, 22 de Agosto de 2013

Adeus a Marian

Poucos dias antes víramos partir o grande Cedar Walton, mas a comunidade dos pianistas de jazz iria perder um dos seus baluartes também nesta última terça-feira, 20 de Agosto: a esplêndida e bem-amada Marian McPartland.

Com 95 anos, Marian adormeceu pela última vez na sua casa em Long Island (Nova Iorque), rodeada pela família e pelos amigos mais íntimos. Nascera em Inglaterra, onde começou a aprender piano clássico a partir, apenas, dos 3 anos de idade, tendo continuado os seus estudos na Guildhall School of Music.

Para grande desgosto dos pais e horror dos seus professores, interrompeu esses estudos para se juntar a um espectáculo de vaudeville. Durante a Segunda Guerra Mundial tocou para as tropas aliadas e aí conheceu o seu futuro marido, o cornetista Jimmy McPartland. Partiu para Nova Iorque com o marido em 1953, tendo aterrado na Hickory House (um clube de jazz na Rua 52), onde tocou de modo intermitente durante 10 anos com gigantes como Duke Ellington e Benny Goodman.

Foi também uma distinta personalidade da National Public Radio (NPR), onde manteve durante 34 anos o programa semanal “McPartland's Piano Jazz. Marian iniciou estas emissões em 1978, tendo entrevistado ao vivo centenas de profissionais do jazz e a generalidade dos pianistas de jazz do pós-guerra. Aí abordou uma grande variedade de estilos, representados por personalidades que foram de Eubie Blake a Cecil Taylor, passando por Chick Corea.

No seu programa, ela e os convidados sentavam-se habitualmente em dois pianos e conversavam, improvisavam ou simplesmente tocavam em dueto ou a solo. Era uma apresentadora enérgica, que sabia seduzir os seus convidados e a audiência com o seu espírito, a sua compaixão e a sua musicalidade.

Marian McPartldand é uma lenda entre os pianistas de jazz, tendo a sua carreira durado mais de seis décadas – só em 2011 se retirou. Tinha uma técnica e um “swing” impecáveis, um agudo sentido harmónico, muito humor e um gosto refinado pela simplicidade melódica, transmitindo-nos calor, carisma e intimidade.

Gravou mais de 50 álbuns para a editora Concord Jazz e, mais tarde, para a sua própria etiqueta, a Halcyon Records, convidando nomes como, por exemplo, Tony Bennett e Peggy Lee.

Na época em que viveu, os preconceitos resultantes da sua dupla condição de mulher e de estrangeira não lhe facilitaram a vida. O ambiente musical do jazz era fortemente masculinizado nos anos 1950, mas a sua energia foi sempre suficiente para remover qualquer obstáculo.

Disto é um bom exemplo o que Marian nos conta num ensaio escrito por si mesma: «Uma vez um homem sentou-se no bar de um clube de jazz e manteve sempre o seu olhar sobre mim enquanto eu tocava. No fim do “set” dirigiu-se-me dizendo, com um sorriso: “Pelo modo como toca você não pode ser uma mulher respeitável.” Por uma razão ou por outra isso tocou-me como um grande cumprimento.»

Ainda em 1970 um crítico da Down Beat se referia a ela, preconceituosamente, como um pianista com toque feminino. Marian tinha a técnica, a criatividade e expressividade de um grande pianista de jazz, ponto final. O género não é para aqui chamado!

Entre muitas outras distinções, foi nomeada como NEA Jazz Master pela National Endowment for the Arts em 2000 e em 2007 o Kennedy Center designou McPartland como uma Living Jazz Legend. (José Pessoa)