao ragtime, publicada no jornal A Capital em 1919.

Exemplos são também uma fotografia pouco conhecida em que Duke Ellington surge ao lado de Eusébio (imagem acima), tirada em 1966, filmes em que se ouve jazz ou este é mencionado, como “Fátima Milagrosa” (1928) de Rino Lupo e “A Castelã das Berlengas” (1930) de António Leitão, um exemplar do primeiro disco de jazz, gravado em 1957, com músicos portugueses ou a gravação inédita de uma “jazz-session” registada na Faculdade de Ciências de Lisboa nessa mesma década.

Patentes estarão também referências ao jazz de algumas figuras da cultura nacional, como Ferreira de Castro, Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Cottinelli Telmo, António Ferro, António Lopes Ribeiro e Fernando Curado Ribeiro. Muitas delas, datando da República e do Estado Novo, são particularmente antipáticas…

O escritor Ferreira de Castro considerou-o em 1924 uma «música de selvagens, donde se levitam gritos de desbravadores de selvas, onde há mãos que rufam tambores como nos batuques africanos, mãos negras que tangem peles de veado distendidas sobre troncos ocos». Nesse mesmo ano, Alves Martins referiu-se ao “jazz-band” como uma invenção americana «destinada a dar cabo deste velho e cansadíssimo mundo europeu». Nestes termos: «E enquanto eles, americanos, loiros, fortes e meninos, resistem à sua criação – nós, europeus, cansados, velhos, libidinosos, sucumbimos à demasiada exibição dos seus acordes infernais.»

Na vigência do salazarismo, em 1928, Mário Azenha viu no jazz «o triunfo dos negros ou a escarumbocracia» e Fernando Pamplona cronicou na revista ABC que chegara a «hora preta», a hora de uma música em que o mesmo reconhecia «a voz das árvores e dos macacos». São estas e outras pérolas do Portugal colonialista e racista que iremos encontrar nesta iniciativa de Moreira dos Santos, fruto de um trabalho de investigação e recolha que dura há duas décadas.