, 22 de Janeiro de 2014

Improvisação portuguesa em Minas Gerais

A ter lugar no Centro Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais e no Espaço UFMG do Conhecimento entre os dias 28 de Fevereiro e 4 de Março, com curadoria de Marco Scarassatti, vai realizar-se em Belo Horizonte, no Brasil, a primeiríssima edição de um ciclo com características muito especiais, o Encontro de Costas: Música Improvisada de Portugal e do Brasil, parte integrante do grande evento anual da cidade, o Festival de Verão. A iniciativa decorre ainda no âmbito do Ano de Portugal no Brasil.

Os motivos? Apesar de Brasil e Portugal estarem «unidos por suas histórias, tradições e costumes», o certo é que «dão se as costas» no que respeita ao conhecimento mútuo das suas produções musicais contemporâneas, como é referido na apresentação do projecto. «Pouco ou quase nada nos chega do experimentalismo português. Tampouco sabem eles da nossa inventividade musical que não esteja atrelada ao samba, à bossa nova ou à MPB», lê-se no texto escrito por Scarassatti.

Serão oito os participantes portugueses no ciclo.Sete são músicos: Carlos “Zíngaro”, os membros do Wind Trio, a saber Paulo Curado, Paulo Chagas e João Pedro Viegas, e os que integram o grupo Lugar da Estrada (à excepção de Eduardo Chagas, que não poderá estar presente), Abdul Moimême, Miguel Sá e Monsieur Trinité.

Da parte brasileira estão envolvidos Fernando Rocha, Elise Pittenger, Sonax (Marco Scarassatti, Nelson Pinton e Marcelo Bonfim), António Panda Gianfratti, Thomas Rohrer e o Coletivo D’Istante, formado por Felipe José, Guilherme Peluci, Edson Fernando, Henrique Iwao, Matthias Koole, Miguel Javaral, Ricardo Passos, Rafael Pimenta, Bruno Paiva, Rafael Dutra e Luiza Brina.

Além dos concertos a solo (a 28 de Fevereiro o de “Zíngaro”) e em trio (no dia 2 de Março o Wind Trio, a 3 o dos Lugar da Estrada sem Eduardo Chagas) desta comitiva, parte importante do cartaz será a sua reunião com instrumentistas do Brasil. Depois das respectivas apresentações em separado, “Zíngaro” contracenará com Fernando Rocha e Elise Pittenger a 28 de Fevereiro, o Wind Trio partilhará o palco com Gianfratti e Rohrer (2 de Março) e os três elementos dos Lugar da Estrada tocarão com os Sonax (dia 3).

Mais dois momentos colaborativos estão previstos. No dia 2 de Março, Carlos “Zíngaro”, João Pedro Viegas e Abdul Moimême improvisarão com Marco Scarassatti e Felipe José sobre as imagens de um vídeo do artista português Rui Mourão. A 4, vez para o jogo de improvisação Cobra, de John Zorn, com coordenação do Coletivo D’Istante e intervenção de todos os intervenientes, portugueses e brasileiros.

Estão agendadas igualmente duas “oficinas”. Numa, António Panda Gianfratti colocará em acção uma Orquestra de Garrafas a partir da constituição de duos e trios e que poderá incluir não-músicos. Na segunda, Paulo Chagas, Carlos “Zíngaro” e João Pedro Viegas conduzirão um “workshop” teórico e prático subordinado ao tema “Contributos da Improvisação Musical para o Bem-Estar”.

O oitavo participante do lado de Portugal é o ensaísta e crítico Rui Eduardo Paes, divulgador do que se passa nos meios da música criativa do país das quinas e a personalidade que, segundo a organização, inspirou esta iniciativa inédita. O autor de “Bestiário Ilustríssimo” e “’A’ Maiúsculo com Círculo à Volta”  fará a 28 de Fevereiro uma conferência sobre a panorâmica da improvisação neste lado do Atlântico. No dia seguinte, 1 de Março, dialogará com o "designer" Koji Pereira, membro de organizações como Liga Anticapitalista, Alimento e Ação e Carnaval Revolução, num debate – o “Café Controverso” – sobre “impulsos anárquicos”.

Músico, inventor de instrumentos, investigador e docente na Faculdade de Educação da UFMG, Scarassatti interessou-se pelo que vem acontecendo nas áreas da improvisação e do experimentalismo em Portugal desde que, no início dos anos 00, teve acesso aos escritos de Paes. Depois, veio a Portugal em diversas ocasiões, tendo tido a oportunidade de conhecer músicos locais e de tocar com alguns deles, como aconteceu na edição de 2013 do MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia. Pelo caminho, editou um disco na editora lisboeta Creative Sources, inserido no trio Sonax.

Há muito que Marco Scarassatti vinha alimentando o desejo de receber uma embaixada da improvisação lusa no Brasil, o que em 2014 é finalmente possível. Como afirma sobre o convite endereçado a Rui Eduardo Paes e aos improvisadores sobre quem este escreveu: «Se esse festival sai é por sua causa. Foi ele quem ofereceu com seus textos a cena portuguesa, foi assim que conheci essa música visceral que me toma.»