Jazz em Agosto, 21 de Junho de 2017

Jazz em Agosto

A amplitude do jazz do nosso tempo

texto Nuno Catarino

É em Julho ainda que tem início o grande festival português do mês de Agosto que aí vem. O cartaz propõe uma ampla variedade de práticas, tendências e estilos, combinando veteranos como Dave Douglas, Peter Brötzmann, Joëlle Léandre e David Torn com algumas novas glórias do género, a começar por Steve Lehman. Portugal estará representado por Carlos “Zíngaro” (Sudo Quartet, foto acima, de Gérard Rouy), Susana Santos Silva e EITR de Pedro Sousa e Pedro Lopes.

A 34ª edição do Jazz em Agosto realiza-se entre os dias 28 de Julho e 6 de Agosto. O mais importante festival português de jazz contemporâneo, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, leva a Lisboa um conjunto de propostas que reflecte a amplitude do jazz do nosso tempo, desde a improvisação aberta até à fusão do jazz com outras linguagens.

O festival arranca a 28 de julho com os Sélébéyone de Steve Lehman. Cruzando as linguagens do jazz e do hip-hop, este projecto tem como principal característica a participação de dois “rappers”, HPrizm (Antipop Consortium) e Gaston Bandimic (do Senegal). Além destes e do sax alto de Lehman, o grupo tem a participação de Maciek Lassere (saxofone soprano), Carlos Homs (teclados), Chris Tordini (baixo elétrico) e Damion Reid (bateria). Se é verdade que há um histórico de diálogos entre jazz e hip-hop (como os icónicos “Rockit” de Herbie Hancock, “Doo-Bop” de Miles Davis ou “Jazzmatazz” de Guru), os mesmos ganharam maior expressão com a parceria entre Kendrick Lamar e Kamasi Washington ou o projecto The Young Mothers (de Ingebrigt Håker Flaten, que actuou no Jazz em Agosto de 2015).

Já figura de proa do jazz do nosso tempo, Lehman vem construindo o seu percurso como sólido instrumentista e compositor originalíssimo – confirmado em discos marcantes como “Manifold” (2007), “Dual Identity” (2010) e “Mise en Abîme” (2014). Ao leme dos Sélébéyone, Lehman ousa uma arrojada interligação de idiomas musicais sempre em alta intensidade.

O Jazz em Agosto continua no dia seguinte, 29, às 18h30, com a actuação de Steve Lehman a solo (saxofones e electrónica). À noite (21h30), o Auditório ao Ar Livre acolhe o trio Sun of Goldfinger de David Torn. Guitarrista atípico, Torn ficou conhecido por combinar sons eléctricos e acústicos e, além do trabalho em nome próprio – destaque para o excelente “Prezens” (ECM, 2005) –, é responsável pela produção de obras-primas alheias (destaque para a colaboração com Tim Berne). Neste projecto Torn junta-se ao saxofonista e amigo de longa data Tim Berne e ao baterista Ches Smith, para uma música que desafia fronteiras.

No dia 30 de Julho a música arranca às 18h30 com Julien Desprez a solo (Auditório 2). No espectáculo “Acapulco Redux”, o músico francês apresenta um solo de guitarra eléctrica. À noite, Desprez volta a palco, desta vez como membro da Coax Orchestra. Herdeira dos grupos Prime Time de Ornette Coleman e Naked City de John Zorn, a Coax Orchestra toca uma música resultante de uma mescla de referências, do jazz aberto ao rock libertino. Além de Desprez, o grupo inclui Antoine Viard (saxofone), Aymeric Avice (trompete e percussão), Romain Clerc-Renaud (teclados), Rafaëlle Rinaudo (harpa elétrica), Xuan Lindenmeyer (baixo elétrico) e Yann Joussein (bateria, composição e direcção).

Na noite de segunda-feira, 31, o veterano Peter Brötzmann (saxofones e clarinete) regressa ao Jazz em Agosto, desta vez para actuar em duo com Heather Leigh (guitarra “pedal steel”). Este é o mais recente projecto do saxofonista alemão, que já neste ano de 2017 editou o disco “Sex Tape” (edição Trost). O sopro incendiário de Brötzmann terá a companhia da guitarra abrasiva de Leigh, americana a residir na Escócia, num duo de verdadeira música de fogo.

O mês de Agosto começa com a actuação do quinteto Life and Other Transient Storms, na noite de terça-feira. Liderado pela trompetista Susana Santos Silva, este grupo internacional reúne Lotte Anker (saxofones tenor e soprano), Sten Sandell (piano), Torbjörn Zetterberg (contrabaixo) e Jon Fält (bateria). O quinteto desenvolve uma música puramente assente na improvisação livre, fervilhante e sem rede.

Steve Lehman Sélébéyone por Willie Davis

Peter Brotzmann e Heather Leigh

David Torn Sun of Goldfinger foto por Caterina di Perri

Susana Santos Silva

Jamie Saft

Larry Ochs The Fictive Five

Pedro Lopes foto por Carlos Paes

Dave Douglas

No dia 2, quarta-feira, actua no Auditório ao Ar Livre o Sudo Quartet. A formação junta quatro nomes grandes da improvisação livre mundial: o português Carlos “Zíngaro” (violino), a francesa Joëlle Léandre (contrabaixo), o italiano Sebi Tramontana (trombone) e o alemão Paul Lovens (bateria). O álbum “Live at Banlieue Bleue” (NoBusiness, 2012) testemunha a dinâmica do quarteto, um imenso fluxo de ideias numa música rica em detalhes.

O segundo fim-de-semana do festival inicia-se com a prestação dos Starlite Motel - 3 de Agosto, às 21h30. Este quarteto reúne Jamie Saft (colaborador de John Zorn, no órgão Hammond) e três músicos noruegueses de créditos firmados: Kristoffer Alberts (saxofones alto e tenor), Ingebrigt Håker Flaten (baixo elétrico) e Gard Nilssen (bateria). O disco de estreia do grupo, “Awosting Falls” (edição Clean Feed, 2016), exibe a colada interacção sonora da banda.

No dia 4 de Agosto, às 18h30, o Auditório 2 acolhe Pascal Niggenkemper em solo de contrabaixo. O versátil contrabaixista franco-alemão, que tem espalhado o seu talento por diversos agrupamentos (Le 7ème Continente, PNTrio, Vision7, Baloni, etc.), terá oportunidade de mostrar todas as suas capacidades. À noite integra os The Fictive Five, liderado pelo veterano Larry Ochs (saxofones tenor e sopranino). O grupo conta ainda com as participações de Nate Wooley (trompete), Ken Filiano (contrabaixo) e Harris Eisenstadt (bateria). A música do quinteto nasce e desenvolve-se a partir de imagens - do artista visual William Kentridge e dos cineastas Wim Wenders e Kelly Reichardt.

Ao final da tarde de sábado, 5 Agosto, actua o projecto EITR. O duo de Pedro Sousa (saxofones, electrónica) e Pedro Lopes (percussão em gira-discos, electrónica) apresenta no Museu-Coleção Moderna (Nave) a sua música livremente improvisada, mista de “drone” e experimentação electrónica. O disco “Trees Have Cancer Too” (edição Mazagran, 2013) confirma a originalidade da proposta nacional.

Na noite do mesmo dia intervém o supergrupo Human Feel. Quatro músicos extraordinários juntam-se neste quarteto para apresentar um jazz enérgico e eléctrico. Nascido em 1987, junta Andrew D’Angelo (saxofone alto e clarinete baixo), Chris Speed (saxofone tenor e clarinete), Kurt Rosenwinkel (guitarra elétrica) e Jim Black (bateria e eletrónica).

O festival encerra, no domingo dia 6, com os High Risk de Dave Douglas. Neste projecto, o icónico trompetista conta com a companhia de Ian Chang (bateria), Jonathan Maron (baixo eléctrico) e Rafiq Bhatia (eletrónica). Douglas aventura-se numa mescla fluída de jazz e electrónica, resultando um som herdeiro da fusão eléctrica de Miles Davis e próximo dos mundos etéreos de Jon Hassell.

Os bilhetes têm preços entre 12€ e 20€; o passe anfiteatro para todos os concertos vale 100€; o passe para os concertos do primeiro fim-de-semana (29, 30 e 31 de julho) ou do segundo (4, 5 e 6 de agosto) fica por 35€ cada; os concertos no Auditório 2 e no Museu-Coleção Moderna têm entrada gratuita.

 

Para saber mais

https://gulbenkian.pt/jazzemagosto/