Ciclo de Jazz da Amadora, 13 de Março de 2017

Ciclo de Jazz da Amadora

Entre o intimista e o orquestral

texto Rui Eduardo Paes fotografia Município da Amadora

Dois concertos introspectivos, outros dois com grandes massas sonoras e um a puxar pela electricidade: foi este o enquadramento da sétima edição do festival que se diz ciclo na Amadora. Na memória ficarão, muito em particular, as prestações dos veteranos João Paulo Esteves da Silva e Carlos Bica e dos jovens Home (foto acima).

Tal como nas edições anteriores, a sétima do Ciclo de Jazz da Amadora pode ter tido como “tema” a diversidade do jazz que é praticado no nosso país, mas teve agora também um enquadramento especial: o primeiro (Afonso Pais e Rita Maria) e o último (João Paulo Esteves da Silva e Carlos Bica) dos concertos, a 1 e a 4 de Março, foram de carácter intimista, tendo ficado no meio, no dia 2 e na matinée de 4, os que juntaram no palco maiores números de participantes (GeraJazz e Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal), com a ponte a ser feita, no dia 3, pelos Home de João Barradas. A programação do Jazz ao Centro Clube para esta iniciativa do município local acabou por instalar uma atmosfera particular, feita de escuta atenta e concentração, mesmo quando a massa sonora se instalava, fosse pela quantidade de sopros em presença como pelos instrumentos eléctricos utilizados. Coisa que vai rareando nos tempos que correm: não se ouviam as conversas de fundo que são infelizmente hábito nos concertos de jazz em Portugal.

E começou muito bem, este festival que prefere não ter essa designação como nome, apesar de em tudo o resto coincidir com o carácter festivaleiro de outros eventos. Em formato de duo, a associação entre Afonso Pais e Rita Maria ficou marcada por um despojamento que não encontramos no álbum “Além das Horas”, pelo facto de incluir intervenções de outros músicos. A música não podia ter tido entrega mais simples: uma guitarra sem efeitos e uma voz, com uma crueza e uma autenticidade que chegaram a ser comoventes. Afonso Pais é bem capaz de ser o melhor guitarrista que por cá temos, com admiradores inclusive entre quem não adere às suas orientações estéticas. Por sua vez, Rita Maria muito se destaca da quantidade de vocalistas femininas em actividade. Isso ficou bem patente nos Recreios da Amadora. As malhas do primeiro pareciam filigrana, claras, assumidas, certeiras no vocabulário e parcimoniosas na argumentação, sem um acorde ou uma nota a mais ou a menos. A voz aveludada da segunda transmitia emoções que iam para lá das palavras, quando palavras havia – frequentemente não, nem eram necessárias, pois percebíamos bem o que o canto dizia.

Afirmou a própria cantora, depois da actuação, que a atitude partilhada por ambos é declaradamente “old school”, não por conservadorismo, mas por remeter tudo para uma noção de musicalidade que afasta critérios de “vestimenta” de acordo com o que possa ser melhor aceite. E de facto, as várias tradições estilisticamente cobertas pelo projecto musical, reconhecendo-se em particular a brasileira para além da do jazz, não eram passivamente reproduzidas: Pais e Maria acrescentavam-lhes sempre algo de seu e algo de invulgar. Foi bem merecida, a ovação de pé que lhes agradeceu a arte e o esforço.

Seguiu-se, como vem sendo de regra ano após ano, a apresentação do ramo da Orquestra Geração que se dedica ao jazz, sob a direcção de uma figura da nossa música a quem falta ainda dar o devido reconhecimento, o trombonista Eduardo Lála. Os préstimos individuais dos muito jovens instrumentistas variaram consoante o tempo de trabalho que têm no seio da GeraJazz, mas todos eles atiraram-se para diante na altura de improvisar, e é isso que esta “escola” na mais nobre acepção do termo tem de mais cativante: ensina o risco e não apenas a “blue note”. Nas peças mais de leitura ao jeito “big band” percebeu-se igualmente que os miúdos sabem o que é tocar em conjunto. O projecto é elogiável pelos seus objectivos no plano social (se ainda não os conhecem, visitem esta página: http://www.orquestra.geracao.aml.pt/), mas também pelo que tem conseguido musicalmente. Assim como é de congratular a autarquia da Amadora por continuar a apoiá-lo, reservando-lhe uma noite do seu ciclo.

O concerto dos Home teve, depois, como premissa uma aposta do Ciclo de Jazz da Amadora nos valores do jazz português que no momento estejam em afirmação, e ninguém melhor do que João Barradas e os seus parceiros, representantes da nova geração das cenas de Lisboa e do Porto, para lhe dar corpo. Barradas é um largamente premiado acordeonista, não obstante a sua idade, e este grupo estava a causar bastantes expectativas nas vésperas de o seu disco debutante ser editado. O instrumentário de acordeão MIDI tocado em registo de Fender Rhodes e de sintetizador, duas guitarras (Mané Fernandes e Gonçalo Neto), um vibrafone (Eduardo Cardinho), um baixo eléctrico (Ricardo Marques) e uma bateria (Guilherme Melo) só podia propor um jazz de confecção bastante diferente do usual. Caiu no agrado do público, que foi manifestando isso mesmo ao longo do concerto.

Afonso Pais e Rita Maria

João Paulo Esteves da Silva e Carlos Bica

Em termos composicionais, detectou-se alguma insistência no ostinato, com figuras rítmicas muito semelhantes em todos os temas, como se cada um fosse uma variação do anterior. O certo é que ficou assim estabelecido um tipo identitário de abordagem – apenas uma longa introdução do líder com a típica sonoridade do piano eléctrico saiu desse modelo. Esse solo foi um dos melhores momentos da noite. A influência do rock era mais do que evidente, bem como o peso da escrita, mas Barradas deixou ao sexteto muito espaço para improvisar. A este nível, é de realçar o que fizeram Cardinho e Fernandes quando tomaram a dianteira. Nos “tutti”, a música agigantava-se, cumprindo nesse aspecto com o que o mesmo João Barradas prometia antes da actuação – que este é «um grupo de rock». Não será bem assim, mas parecia…

Na única saída dos Recreios nesta edição do ciclo, para o maior auditório do Cineteatro D. João V, ouviu-se de seguida a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal, dirigida por Luís Cunha, a interpretar algum do repertório de António Pinho Vargas quando este passou pelo jazz – hoje é um renomado compositor de música erudita. A prestação serviu para apresentar o novíssimo álbum “A Dança dos Pássaros”. Se dúvidas houvesse quanto à transposição da música delicada e melodiosa do quarteto de Pinho Vargas para o formato de orquestra, depressa se dissiparam. Os arranjos realizados por membros da “big band”, com realce para o próprio trompetista-maestro e para o saxofonista César Cardoso, conseguiram manter a particular caracterização das peças e até dar-lhes uma segunda vida – se bem que distanciando-as do “estilo ECM” original. Para o “som” destas versões, no concerto tal como no disco, muito contribuíram o clarinete baixo de Paulo Gaspar e a flauta de Daniel Vieira.

A excelência performativa da secção rítmica de Óscar Graça no piano (e num teclado electrónico que fez as vezes da ausente guitarra), António Quintino no contrabaixo e Pedro Felgar na bateria foi fundamental para os resultados. Entre os muitos solos, de salientar os de Luís Cunha e da única mulher da orquestra, a saxofonista tenor Mateja Dolsak. A “cover” que deixou mais impressões positivas foi a de “Movimento Parado das Árvores”, mas a que terá ficado na memória da assistência, ao sair, foi a melodia de “Tom Waits”,tocada no “encore”.

De regresso aos Recreios, o fecho do Ciclo de Jazz da Amadora fez-se com chave de ouro e a sala lotada, num sublime (nenhuma outra palavra faria justiça ao que aconteceu) entrosamento entre João Paulo Esteves da Silva e Carlos Bica, a partir de composições de ambos. A selecção incidiu sobre as mais introspectivas, melancólicas e suaves que já escreveram, só não cansando a toada criada deste modo porque cada premir de teclas ou beliscão de cordas trazia à tona pormenores de uma beleza que nos deixava rendidos. Pelo meio, ouvimos o pianista tocar uma nota aguda ao mesmo tempo que desenhava um “cluster” grave com a outra mão, assim criando uma dissonância. Essa mesma nota aguda foi logo aproveitada para o que veio a seguir, desconcertando-nos e deixando-nos sem fôlego. Fez-me lembrar o equívoco de um musicólogo que, há uns anos, perguntou a Esteves da Silva, depois de um concerto deste, por que era o jazz «tão pouco atrevido». Na poesia sonora desta dupla tanto houve lugar para o contemporâneo e o extravagante como para algo que nos transportou até ao barroco, sobretudo da parte de Bica.

Dizia José Miguel Pereira, do JACC, ao microfone, uma hora antes destes procedimentos, que apetecia continuar com a música, dia após dia. Tudo chega, no entanto, ao fim, mas com certeza que para o próximo ano haverá mais.