Norbert Stein Pata Messengers: “Das Karussell” (Pata Music)

Rui Eduardo Paes

Rainer Maria Rilke não era propriamente um poeta patafísico, muito o distanciando da figura e da obra de Alfred Jarry (imaginem este como um ciclista percorrendo as ruas em grande velocidade com o corpo pintado de verde, numa espécie de “happening” do absurdismo e de celebração dos efeitos do absinto no cérebro – aconteceu de facto), mas o certo é que também ele cultivava a sua dose de paradoxos ou, se quiserem colocar as coisas nesses termos, de “incongruências”. Notável, nos seus versos, era a forma como conseguia ser tão perspicaz, nas suas observações da natureza humana, com uma abordagem bastante lacónica das palavras. Pois é em Rilke que se inspira o saxofonista e compositor Norbert Stein no seu mais recente disco, “Das Karussell”, à frente de uns Pata Messengers que incluem Nicola Hein em guitarra eléctrica, Joscha Oetz em contrabaixo, Etienne Nillesen em tarola preparada (sic) e címbalo e Ingrid Noemi Stein nas secções introdutórias de “spoken word”.

A concepção musical é, sem dúvida, rilkiana: procura-se que poucos elementos digam muito. E por vezes com fraseados temáticos totalmente inesperados, como em “Graue Liebesschlangen”. O motivo brasileiro e “lounge” deste não podia ser mais contraditório com o jazz elaborado que Stein subscreve – nisso, o músico alemão manifesta totalmente a sua adesão aos princípios da Patafísica. Quando, mais adiante, em “Loch mir die Auge naus: ich kann dich sehen”, ouvimos o mais destemperado free jazz, percebemos ainda melhor o carácter inclusivista desta filosofia da música. Apesar disso, este é bem capaz de ser o álbum mais “arrumado” e “formal” do músico que se apresentou no Porto em 2014. Parece, até, que Norbert Stein procurou reproduzir o carácter fortemente germânico da escrita de Rilke. No Sul da Europa isso não é fácil de assimilar, pois contrasta com a nossa maneira de ser, mas é bem verdade que este carrossel de sons tem tudo o necessário para nos deixar intrigados.