, 11 de Janeiro de 2014

O adeus de Roy Campbell e Amiri Baraka

No mesmo dia, 9 de Janeiro, desapareceram duas figuras marcantes do mundo do jazz: Roy Campbell Jr. e Amiri Baraka.

Nascido em Los Angeles em 1952, o trompetista Roy Campbell Jr. tornou-se num dos mais notáveis do instrumento. Tendo ao longo do seu percurso atravessado vários géneros, o seu nome ficou sobretudo associado ao free jazz. Estudou inicialmente com Kenny Dorham e Lee Morgan e, posteriormente, foi pupilo de Yusef Lateef.

Colaborador próximo de William Parker e Matthew Shipp, participou em grupos que marcaram o jazz das três últimas décadas, como Other Dimensions In Music (com Daniel Carter, William Parker e Rashid Bakr) e a Little Huey Creative Music Orchestra de William Parker. Chegou a colaborar com os grupos Die Like a Dog e Chicago Tentet de Peter Brötzmann. Participou em vários discos editados na Blue Series da Thirsty Ear - "Masses" dos Spring Heel Jack, "Negrophilia" de Mike Ladd e "Blue Series Continuum", entre outros.

Foi em 2008 que editou um dos seus discos mais celebrados, "Akhenaten Suite", numa edição da AUM Fidelity. Mais recentemente, integrou o grupo Tribute to Albert Ayler, que lançou o álbum "Live at the Dynamo" em 2009, uma belíssima homenagem ao espírito ayleriano (com Joe McPhee, William Parker & Warren Smith). O trompetista desenvolveu ainda uma ligação especial à editora portuguesa Clean Feed, tendo participado em diversos discos que integram seu o catálogo: "Live at the Bop Shop" da The Nu Band (o segundo disco da editora!) e várias gravações do grupo do baterista Whit Dickey.

Foi precisamente integrado nessa banda que actuou no festival Jazz ao Centro, em 2004. Uma fotografia desse concerto, da autoria do fotógrafo Nuno Martins, encontra-se impressa em grande formato na parede do Salão Brazil, numa portentosa homenagem. Morreu demasiado cedo, aos 61 anos.

O poeta e activista LeRoi Jones, mais conhecido como Amiri Baraka, faleceu no mesmo dia. Polémico, inconformado, radical, Baraka esteve ligado à cena jazz desde o início da década de 1960, tendo acompanhado o florescimento do free jazz, em paralelo com a luta pelos direitos civis. O seu poema "Black Art", que se transformou num verdadeiro manifesto, integra o disco "Sonny's Time Now" de Sunny Murray - declamado pelo próprio, com fundo musical de Albert Ayler, Don Cherry, Henry Grimes, Louis Worrel e do próprio Murray.

Com o New York Art Quartet gravou o poema "Black Dada Nihilismus", ainda mais controverso. Não foi uma figura consensual, mas teve um percurso inigualável. Morreu aos 79 anos. Não foi apenas o jazz que ficou mais pobre, mas o mundo. (Nuno Catarino)