Tania Giannouli, 3 de Outubro de 2013

Passageira terrestre

texto Paulo Chagas

No rescaldo do lançamento de “Forest Stories”, disco gravado em duo pelo multi-instrumentista português Paulo Chagas e pela pianista grega Tania Giannouli, eis o retrato de um jovem talento da improvisação europeia de que, certamente, iremos ouvir falar muito no futuro. Uma resistente da actual crise de valores, mascarada de depressão económica, que ainda encontra beleza nas coisas e sabe transmiti-la musicalmente a todo o mundo. Depois de Nikos Veliotis, Floros Floridis e Sakis Papadimitriou, a nossa lista de improvisadores helénicos cresce com mais um nome.

 

Esta é a tua forma de vida, ou tens paralelamente outra profissão?
Juntamente com os meus estudos de música (piano, teoria e composição avançada), fiz um curso de Tecnologia Agrária e da Alimentação na Universidade de Agronomia de Atenas. No entanto, nunca exerci, dado que a música é o meu grande amor. Apenas trabalho em áreas ligadas à música, como compositora, pianista e professora.

 

Como é que a música surgiu na tua vida? Como fizeste a tua formação académica?
Segundo os meus pais, sempre tive uma forte tendência para a música. Antes de aprender a falar já conseguia cantar uma melodia que ouvisse na rádio ou em discos e cassetes dos meus pais, completamente afinada e sincronizada. Aos 5 anos de idade, e embora eu não manifestasse qualquer desejo de aprender a tocar um instrumento, a minha mãe levou-me a um professor de piano. Fiquei logo agarrada!

 

Que áreas se podem identificar na tua carreira musical?
Apesar de ter formação clássica (com diploma de solista), como pianista estou mais interessada na improvisação. Como compositora procuro sempre trabalhar em projectos multimédia: música para teatro, cinema, vídeo e, em geral, em projectos que saiam das fronteiras estritas do campo de um músico clássico.

 

Fala-nos da tua discografia e da forma como te sentes em relação a cada obra em particular.
A minha discografia não é muito grande, mas adoro cada uma das edições que tenho. "Live at Sfendoni", de 2010, foi um álbum que lancei com a banda de improvisação livre que tinha na altura, chamada4 +1,numa pequena editora grega especializada em música experimental e alternativa, a Triple Bath. A gravação foi feita num concerto no teatro Sfendoni, em Atenas. No mesmo ano entrei como solista no CD "16 Days " de Chris Soumka, tendo gravado algumas composições para piano e orquestra, juntamente com a Orquestra Filarmónica de Sofia.
Depois disso também participei numa compilação “especial” da americana Isle Records, chamada "Soundtracks Vol.4”. "Feeling of Movement", de 2012, foi iniciativa de um importante nome da electrónica, Spyweirdos, que agarrou em gravações de 10 improvisadores gregos (entre os quais eu) e editou-as de maneira muito especial. “Forest Stories” é o meu disco mais pessoal, até agora. Gravei-o em duo contigo mesmo nos instrumentos de sopro e é uma colecção de oito peças de improvisação com elementos de “avant-garde”, free jazz, música de câmara contemporânea, mas também de minimalismo e pós-impressionismo. Estou extremamente feliz e orgulhosa com este último álbum.

 

Como é que as tuas facetas de compositora e intérprete se conjugam?
Essas duas facetas surgem, na verdade, sempre juntas no processo de improvisação (que na verdade é compor em tempo real), mas muitas vezes também escrevo deliberadamente as minhas próprias composições para os diversos projectos que tenho.

Out of the box

 

Como observadora, o que tens a dizer sobre o panorama da música (jazz, impro, contemporânea) no teu país?
A cena do jazz na Grécia está a ir bastante bem. Há uma série de novos talentosos músicos de jazz, alguns deles inclusivamente a desenvolver uma boa carreira internacional. A cena impro-contemporânea também tem muita qualidade, mas infelizmente o público para essa área é muito restrito. Mas acho que isso é comum, não acontece só na Grécia.

 

Em que medida é que o facto de viveres numa cidade em convulsão social influencia a tua postura enquanto artista?
A situação socioeconómica da Grécia afecta qualquer pessoa, artista ou não. Para a generalidade dos artistas foi sempre difícil fazer uma vida apenas com a sua arte, mas as coisas pioraram agora. Um grande número de jovens, incluindo artistas, músicos, cineastas, etc., optou por deixar a Grécia em busca de uma vida melhor no estrangeiro. As coisas estão extremamente difíceis para os actores...

Além das dificuldades práticas, acho que é difícil encontrar um equilíbrio entre a necessidade de estar concentrada na minha criatividade artística, estar desperta para a realidade social e ao mesmo tempo tentar encontrar maneiras de reagir a toda esta loucura que vivemos. Não é fácil... Este sentimento de "sem esperança", "sem melhorias", "sem um futuro melhor" que a maioria dos gregos está a sentir pode ser catastrófico. Só consigo ser feliz porque tenho a minha música.

 

Sentes que existe alguma crise de criatividade, como alguns apontam aos músicos actuais?
Bem, isso dava uma grande discussão... De certa forma, sim. A tecnologia deu hoje a qualquer pessoa a capacidade de fazer a sua própria música... Basta um computador, alguns “loops” ou alguns “samples” (muitas vezes não legalmente adquiridos) e pronto, já és um "compositor" (risos)!
É claro que isso leva a uma produção em massa de baixo nível e dadas todas as possibilidades de propagação que a Internet nos proporciona hoje em dia, podemos perder-nos numa infinidade de "música nova", "álbuns novos", etc. Por outro lado, a indústria da música estabeleceu os seus próprios padrões e qualquer pessoa com um pouco de bom gosto pode ter uma opinião sobre o que realmente vale, em termos de nível artístico, a maioria dessas produções. Claro que tal não significa a inexistência de coisas interessantes a saírem, coisas únicas e originais. Mas, como já disse, com toda esta “realidade iTune" que temos torna-se muito difícil, senão impossível, encontrar os verdadeiros "diamantes" e perseguir a música verdadeiramente boa.

 

Sei que tens particular apreço por te refugiares com alguma frequência junto ao mar e junto à floresta. De que forma essa tua ligação à natureza influencia o teu processo criativo?
Sim, sinto-me de facto muito feliz estando perto da natureza, pois faz-me experimentar uma conexão mais profunda. De certa forma, faz-me perceber que nós, seres humanos, somos apenas uma parte de uma realidade maior - que é obviamente mais sábia do que nós -, que os nossos próprios microcosmos não são tudo o que existe e que somos apenas passageiros nesta Terra. É como confiar na vida que temos cá dentro e acho que preciso mesmo disso.

 

O que é que costumas ouvir no teu dia-a-dia?
Depende, às vezes fico presa a um disco e consigo ficar a ouvi-lo durante alguns dias. O meu gosto pessoal inclina-se para o jazz mais criativo, como o da sonoridade ECM, ou para a música contemporânea ou clássica, mas também tenho particular atracção por bandas sonoras de cinema. Com a oportunidade que tive de lançar um disco pela Rattle fiquei a conhecer bastante bem o seu catálogo e consigo afirmar que se trata de material extremamente interessante que, já agora, sugiro a quem tenha interesse por música "out of the box".

 

O que podemos esperar de ti como músico no futuro próximo? Em que projectos estás a trabalhar e o que tens em mente?
Estou a trabalhar num álbum com o projecto Emotone, que é a minha colaboração com o músico electrónico (e meu companheiro) Tomas Weiss. Consiste numa combinação de sons electrónicos e paisagens sonoras com elementos acústicos instrumentais. Combinamos os dois mundos de que cada um de nós vem. Queremos que a nossa música seja muito emocional e é por isso que chamamos ao nosso projecto "Emotone" (de emoção e tom). Estamos agora a preparar o nosso primeiro espectáculo em Atenas para o lançamento do disco.

Outra parte do meu plano é concretizar a edição de um álbum a solo. Além disso, espero também que possamos executar ao vivo o nosso “Forest Stories”, tanto quanto possível.

 

Para saber mais

www.tania-giannouli.com

 

Discografia

Paulo Chagas / Tania Giannouli: “Forest Stories” (Rattle, 2013)

Vários artistas: “One Year of Ilse” (Ilse, 2012)

Vários artistas: “Soundtrack Vol. 4” (Ilse, 2012)

Spyweirdos: “Feeling of Movement” (Creative Space, 2012)

Chris Soumka: “16 Days” (Archangel, 2010)

4+1: “Live at Sfendoni” (Triple Bath, 2010)