Rodrigo Amado, 14 de Setembro de 2015

Confissões de um “fraseador”

texto Rui Eduardo Paes

Nas vésperas do lançamento do disco (“This is Our Language”, Not Two Records) que documenta o encontro de Rodrigo Amado com um dos seus heróis, Joe McPhee, e que é também a sua homenagem ao recentemente falecido Ornette Coleman, o saxofonista de Lisboa antecipa um pouco o que vamos ouvir e dá conta do que mais tem feito musicalmente. Sobretudo com a “working band” portuguesa que vai mantendo com Miguel Mira e Gabriel Ferrandini, e que acabou por ser o seu mais forte “cartão-de-visita”, cá e, sobretudo, no circuito internacional. Ao longo da conversa que mais adiante se reproduz, ficamos também a conhecê-lo melhor. Designadamente, as suas motivações, as suas aspirações, o que mais lhe interessa. Venham daí…

 

Está quase a sair o teu novo disco, “This is Our Language”. O título fez-me lembrar o “In All Languages”, de Ornette Coleman. Essa é uma relação que procuraste intencionalmente? E se sim, a especificação de uma “linguagem”, em vez de todas as aludidas por Ornette, tem algum especial propósito?

O título deste novo disco tem uma série de referências intencionais. Antes de mais a "This is Our Music" do Ornette, mas também ao "In All Languages", em ambos os casos como homenagem à profunda influência que o Ornette teve na minha música. Quando comecei a tocar, as minhas referências imediatas, os primeiros saxofonistas que ouvi, foram Phil Woods, Charlie Parker, Sonny Rollins e Dexter Gordon. Alguns meses mais tarde, penso que em casa de uma tia, veio parar-me às mãos o "Free Jazz" do Ornette. Todo o ambiente sonoro do disco e a forma de frasear do Ornette foram como um murro no estômago, como se através daqueles sons conseguíssemos viajar, viver aventuras em universos distantes. E era isso que eu fazia com a música do Ornette, viajava.

Desde aí nunca mais deixei de procurar os discos dele, primeiro os clássicos, "Something Else", "The Shape of Jazz to Come", "Tomorrow is the Question!" e "This is Our Music". Depois os trios de Estocolmo, "At the Golden Circle", mais tarde as gravações da Prime Time e da “label” Caravan of Dreams, e finalmente todos os outros registos dele. Ainda hoje, se ouço um disco como "Soapsuds" ou "Science Fiction" sou de imediato transportado para um mundo mágico e poético, bem melhor do que este pesadelo surrealista que nos rodeia. E isso é uma das coisas que me interessam, na música.

Para além dessa homenagem a Ornette, o título refere-se à linguagem da improvisação e ao milagre que é partilhar uma linguagem comum, abstracta, e com ela construir formas e significados coerentes. Uma linguagem que é comum, mas construída a partir das linguagens altamente individualizadas e pessoais de cada músico.

 

Os músicos que convidaste para este álbum, e com quem tocaste em alguns concertos há quatro anos, são Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano. Já tinhas gravado com Kessler dois dos teus discos, “The Abstract Truth” e “Teatro”, mas é a primeira vez que tens um registo com os outros dois. Sei que convidaste McPhee por motivos muito especiais. É também uma tua referência “histórica”?

É, sem dúvida. Foi ele a base do projecto e foi em torno dele que construí o quarteto. O Joe é um músico cuja obra ainda hoje continuo a descobrir. Não há, como no caso do Ornette, um disco específico que me tenha influenciado particularmente, mas sim toda a sua música, e muito particularmente a personalidade como improvisador, a sua criatividade inesgotável. É também uma referência como pessoa, pois dispõe de uma energia e de uma alegria contagiantes. Tem 76 anos (!?) e parece um miúdo. Quando for grande quero ser como ele!

Encontrei-o por diversas vezes em Nova Iorque e em todas essas ocasiões senti uma empatia imediata. Quando o Joe chegou a Lisboa para tocar com os Lisbon Improvisation Players no Museu da Electricidade, uns dias antes do concerto do CCB, foi como se já nos conhecêssemos há largos anos, e tocar com ele foi tão natural como tinha imaginado que seria. Sinto que essa cumplicidade passou para a música que gravámos.

 

A propósito ainda de história… O teu som, a tua maneira de tocar e os materiais que utilizas, designadamente os melódicos e harmónicos, parecem-me muito enraizados na história do jazz. E se és muitas vezes conotado com a tradição do free jazz, tenho verificado que muitos dos teus fundamentos estão até em períodos anteriores. Já escrevi que és um saxofonista de hard bop, acima de tudo. Em quem, e no que é que, buscas inspiração? Quem marcou em especial o teu estilo e as tuas abordagens?

Aquilo que toco e a forma como integro melodia, harmonia e ritmo no meu discurso é totalmente intuitiva, nada estudada ou premeditada, e é influenciada por uma diversidade imensa de sons, do jazz ao hip-hop, ao rock, à pop, à clássica contemporânea, à folk, ao funk, à música cubana ou brasileira, ao ambient, ao noise, à improvisação livre... Estou sempre a ouvir música e a descobrir novos discos, novos sons. Interessa-me isso, essa verdade - o que é que eu, a viver aqui neste período específico do tempo, a ouvir toda esta música, vou tocar? Quem é que eu sou, musicalmente? Como é que vou conseguir, no momento de tocar, esvaziar-me de todas estas influências e fazer algo que seja meu?

Dito isto, e tentando olhar de fora para a forma como toco e pratico, sinto que tenho um particular interesse (por vezes quase obsessão) por um discurso fraseado, bem claro, por oposição a uma linguagem não idiomática, mais abstracta, mais noise, mais ligada às “extended techniques” do sax. Sendo assim, é natural que a influência primária que mais marcou e marca o meu discurso venha de grandes "fraseadores" do jazz como Ornette Coleman, John Coltrane, Sonny Rollins, Archie Shepp, Wayne Shorter, Booker Ervin ou Gerry Mulligan, entre muitos outros. Esta é uma influência inconsciente, intuitiva, ligada a essa clareza de fraseado ou articulação.

Depois vêm as influências mais conscientes, ligadas a uma maior intensidade de emoções e energia e um maior risco criativo. Aí as grandes influências passam por músicos como Evan Parker, Anthony Braxton, Jimmy Lyons, Sam Rivers, Frank Lowe, Henry Threadgill, Pharoah Sanders, Julius Hemphill, Glenn Spearman, David S. Ware, Charles Gayle ou Peter Brotzmann. Quando toco, procuro não pensar em nenhuma destas referências - a inspiração directa passam a ser os músicos com quem estou a tocar e a concentração é totalmente focada no momento. 

Uma enorme lição

Foto de Nuno Bernardo 

Houve um período do teu percurso em que dedicaste uma particular atenção às colaborações com músicos do circuito internacional, sobretudo americanos, mas a tua actividade musical centrou-se cada vez mais num grupo português específico, o Motion Trio, mesmo que por vezes envolvendo convidados de fora, como Jeb Bishop ou Peter Evans. Acabaste por ser mais "falado" pelo que tens feito com Miguel Mira e Gabriel Ferrandini. Irónico?

Mais do que irónico, é uma enorme lição sobre a importância de um trabalho regular e consistente. Durante muitos anos senti uma dificuldade real em formar um grupo com o qual trabalhasse regularmente, para lá de encontros e concertos pontuais. Fiz dezenas de tentativas com inúmeros músicos e, apesar de terem sido frequentemente experiências interessantes com as quais aprendi muito, acabavam por não ter continuidade. Faltava uma maior cumplicidade a nível pessoal e um interesse comum, partilhado, pelo tipo de improvisação que pratico, ligada à composição em tempo real. Na altura em que conheci e comecei a trabalhar com o Miguel e o Gabriel estava saturado desse tipo de encontros. As colaborações com músicos internacionais só tinham servido para me aperceber ainda mais que tinha de reunir uma "working band".

Agora, cerca de oito anos depois, é possível compreender com clareza a importância que isto teve na minha música e no meu percurso pessoal. A evolução é feita agora dia a dia, ensaio a ensaio, e cada vez é mais difícil passar para o nível seguinte, em termos emocionais e estéticos. O enorme desafio de colocar o Motion Trio a rodar regularmente no circuito internacional é cumprido lentamente, passo a passo, e conta com um enorme apoio de uma comunidade alargada de músicos e críticos, um pouco por todo o mundo.

É fascinante para mim observar o nível de evolução alcançado tanto por Miguel Mira no violoncelo como por Gabriel Ferrandini na bateria. De resto, são ambos cada vez mais reconhecidos como referências a nível europeu. É um enorme prazer e orgulho partilhar com eles este projecto.

 

No dia 1 de Outubro o Motion Trio traz ao Maria Matos um novo convidado, o pianista Matthew Shipp. Porquê ele, dado que não toca um segundo instrumento melódico, e sim harmónico, ao contrário do Bishop ou do Evans? Quais são as tuas expectativas?

Matthew Shipp é, há muito, um dos músicos com quem queria trabalhar. Por ser um improvisador extraordinário - o trabalho que realizou ao lado de David S. Ware é uma referência -, mas também por sentir que há nele uma enorme ligação às raízes do jazz, tal como referias que acontece com a minha própria música e como acontece também com Joe McPhee. Digamos que essas raízes partilhadas nos dão um tronco musical fortíssimo de onde poderemos depois divergir com total liberdade.

Sei também que o Matthew não tem qualquer receio em correr riscos, vejo isso nos trabalhos que assinou ao lado de Darius Jones. Por todas essas razões, a minha expectativa é a de que, partindo de uma base sólida e consistente (os concertos de Motion com Rodrigo Pinheiro e Luís Lopes já nos prepararam para a integração de um instrumento harmónico na música do trio), se dê um encontro transformador que nos permita elevar a música a novos patamares de emoção e estética.

Tenho ouvido bastante a música de mestres como Cecil Taylor, Anthony Braxton ou Evan Parker e, apesar de já o fazer há bastantes anos, sinto que só agora consigo realmente compreender muitas das coisas que eles fizeram. Só agora consigo abandonar o ponto de escuta exterior à música e entrar na malha melódica e harmónica que construíram, analisando relações entre notas, movimentos dinâmicos internos, contrapontos rítmicos complexos, etc. O legado musical que nos deixaram é de um nível de tal forma elevado que funciona para nós como uma inspiração perpétua. É esse o ponto de fuga da nossa música.

 

O teu posicionamento na música é curioso: há uma claríssima adesão à linguagem do jazz, com toda a sua carga patrimonial, mas diferentemente deste idioma musical não há composições – adoptas as metodologias da improvisação livre. Recordo que no início do Motion Trio vocês estavam algures entre o jazz e a música improvisada, mas depois centraram-se no jazz, embora sem utilizar estruturas predefinidas. Quer isto dizer que tu és (e o Motion Trio é) uma excepção à regra que diz que o jazz é uma forma de relacionação do composto com o improvisado?

Em relação às influências que são convocadas para cada encontro do Motion Trio, isso depende de inúmeros factores. Se durante a tarde estivemos a ouvir um disco do Schlippenbach Trio, a música poderá soar mais abstracta, mais próxima da livre improvisação. Se estivemos à conversa sobre a evolução da linguagem do Coltrane ou sobre a total revelação que foram as recém-descobertas gravações de Jimmy Giuffre ("New York Concerts"), então a música poderá soar mais "concreta", mais próxima das raízes do jazz.

Mas na realidade nada disso nos interessa. O que estamos a fazer é muito claro - queremos tocar uma música verdadeira e orgânica (ao invés de artificial), totalmente ligada ao momento e à circunstância em que é tocada. E queremos fazê-lo sem abdicar de formas e estruturas concretas. O conceito que mais se aproxima desta forma de fazer música é o de "composição em tempo real". Nesse sentido, acabamos por não ser bem uma excepção, sendo a única diferença o facto de a nossa composição ser feita em tempo real, tornando-a mais intimamente ligada a quem somos naquele momento e à componente improvisada. 

Tocar, tocar, tocar

Foto de Nuno Martins 

Já agora, o que me podes revelar sobre os processos de trabalho do Motion Trio? Ensaiam ideias? Definem algum tipo de princípio ou de objectivo? Escolhem situações que possam surgir quando tocam antes dos concertos ou das sessões de estúdio, para as desenvolver? Conversam sobre o que querem fazer em determinada circunstância?

O processo de trabalho do Motion Trio é tocar, tocar, tocar. Sabemos agora que, para continuar a evoluir, temos de trabalhar cada vez mais. Se, há uns anos, trabalhávamos 10 horas para evoluir 10%, agora temos de trabalhar 100 para evoluir 5%. E assim sucessivamente. Esta é a nossa única regra e o nosso método. De resto, nunca falamos sobre o que vamos tocar, nem na sala de ensaio, nem no estúdio ou no palco. A música é totalmente improvisada. Conversamos muitas vezes sobre a necessidade de passarmos para um nível superior de comunicação, para um nível estético mais apurado, mais independente, mas nunca sobre se vamos tocar rápido ou lento, mais jazz ou mais abstracto ou qual o tom em que vamos entrar. Isso simplesmente acontece.

Na nossa música a comunicação dá-se a um nível intuitivo e telepático. No limite, este é um tipo de comunicação sem filtros, sem códigos, e por isso mais puro e directo. A única ocasião em que falamos concretamente sobre a nossa música é durante as sessões de audição daquilo que gravámos. Pode ser a gravação de um novo disco ou de um concerto. Juntamo-nos, ouvimos com total concentração e debatemos a relevância ou não de um determinado tema. Tomo notas e voltamos a repetir a audição as vezes que forem precisas até a música se afirmar por ela própria. Este é um processo que pode durar muitos meses ou até anos (como foi o caso do primeiro disco do Wire Quartet).

 

O teu interesse pela música livremente improvisada, sem imediatas conotações jazzísticas, e também pelo experimentalismo parece ter sido transferido para o Wire Quartet. Manténs a presença de Ferrandini, chamaste o contrabaixista do Red Trio, Hernâni Faustino, e o elemento disruptor é o guitarrista Manuel Mota. É apenas um “side project” ou o teu outro lado, tão importante quanto o mais conhecido?

Vejo o Wire Quartet não como um "side project", mas como uma segunda "working band" que, na realidade, nunca o chegou a ser. Isto porque Manuel Mota vive na Bélgica e porque o trabalho com o Motion Trio tem estado de tal forma intenso que deixa pouco espaço a outros projectos. No entanto, em termos espirituais (e é isso que interessa), o Wire Quartet é a minha segunda "working band". Estamos neste momento no processo de escuta das gravações que vão dar origem ao segundo álbum e que vai ser bastante diferente do primeiro.

Percebo o que dizes relativamente a Wire ser mais experimental e Motion mais jazz, mas devo avisar-te que isso poderá ser invertido em qualquer momento. O que quero dizer é que tanto o método da experimentação como as raízes no jazz fazem parte do ADN de ambos os projectos.

 

És um melómano, um coleccionador de discos e vens desenvolvendo actividade como crítico e jornalista de música. Ou seja, ouves muita música e aprecias coisas que ultrapassam em muito o âmbito do jazz e da improvisação. Pelas contribuições que tens dado a projectos de terceiros, as músicas electrónicas experimental e de dança, o rock alternativo e a pop “inteligente” interessam-te igualmente. O que ouve a personalidade do jazz Rodrigo Amado, do que gosta ele afinal?

Não me considero um coleccionador, mas antes alguém com uma enorme paixão por música. É curioso que tenho feito nos últimos tempos um enorme esforço para me ver livre de tudo aquilo que não me interessa, que não vou tornar a ouvir, independentemente de ser conceituado ou não. E este é um exercício que me tem ajudado a descobrir-me musicalmente, a perceber melhor quem sou, como ouvinte. Gosto, como disseste, de muitos tipos diferentes de música, embora esteja ultimamente bastante focado na redescoberta de coisas ligadas ao jazz e à música improvisada. Cada vez mais sinto que esta é uma das melhores formas de aprender, ouvindo o que outros fizeram antes de nós.

A quantidade e diversidade da música de que gosto é tão grande que seria uma tarefa ingrata estar aqui a enumerá-la exaustivamente. Procurando apenas cruzar alguns vectores exteriores ao jazz e música improvisada posso referir J Dilla, David Bowie, Brian Eno, Can, Tim Maia, Pere Ubu, DJ Shadow, Shabazz Palaces, Gil Scott-Heron, King Crimson, Mutantes, Townes Van Zandt, Lightnin' Hopkins, Madlib, Brigitte Fontaine, Alan Vega, David Axelrod, Dennis Brown, Lee Hazlewood, Bert Jansch, Ruins, Curtis Mayfield, The Meters, Scott Walker, Bill Fay, Black Sabbath e Cat Power, entre muitos outros.

 

Falando de electrónica… O trio Hurricane, com DJ Ride, ficou pelo caminho? O que é que procuravas ou procuras com ele? Uma síntese do teu jazz com a club music que também aprecias?

O trio Hurricane corresponde a uma perspectiva da música que deixei em suspenso. Desde o início eu sabia que iria ser um enorme desafio sem desfecho certo à vista. Mas nunca duvidei da química e da energia presentes nos encontros com o Ride e o Gabriel nem da estética que nos propunhamos visitar. Aquilo que sempre imaginei para o trio era, como dizia o nosso “press-release”, «uma improvisação intensa e orgânica, “drones”, “white noise”, explosões atonais de energia, free music irracional, “groove” mutante e polirritmias labirínticas» - no fundo, um cruzamento intuitivo (mais do que uma fusão) entre electrónica, livre-improvisação e jazz, entre as nossas linguagens individuais.

A ligação à "club" ou à "dance music" nunca me interessou. O que aconteceu foi que, na realidade, nem nós estávamos preparados para lidar com as questões estéticas daquele quadrante. Quando fomos para estúdio e ouvimos o que tínhamos feito não conseguimos chegar a conclusão alguma. A música é de tal forma "nova" para nós e "estranha" que as audições tornaram-se inconclusivas. Entretanto, atravessaram-se outros projectos à frente. Mas Hurricane continua bem vivo, à espera de um impulso qualquer, de uma evolução que o torne de novo vital. 

Está incrível

Com Joe McPhee, Ken Kessler e Chris Corsano, foto de Nuno Martins 

Colaboraste já em vários concertos com a banda de rock psicadélico / stoner rock Black Bombaim e gravaste com ela um disco, “Far Out”. Tem sido também uma consequência do teu apreço pelo rock? Conta-me como é que isso aconteceu…

A minha colaboração com os Black Bombaim surgiu de um convite de André Gomes, do Bodyspace, para gravar com eles um tema para a colectânea que celebrava os 10 anos do site. Quando ouvi a música deles aceitei de imediato. Gostei do que ouvi e imaginei a minha música cruzada com a deles. Foi assim que surgiu a minha colaboração no tema "Marraquexe" (Optimus Discos). Curioso foi o facto de que a minha improvisação foi gravada em estúdio, em Lisboa, tendo apenas como referência a gravação que eles me enviaram. Mais tarde, ao ouvir de novo o tema, quase parecia que o sax tinha sido gravado em conjunto com a banda, acompanhando todas as inflexões de dinâmica da música. Isso para mim foi um enorme processo de aprendizagem.

Quando os Black Bombaim me convidaram para participar em "Far Out", já sabia que era possível integrar o sax no fluxo orgânico da música sem eles estarem presentes. Foi mais fácil. Ainda este ano vai ser editado um LP com a gravação do “gig” que os Black Bombaim deram no Milhões de Festa 2014. Para além de mim, tocam também Isaiah Mitchell (dos Earthless) na guitarra e o Shela nos teclados. A música está incrível...

 

Até agora, e salvo os casos do Wire Quartet e dos Hurricane, tens separado as orientações da tua actividade musical. Estará para vir algum projecto em que juntes tudo (“all languages”) ou achas que, de alguma maneira, é já o que acontece quando ouvimos o novo “This is Our Language” ou algo como “The Freedom Principle”, com o Motion Trio e Peter Evans?

Para mim, um dos factores importantes em qualquer disco que ouço é a consistência. Ninguém quer ouvir um músico multifacetado destilar todas as suas influências e inspirações num só registo. As minhas diferentes "orientações", como referes, são para mim um todo mas ganham, num determinado momento, um foco específico. Esse foco é intuitivo e é algo que não combato.

 

O que vem a seguir, em termos de projectos, discos e concertos? Onde é que achas que estarás daqui a um ou dois anos?

Neste momento estou a trabalhar nas próximas edições - o segundo álbum do Wire Quartet, um duo com Chris Corsano e a gravação do Motion Trio com Peter Evans no Oto Cafe, em Londres, registada na digressão que demos no início do ano. Em termos de concertos, para além destes já anunciados - Teatro Maria Matos (1 de Outubro, com Matthew Shipp), De Singer (2 Outubro, Bélgica), Manufaktur (3 Outubro, Alemanha), Casa da Música (4 Outubro, Porto) e Seixal Jazz (23 Outubro) -, tive um convite para gravar e realizar uma nova tournée no Brasil, em Março de 2016. Vamos ver...

 

Para saber mais

http://rodrigoamado.com/

 

Discografia seleccionada 

Rodrigo Amado / Joe McPhee / Kent Kessler / Chris Corsano: “This is Our Language” (Not Two Records, 2015)

Rodrigo Amado Wire Quartet: “Wire Quartet” (Clean Feed, 2014)

Rodrigo Amado Motion Trio & Peter Evans: “The Freedom Principle” (NoBusiness Records, 2014)

Rodrigo Amado Motion Trio & Peter Evans: “Live in Lisbon” (NoBusiness Records, 2014)

Rodrigo Amado Motion Trio & Jeb Bishop: “The Flame Alphabet” (Not Two Records, 2013)

Rodrigo Amado Motion Trio & Jeb Bishop: “Burning Live at Jazz ao Centro (JACC Records, 2012)

Rodrigo Amado / Taylor Ho Bynum / John Hébert / Gerald Cleaver: “Searching for Adam” (Not Two Records, 2010)

Rodrigo Amado Motion Trio: “Motion Trio” (European Echoes, 2009)

Rodrigo Amado / Kent Kessler / Paal Nilssen-Love: “The Abstract Truth” (European Echoes, 2009)

Rodrigo Amado / Carlos “Zíngaro” / Tomas Ulrich / Ken Filiano: “Surface” (European Echoes, 2007)

Rodrigo Amado / Kent Kessler / Paal Nilssen-Love: “Teatro” (European Echoes, 2006)

Lisbon Improvisation Players: “Spiritualized” (Clean Feed, 2006)

Lisbon Improvisation Players: “Motion” (Clean Feed, 2004)

Rodrigo Amado / Carlos “Zíngaro” / Ken Filiano: “The Space Between” (Clean Feed, 2003)