Representação de feminidade e feminismo no jazz português, 12 de Maio de 2021

Representação de feminidade e feminismo no jazz português

A esquiva fronteira

texto José Dias

A representatividade feminina no jazz português ainda é decorativa e marcada por tiques patriarcais, como o demonstrou a iniciativa “OJA Invites the Ladies”, escolhida pela Orquestra de Jazz do Algarve para comemorar o Dia Internacional do Jazz. O investigador e músico José Dias salienta no texto abaixo o conservadorismo e os preconceitos por detrás das “boas intenções” que terão existido nesse modo de comemorar o Dia Internacional do Jazz.

No passado dia 30 de Abril, como nos últimos dez anos, celebrou-se o Dia Internacional do Jazz. Multiplicaram-se iniciativas pelos mais diversos pontos do globo, tanto de forma presencial com as respetivas restrições sanitárias, ou puramente “online”. Tem existido um crescente interesse e debate sobre a representação da mulher na música e, no jazz, essa discussão tem sido também sustentada por um número cada vez maior de projetos de investigação académica. O caso talvez mais relevante dos últimos tempos é o relatório que a investigadora Sarah Raine, da Birmingham City University, realizou em parceria com a Keychanges – uma instituição que promove a música e a saúde mental – e o Cheltenham Jazz Festival – um dos mais antigos e populares festivais de jazz no Reino Unido. O relatório, intitulado Challenges for Women Musicians in Jazz and Ways Forward for Equal Representation at Jazz Festivals, analisa o equilíbrio de género na programação dos últimos 25 anos em quatro festivais de jazz britânicos: Cheltenham, Manchester, Hull e Glasgow.

Os resultados não são de todo surpreendentes: em média, as mulheres perfazem apenas um terço do número total dos músicos programados; existe uma gritante sub-representação de mulheres instrumentistas; as bandas exclusivamente masculinas continuam a ser extremamente dominantes; e a regra “one woman on stage” – promovida pela Keychanges, que exige que pelo menos 50% das bandas tenham uma mulher e que é seguida por estes festivais – na realidade engana, esconde e perpetua um sistema em que a mulher está longe de ter um acesso aos diversos papéis no jazz em igualdade de circunstância com os homens.

Em breve, sairá um estudo semelhante sobre a realidade do jazz em Portugal que tive o privilégio de conduzir com Beatriz Nunes, pelo que não farei já a revelação de dados concretos. No entanto, posso desde já adiantar que, se por um lado, alguns dos dados de Sarah Raine revelam factos que nos são familiares, por outro, mostram como em Portugal a realidade é ainda mais preocupante.

A décima celebração do Dia Internacional do Jazz foi, portanto, uma oportunidade para se refletir sobre a representação da mulher. E por “representação da mulher no jazz” entende-se duas coisas fundamentais e interdependentes: a proporção de mulheres no jazz relativamente aos homens e a perceção que se transmite acerca das mulheres que fazem jazz. Como vimos, no campo quantitativo, da proporção, os números são preocupantes. Mas, talvez mais preocupante – porque é um elemento qualitativo e, por isso, a expressão de matrizes de pensamento e comportamento – é a forma como se continua, em alguns casos, a promover as artistas femininas no jazz em Portugal. Precisamente no Dia Internacional do Jazz – e provavelmente como forma de tocar no tema da mulher no jazz - a Orquestra de Jazz do Algarve realizou o concerto “OJA Invites the Ladies”, no Teatro das Figuras, em Faro. O texto promocional anunciava:

«Orquestra de Jazz do Algarve Invites the Ladies é um projecto novo que decidiu reunir três vozes femininas, novos valores e consagradas. Clara Buser e Sara Miguel são os novos valores, enquanto que a consagrada Maria Anadon presta as honras de carreira cimentada.»

Para além do atentado sintático na primeira frase e da linguagem bizarra e antiquada, o que o texto promocional revela e confirma é a matriz obsoleta e patriarcal que o título já denunciava: a ideia de que a mulher é convidada – por ser mulher, depreende-se para um espaço que não lhe pertence; que estas são “ladies” – que projeta um estereótipo específico de se ser mulher; e, absolutamente injustificável, não nomeia afinal quem estas mulheres são. A mulher aqui é apenas um “token” – uma cruz na lista do politicamente correto –, mas sem nome, anónima. Na realidade, ela está lá como mulher, nada mais. A OJA, que conta com uma instrumentista, a saxofonista barítono Jéssica Lourenço, talvez tenha tido a melhor das intenções com esta iniciativa. Mas errou miseravelmente o alvo.

São muito comuns os exemplos, certamente muito bem-intencionados, de promoção da mulher no jazz que acabam a promover feminidade em vez de feminismo, perpetuando as mesmas matrizes patriarcais, as mesmas narrativas, os mesmos preconceitos, as mesmas desigualdades de género e a mesma perceção de mulher enquanto uma curiosidade exótica, externa ao jazz. Sobretudo aqueles em que a mulher surge apenas e só nos pouquíssimos papéis que lhe são expectáveis e tradicionalmente aceites – como cantora ou pianista. O projeto Elas e o Jazz parece mais um desses exemplos em que nenhum dos instrumentistas é mulher – a mulher surge ali no seu papel tradicional, no seu lugar habitual, a promover uma forma conservadora de feminidade no jazz.

“The Gender-stereotyping of Musical Instruments”, um estudo realizado por Ables e Porter em 1978, mostrou que os entrevistados entendiam que alguns instrumentos, como a bateria, o trombone e o trompete, eram mais frequentemente considerados no mundo do jazz como “masculinos”. Já a flauta e o violino eram vistos como “femininos”. Vamos entendendo, pelos diversos estudos sobre igualdade de género na música que estão a decorrer, que a escolha do instrumento nas primeiras fases de aprendizagem de música depende em grande medida dos exemplos a que se é exposto. Em média, uma jovem rapariga (e que se identifique como rapariga) que inicie o estudo de música sentir-se-á inclinada a escolher um instrumento que esteja associado à identidade feminina. A aprendizagem da música não está dissociada do processo de formação de identidade individual e coletiva – de facto contribui em grande medida para elas. Ora, sem exemplos femininos de bateristas, contrabaixistas, madeiras ou metais, as possibilidades de vermos mais jovens a aprender esses instrumentos continuará reduzida.

Mas existem boas exceções. As bandas filarmónicas, essa herança fantástica da primeira República, espalhadas por todo o território, têm-se revelado uma instituição de extrema importância na educação musical do país. Mais, têm estado junto das populações mais desfavorecidas, longe dos grandes centros urbanos, e são, em muitos casos, a única forma que os jovens têm de experienciar música. Muitos e muitas musicistas de jazz português – principalmente de metais e madeiras – vêm das bandas filarmónicas, onde a igualdade de género parece mais próxima e natural do que, curiosamente, no jazz – uma música que nasceu da luta pelas diversas formas de igualdade de direitos. E especificamente no jazz e na música improvisada em Portugal existem também bons exemplos de um esforço por colocar mulheres em palco e lhes dar voz, exposição e uma plataforma. O Jazz no Parque 2017 criou o projeto Joelle Léandre X 5, com Joelle Léandre (contrabaixo, voz), Susana Santos Silva (trompete, fliscórnio), Maria Radich (voz, dança), Maria do Mar (violino), Joana Guerra (violoncelo, voz) e Angélica V. Salvi (harpa, electrónica). A Festa do Jazz, que tem vindo a promover debates sobre o papel da mulher no jazz nos últimos três anos, programou em 2020 duas formações exclusivamente femininas: Susana Santos Silva (trompete, fliscórnio) e Angélica V. Salvi (harpa) e o quarteto de Inês Proença (piano), Maria Fonseca (trompete), Sofia Queiróz (contrabaixo) e Beatrix Félix (bateria).

Para quem veja em bandas femininas mais um exemplo de puro tokenismo, a realidade é que os estudos também têm vindo a mostrar que estas são vistas pelas mulheres que as integram como um espaço seguro, onde podem partilhar experiências, falar abertamente de assédio moral e sexual, procurar ajuda e conselho, onde não se sentem hiper-sexualizadas e onde se sentem mais confiantes para fazerem propostas artísticas em pé de igualdade.

Depois existem os coletivos. O Women in Jazz no Reino Unido ou o We Have Voice a partir de Nova Iorque são exemplos de duas formas diferentes de ativismo, recolha e divulgação de investigação e suporte. Em Portugal é necessário que se dialogue mais e imperioso que as redes informais que já existem desta natureza se tornem formais e apoiadas, mas sejam, sobretudo, escutadas.