, 21 de Setembro de 2013

Está aí o Seixal Jazz

Na sua 14ª edição, o Seixal Jazz reconquista um espaço que era tradicionalmente seu, mas entretanto perdera: o Auditório Municipal. Deixa, no entanto, de compreender a vertente mais “club” do festival: os concertos tardios realizados nos Antigos Refeitórios da Mundet. A solução para o diminuído cartaz deste ano de crise e austeridade, indo de 23 a 26 de Outubro, é de compromisso: repõe-se o lado mais “mainstream” habitualmente levado para o Auditório e junta-se-lhe o mais vanguardista que surgia na Mundet.

Sempre com arranque às 22h00, e sempre com dois “sets”, os concertos do Seixal Jazz têm início, na realidade, a 17 de Outubro, dia de apresentação do evento aos “media”, com uma prestação a solo do pianista argentino Pablo Lapidusas. Radicado em Lisboa, depois de uma estadia no Rio de Janeiro, a sua música é, também, de compromisso, englobando o jazz, a pop e a clássica num repertório que inclui peças de Duke Ellington, Tom Jobim, Beatles e Ennio Morricone.

A 23, toca o Snakeoil de Tim Berne, grupo norte-americano de jazz enérgico com os habituais traços de soul e rock do saxofonista, mas também – visto tratar-se de um projecto ECM – de uma escrita europeísta na sua complexidade quase erudita, muito por influência do produtor Manfred Eicher. Com Oscar Noriega nos clarinetes, Matt Mitchell ao piano e o camaleónico Ches Smith na bateria, mantêm-se as características que tornaram o herdeiro de Julius Hemphill e Henry Threadgill num caso à parte, mas agora dirigindo-se a outros desfechos.

No dia seguinte apresentam-se Nelson Cascais e a sua homenagem ao autor de “Pitecantropus Erectus”, The Mingus Project. Numa altura em que o contrabaixista e compositor português tem a rodar aquela que é a sua mais ambiciosa – e a mais gratificante de ouvir – incursão musical, aquela que se ouve em decateto no álbum “A Evolução da Forma”, não deixa de ser curioso que os festivais lhe prefiram as versões de Charles Mingus e este é mais um caso. Talvez seja o factor público a determinar as programações, mas o certo é que se trata de uma proposta aliciante. De referir a participação do mais jovem saxofonista em cena, o muitíssimo promissor Ricardo Toscano.

A 25 sobem ao palco dois históricos da modernidade do jazz europeu, o pianista Joachim Kuhn e o baterista Daniel Humair, a eles se juntando o contrabaixista que substituiu o falecido Jean-François Jenny-Clarke no trio, o não menos dotado Jean-Paul Celea. Sendo Kuhn alemão e Humair suíço, o facto de residirem em França desde a década de 1960 fez com que se tornassem em figuras-chave do jazz gaulês, por eles tendo passado a evolução de tendências como o jazz-rock e o free jazz naquele país. A música destes veteranos mergulha fundo na música erudita, ou não fosse Kuhn um virtuoso praticante da arte da fuga de Bach.

O fecho faz-se com o Donny McCaslin Quartet e o alinhamento de temas do mais recente disco deste, “Casting for Gravity”. Um dos mais poderosos saxofonistas tenor em actividade, McCaslin (foto acima) é um  herdeiro directo de gigantes do seu instrumento como Coleman Hawkins, Ben Webster e John Coltrane, senhor de um som possante que ganha tanto maior impacto quanto mais improvisa. Se a matriz do seu jazz está no bop e no pós-bop, a receita deste quarteto é particularmente “groovy”, com uns portentosos Tim Lefebvre e Mark Giuliana no contrabaixo e na bateria, respectivamente, e conta com os teclados electrónicos de Jason Lindner.