Rui Eduardo Paes, 3 de Julho de 2017

Rui Eduardo Paes

O crítico da nova música portuguesa

texto Vítor Rua

Em mais uma crónica sua, o compositor e guitarrista Vítor Rua escreve sobre o crítico e jornalista musical (e musicólogo, faz questão de acrescentar) que considera ser o «mais eclético» e ter «maior qualidade» em Portugal. É como segue (foto acima de Paulo Duarte)…

Este meu ensaio vem na continuação de outros que venho escrevendo sobre personalidades que de alguma forma “influenciaram” muito positivamente a música portuguesa, mas que, por alguma razão, devido ao lugares que ocupam (editores, críticos, engenheiros de som, divulgadores, promotores), são poucas as análises que se azem às suas abras; obras estas que em muito fazem com que a música em Portugal evolua e cresça de forma sã e com qualidade…

Portugal tem poucos exemplos de bons críticos musicais (seja em que área for!),mas existem algumas excelentes excepções. No jazz, por exemplo, Manuel Jorge Veloso é alguém com um conhecimento e um poder de análise que o fazem escrever com autoridade sobre essa tipologia musical. E tanto escreve sabiamente sobre determinada época “passada” do Jazz, como se aventura experimentalmente na crítica de certo jazz da actualidade e fá-lo coma mesma qualidade.

Na música chamada erradamente dita “erudita” - termo que há muito tempo seencontra desactualizado, tendo em conta a ideia presunçosa nele contido de se achar “superior” a outros estilos musicais e também porque a música assim intitulada nada mais é do que a “continuidade” da chamada (também erradamente!) “música clássica ocidental” - ou se preferirem, a música de compositores como Monteverdi, Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven, Wagner, Schoenberg, Messiaen, Stockhausen ou Lachenmann, temos alguns críticos(sejam musicólogos, etnomusicólogos ou simplesmente melómanos) de excelente qualidade e de entre estes podemos citar os nomes de Mário Vieira de Carvalho e Rui Vieira Nery, sendo que o primeiro é um sociólogo da música e “especialista” em certa música contemporânea (nacional e internacional) e o segundo é um musicólogo histórico, especializado em certa música antiga e portuguesa (o que não o impede de escrever com qualidade sobre música de outras épocas e de outras nacionalidades).

Na música folk e country, o divulgador e promotor Jaime Fernandes sempre se moveu com grande à-vontade na divulgação destes estilos musicais. Na pop e no rock existe uma enorme falta de especialistas destes tipos musicais. São raros os que escrevem sobre esta música, com propriedade. Excepção é Vítor Belanciano, que desde há décadas se dedica a analisar estes estilos musicais com pertinência e qualidade. Existem críticos especializados em outros estilos musicais e que, com toda a certeza, também ficaria bem serem referenciados neste meu ensaio, mas este meu texto não pretende ser uma “lista” de nomes, tendo sim o propósito de indicar quem é - para mim! -, na actualidade, o mais eclético crítico de música em
Portugal.

Mas antes de revelar o nome dessa pessoa, deixem-me recordar-lhes que em Portugal, desde os anos 1970 até ao seu falecimento em 2011, o mais eclético crítico musical foi Jorge Lima Barreto, que escreveu mais de uma vintena de livros que vão do hip-hop ao rock, da música etnográfica ao jazz, do minimalismo à música concreta ou do serialismo ao espectral; foi músico (com dezenas de discos editados), divulgador e promotor de eventos (festivais de música, programas de rádio); produtor musical, crítico e musicólogo.

Ora, para mim, a única pessoa que actualmente consegue reunir todos os atributos citados supra e que conseguiu criar - com as suas idiossincrasias! - uma nova forma de escrever sobre música é Rui Eduardo Paes. O REP não é apenas um “especialista” dentro da crítica musical. É um “especialista generalista”! E porquê? Porque, tal como o Barreto, REP tem vastos conhecimentos (é um “expert”) em variegados estilos musicais: tem experiência e conhecimentos dentro da chamada “improvisação total”; total controlo e poder de análise na área do jazz (do cássico ao presente); em certa música clássica / contemporânea (é conhecedor de novos compositores como Sciarrino ou Lachenmann e domina bem o passado histórico musical ocidental - o tal de Bach a Radulescu!); aventura-se no “rock art”; revela pontaria ao “acertar” em nomes que mais tarde se revelam como seminais,em determinada “world music”; é “expert” no chamado “near silence” e em muitos mais estilos musicais, que podem oscilar entre o death metal ou o “expressionismo” de um Scott Walker.

A escrita de REP não se limita apenas a ser informativa ou factual (como para mim - infelizmente -, foi o caso (excepcional!), do “livro” editado posteriormente ao falecimento de Jorge Lima Barreto (e que eu não acredito que ele alguma vez o quisesse ver publicado, e que é nada mais nada menos do que a sua tese de doutoramento transposta para livro).  Neste livro de JLB o que assistimos é a uma “collage” – por parte do autor - de artigos ou capítulos de livros seus, grande parte das vezes reunidos sem grande lógica ou fluidez na continuidade da escrita do livro, no qual Barreto se limita a debitar listagens gigantescas de nomes de músicos (que ele em grande parte desconhecia por completo), e onde se limita de forma “factual” a dizer que instrumento tocam ou a que estilo musical pertencem. Por vezes, adjectiva um ou outro músico e mesmo aí de forma incoerente e muito se deve esse factor ao facto da existência de um profundo desconhecimento da obra sobre quem ele escrevia. Mas tais edições - as de carácter póstumo -, têm por vezes destas coisas: certas pessoas têm tanta admiração pelo homenageado que por vezes se esquecem que nem tudo o que foi escrito por ele é para ser publicado.

Foto de Rodrigo Amado

REP com Maria Radich, foto de Paulo Duarte

Mas voltando à escrita do REP, podemos observar como esta é fluida, “intrincada”, “complexa”, por vezes “estruturalista”. Outras vezes podemos vê-la como “obra aberta” ou “work in progress”, mas sempre carregada de humor, clareza e até uma enorme, aparente, simplicidade (o que também é o oposto da escrita de Barreto, que muitas vezes usava certa “terminologia” que não seria acessível a todos os que o liam).

A obra de REP é já muito vasta e de uma qualidade enorme: além de centenas de artigos publicados em jornais ou revistas de relevo nacional e internacional, tem já inúmeros livros publicados, em que de uma forma bastante coerente nos guia através de um seu “cânone” musical (que foge ao “mainstream” de qualquer “história musical”), com uma excelência e um rigor que são apanágio dos bons musicólogos. Para mim, o REP é um musicólogo ou um etnomusicólogo (como o foi Jorge Lima Barreto), mesmo que, como este, não tenham o “canudo” de uma qualquer universidade, pois tratam as suas “matérias” de forma “científica” (ainda que não segundo os padrões académicos).

Nos seus livros, REP propõe ao leitor uma nova forma de ler, tal como Luigi Nono nos ensinou nas suas obras a uma “nova escuta”. Essa “nova forma” de ler implica que o leitor se ponha muitas vezes numa posição - ele próprio -, de “crítico”, pois é-lhe dada - pelo tipo da estrutura da escrita do REP -, a possibilidade de variegadas interpretações. Noutros casos, o leitor é convidado a entrar em mundos “philipkdickianos” que nos transportam - como se de uma viagem no tempo” se tratasse! -, a uma “visão premonitória futurista” de certa música ou de determinados músicos portugueses (e não só!), em que, tal como na ficção científica, nos apercebemos que, afinal, o que era outrora uma mera ficção é hoje uma realidade. É o caso das estórias de ficção científica que se cumpriram, como o humano ter ido à Lua (como preconizava Júlio Verne); e é o caso de músicos e de determinada música que ,na época em que o REP escrevia sobre eles ou sobre ela, seriam quase desconhecidos, e depois vieram a confirmar-se como figuras basilares da música portuguesa.

A prova do seu ecletismo é a de que podemos dar com o REP num qualquer concerto “rock art” na ZDB, podemos vê-lo num festival de jazz como o Jazz em Agosto, encontrá-lo num qualquer festival de música improvisada, num festival de world music, no Grande Auditório da Gulbenkian, num concerto de near silence na livraria Ler Devagar da LX Factory ou assistindo a uma execução acusmática organizada pelo MIC (de Miguel Azguime).

Mas a sua importância não se resume somente aos livros! As suas críticas nos diversos jornais e revistas para onde escreveu são de uma enorme relevância histórica pela divulgação e por uma catalogação/classificação muito importante para a “caracterização” de certos músicos e de certa música realizada em Portugal. Também escreveu inúmeros textos para discos (nos quais promove de forma acertada os músicos, dando-lhes um estatuto de internacionalização) e ainda há a referir os inúmeros magazines ou revistas (em aspecto físico ou “online”) em que foi ou é o “chefe de redacção” (e onde foi deixando a sua marca editorial). Certa música e certos músicos portugueses não existiriam com a visibilidade (nacional e internacional) que têm se não fosse a intervenção crítica deste musicógrafo.

São inúmeros os músicos de diversos estilos musicais que muito têm a dever aos textos filosófico-analíticos-musicais do REP. Na actualidade, não existe em Portugal nenhum outro crítico musical com o ecletismo e a qualidade do REP!