Angoulême 18 Mai 1980

Willem Breuker Kollektief: “Angoulême 18 Mai 1980” (Fou Records)

Fou Records

Rui Eduardo Paes

Responsável da Fou Records e ele próprio músico com actividade na área da improvisação, Jean-Marc Foussat é como que o Martin Davidson (o documentalista britânico que tem revelado os subterrâneos do jazz de vanguarda e da música improvisada do Reino Unido, além de dirigir a editora Emanem) de França e da cena continental europeia – a sua vida tem sido dedicada a gravar concertos. O espólio que foi reunindo é imenso e alguns dos documentos por si guardados ganharam uma enorme importância histórica.

Este é um deles, testemunhando uma actuação do holandês Willem Breuker Kollektief no saudoso Festival d’Angoulême, em 1980. Ou seja, num período de transição em que alguns dos membros da orquestra estavam a mudar – por exemplo, tinha saído o pianista Leo Cuypers para entrar o jovem Henk de Jonge e o cornetista Jan Wolff abandonara o navio, ainda se aguardando pela entrada de Andy Altenfelder para o seu lugar.

Nessa altura, o Kollektief disfrutava plenamente da fama e do proveito de ser uma das melhores coisas que tinham acontecido na década de 1970 ao bigbandismo, sendo habitualmente comparado com a Arkestra de Sun Ra. Para quem estivera associado com o mais seminal dos discos da “improv” do Velho Continente, o “Machine Gun” de Peter Brotzmann, estranhou que o projecto misturasse o free jazz tal como era entendido na Europa do movimento estudantil com tendências jazzísticas de mais remota confecção, como o swing de Stan Kenton.

E com os hinos revolucionários de Kurt Weill, a escrita operática de Rossini, o minimalismo de Philip  Glass, as bandas sonoras que Ennio Morricone fazia para o cinema “spaghetti” ou a loucura metódica de Erik Satie. Fosse através de arranjos das suas respectivas obras ou de peças originais concebidas “ao estilo de” e funcionando como piscadelas de olho.

Tudo isto com um embrulho teatralizado, humorístico e com elementos do vaudeville, incorporando músicas populares como o tango ou marchas de fanfarra. Sempre com um alcance político óbvio, de acordo com as ideias socialistas de Breuker. É o saxofonista e clarinetista que assina a maior parte das peças reunidas neste duplo álbum, a sós ou em parceria, mas no que à composição respeita fica bem clara a importância que o trombonista Willem van Manen tinha no colectivo – duas importantes faixas da selecção, “Pale Fire” e “Big Busy Band”, são de sua autoria.

E lá está a inevitável versão de Weill, com “Song of Mandalay”, o que podemos tomar como um emblema do experimentalismo da época, “Marche & Sax Solo with Vacuum Cleaner”, e ainda um punhado de “standards”, a exemplo de “Sentimental Journey” ou “Oh, You Beautiful Doll”. Antes de se falar em pós-modernismo, esta insana combinação de estilos, géneros e estéticas, surgindo para mais com uma forte personalidade musical, era algo de surpreendente e resultava eficazmente em situações ao vivo. Sobretudo quando cada elemento introduzido, e tocado com a maior das seriedades, era logo depois parodiado por um abrupto e contrastante elemento ou por um “gag” de efeito hilariante.

Isso fez com que os puristas do jazz desdenhassem as propostas de Breuker, mesmo que estas tivessem devolvido acessibilidade ao jazz e chegassem a uma audiência mais alargada. Nada que incomodasse o músico, tendo este inventado provocatoriamente, para si, um novo rótulo: música para seres humanos. O certo é que o público dos festivais que adorava os concertos etno-cósmicos de Sun Ra e as gingantes misturas de jazz e kwela da Brotherhood of Breath de Chris McGregor ficavam em estado de rebuçado com uma actuação do Willem Breuker Kollektief. Ouvir o ensemble em disco não é o mesmo, mas ficamos lá próximo…

  • Angoulême 18 Mai 1980

    Angoulême 18 Mai 1980 (Fou Records)

    Willem Breuker Kollektief

    Willem Breuker (clarinete, saxofones soprano, alto e tenor); Boy Raaymakers (trompete), Willem van Manen, Bernard Hunnekink (trombones); Bob Driessen (saxofones alto e barítono), Maarten van Norden (saxofone tenor); Henk de Jonge (piano); Arjen Gorter (contrabaixo); Rob Verdurmen (bateria)