, 22 de Abril de 2014

Ciclo “Treatise” em Portugal

Será realizado pela primeira vez em Portugal um ciclo de concertos com a interpretação integral da obra “Treatise” de Cornelius Cardew. A primeira apresentação será na St. George Church, em Lisboa, no próximo dia 11 de Maio, pelas 16h00.

Discípulo, enquanto jovem, de Karlheinz Stockhausen, membro do grupo seminal AMM e fundador da Scratch Orchestra, Cornelius Cardew (1936-1981) foi um dos músicos e compositores mais inquietos e decisivos do século XX. Consciente das conexões entre arte e vida, arte e política, definiu a sua música enquanto «people’s liberation music». Na década de 1960, aproximou-se das linguagens de improvisação musical e do pensamento de Wittgenstein, cujo tratado inspirou a sua obra-prima.

Com os AMM ajudou a criar a improvisação livre e a música popular de vanguarda na Inglaterra. Durante a década de 1970 tornou-se militante maoísta e, com a Scratch Orchestra, rompeu com a vanguarda e compõs hinos e canções de intervenção para a classe trabalhadora. Foi na sequência desse rompimento que publicou o polémico panfleto “Stockhausen Serves Imperialism”. Morreu, em 1981, vítima de atropelamento. O responsável nunca foi encontrado.

Considerado o "Monte Everest" dos “scores” gráficos, o “Tratado” de Cornelius Cardew foi iniciado em 1963 e completado em 1967. Consiste em 193 páginas combinando um imenso  conjunto de elementos gráficos que formam uma longa composição visual (números, formas e símbolos, alguns dos quais relacionados com a nomenclatura clássica musical, mas sem qualquer hipótese de interpretação absoluta).

Cardew não especificou nem instruiu especificamente sobre a execução de “Treatise”. Não há quaisquer notas explicativas ou didascálias.  Configura-se antes como uma paisagem aberta a qualquer número de músicos, instrumentos (acústicos, analógicos ou digitais). Incentivando a improvisação. Sugere-se que os intérpretes definam eles próprios, “a priori”, as regras do (seu) jogo.

Em toda a sua envergadura estética e impacto visual, o “Tratado” coloca constantemente a (sua) performatividade em aberto, por vezes mesmo subjugando-a. Ao libertar a música, historicamente agrilhoada a uma notação convencional, constitui um marco inspirador na demanda de novas formas e linguagens sonoras.

O ciclo insere-se no evento +LUZ, com um “ensemble” constituído pelos músicos Bernardo Álvares, Mestre André, Eduardo Chagas, Miguel Mira, Nuno Morão, Paulo Raposo, João Silva, Yaw Tembe e Nuno Torres. A sessão de 11 de Maio contará ainda com as intervenções poéticas de Diana V Almeida, Miguel Cardoso, Miguel Castro Caldas + Joana Bagulho, Margarida Vale de Gato, Raquel Nobre Guerra e António Poppe + Ibu Galissá, com uma apresentação especial de Tiago Sousa em órgão de igreja, numa aproximação à “eternal music”. Para saber mais: www.facebook.com/events/441893189279914