Jazz Vária, 3 de Janeiro de 2019

Jazz Vária

Vidas cruzadas (1/ Hampton Hawes)

texto António Branco

Vária (do latim varĭa, neutro plural, «coisas várias»): Vá-ri-a. Nome feminino. Coletânea de obras variadas. Conjunto de diversos assuntosFactos, curiosidades, memórias, apontamentos soltos. História e estórias com jazz e suas periferias. Uma coluna de António Branco.

Por norma subestimado, o pianista e compositor Hampton Hawes (1928-77) trilhou um itinerário autónomo, estudando teoria, técnica, improvisação e harmonia de forma autodidata. Desenvolveu um pianismo próximo ao de Horace Silver, sobretudo em termos rítmicos, embora no seu estilo abundassem os floreados bop, que influenciariam pianistas como Oscar Peterson. Tocou brevemente com Charlie Parker em 1947, ano em que se estreou em disco ao lado de Dexter Gordon e Wardell Gray. Serviu o exército norte-americano no Japão, onde mais tarde gravou (assim como o fez na Europa). O seu trabalho mais marcante registou-o em trio, com o contrabaixista Red Mitchell e o baterista Chuck Thompson.

Tal como muitos músicos da sua geração (e de outras...), Hawes era viciado em heroína. A 20 de janeiro de 1961, assistindo na prisão-hospital de Fort Worth, no Texas, ao célebre discurso de posse de John Fitzgerald Kennedy, percebeu que a História se fazia diante dos seus olhos. E não foi apenas o facto de a nova figura presidencial dispensar o chapéu, rompendo com a tradição. Foi o magnetismo do 35.º Presidente dos Estados Unidos que mais captou a atenção do músico, cuja vida estava prestes a mudar. Impactado, não perdeu tempo: no dia seguinte disse aos responsáveis da prisão que pretendia pedir um perdão presidencial. Passaria mais de um ano até encontrar um advogado disponível para o ajudar. Ao requerimento que enviou para Washington, prenhe de expressões em latim, juntou várias cartas de recomendação.

Contrariando as expetativas mais otimistas, a resposta positiva chegou a 16 de agosto de 1963. Apesar de terem sido inúmeros os músicos de jazz que cumpriram penas por posse e tráfico de droga, Hampton Hawes foi o único a receber clemência presidencial, num dos últimos atos executivos do Presidente Kennedy, que concedeu 43 indultos durante o seu derradeiro ano no cargo (Hawes recebeu o penúltimo). Três meses depois, JFK seria assassinado em Dallas, em local a escassa distância da prisão que Hawes deixara.