Mutations

Vijay Iyer: “Mutations” (ECM)

ECM

Rui Eduardo Paes

Depois de “Historicity” e “Accelerando”, discos em que os factores ritmo e dançabilidade centraram as atenções de Vijay Iyer, não se esperava uma edição como esta que marca o início da colaboração do pianista e compositor com a ECM. “Mutations” tem coordenadas bem distintas, entrando pelos domínios da música contemporânea, ora a solo (piano apenas e piano com electrónica), ora com um quarteto de câmara, e contribui decisivamente para um mais amplo entendimento do universo pessoal deste músico norte-americano de origem indiana.

É esse quarteto, de resto, que se ouve na mais desarmante faixa do CD, “Mutations I-X”, suite em 10 partes que só podemos comparar, no seu impacto e no alcance inovador, com o trabalho para cordas de arco que Elliott Sharp desenvolveu no passado e, infelizmente, nunca mais retomou. Curiosamente, não é a formação que encomendou a peça em 2005 (ou seja, muito antes de Iyer ter mais explicitamente aberto o seu jazz às influências do hip-hop e do funk), ETHEL, que a executa aqui, e sim os violinos de Miranda Cuckson e Michi Wiancko, a viola de Kyle Armbrust e o violoncelo de Kibie Cahn-Lipman. Todos eles, como é de regra na música deste cultor da espontaneidade, vão muito para além da leitura da pauta, incorporando momentos de improvisação nas estruturas.

O início da obra faz-se com o tipo de síncopes que as recentes incursões desta já confirmada estrela do jazz de hoje faziam prever, se bem que “Spellbound and Sacrossant, Cowrie Shells and the Shimmering Sea” seja uma das suas composições mais antigas. Tudo se altera, porém, a partir do segundo tema (“Vuln, Part 2”), com um invulgar – no percurso de Iyer – recurso a processamentos por computador, ainda que estes não tomem o primeiro plano. O fecho com “When We’re Gone” mantém essa discreta orientação electroacústica.

Não é a primeira vez que no catálogo da ECM encontramos cordas em projectos de músicos de jazz, mas este crítico não se lembra de nenhum caso em que se tenha ido tão longe na associação. Não terá sido coincidência que, na mesma altura em que sai este álbum (início de Março), seja reeditada pela editora alemã uma experiência do género datada de 1974, com o Gary Burton Quartet a contracenar com um “ensemble” proveniente da NDR Symphony Orchestra na execução de partituras de Michael Gibbs que transpiram mais influências do rock progressivo do que propriamente da clássica. Porquê? Porque o nível de frescura, de descoberta, é muito semelhante, prova de que não foi tudo já “dito”.

Fica, para finalizar, a informação de que os registos seguintes de Iyer na “label” de Manfred Eicher serão um duo pianístico com Craig Taborn e mais uma investida do Vijay Iyer Trio…

  • Mutations

    Mutations (ECM)

    Vijay Iyer

    Vijay Iyer (piano, electrónica); Miranda Cuckson, Michi Wiancko (violinos); Kyle Armbrust (viola); Kibie Cahn-Lipman (violoncelo)