, 22 de Abril de 2014

Jazz em Agosto & guitarradas

A 31ª edição do Jazz em Agosto vai dar uma atenção especial ao mais popular instrumento musical do planeta, a guitarra. James Blood Ulmer, Vernon Reid, Marc Ribot, Marc Ducret, Luís Lopes, Keiji Haino e Fred Frith estarão entre os músicos a apreciar no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, entre 1 e 10 de Agosto. Também a variante guitarra baixo estará bem representada, com Jamaaladeen Tacuma, Bill Laswell, Mark Peterson e Shahzad Ismaily.

A figura em destaque do festival será Fred Frith (foto acima), com intervenções em três concertos – a 7 de Agosto em trio com Joelle Léandre e Hamid Drake, a 8 inserido no MMM Quartet, formação liderada por Léandre que integra Urs Leimgruber e Alvin Curran (sim, o dos históricos Musica Elettronica Viva, formação a que Steve Lacy chegou a estar associado) e a 9 com o mítico grupo Massacre, completado pelo referido Laswell, cujos subgraves saturados o distinguem de todos os demais baixistas, e por Charles Hayward (quem se lembra da banda de rock experimental This Heat?) e Oz Fritz.

A abertura, no dia 1, faz-se com os blues eléctricos de hoje segundo a Memphis Blood Blues Band de Ulmer com Reid como convidado especial. Esperam-se alguns reflexos da abordagem harmolódica que James Blood Ulmer partilhou com Ornette Coleman nos tempos da Prime Time, bem como o sabor rock que levou Vernon Reid, mentor dos extintos Living Colour, a fundar a Black Rock Coalition, associação de músicos que reivindica a origem afro-americana do rock ‘n’ roll.

A 2 de Agosto voltaremos a ouvir e ver Evan Parker em duo com um pianista. Se o saxofonista britânico já o fez na Avenida de Berna com o veterano Misha Mengelberg, agora será a vez de ter a seu lado um dos mais brilhantes protagonistas da nova geração do piano jazz, Matthew Shipp, por muitos apontado como o elo que faltava entre Bill Evans e Cecil Taylor.

Vez no dia 3 para o rock sofisticado dos Ceramic Dog, conduzido por aquele que é um dos guitarristas preferidos – senão o primeiro eleito – de John Zorn, Marc Ribot. O mesmo Ribot que já teve uma banda dedicada em exclusivo à música de Albert Ayler e que tocou com Lou Reed e Tom Waits vem com os seus parceiros habituais neste projecto: Ismaily, que também trará o seu sintetizador analógico, e Ches Smith, baterista dos Mr. Bungle, dos Secret Chiefs 3 e dos Xiu Xiu, todos da esfera rock, mas que também tem feito uma notável carreira no jazz.

No dia 4 apresenta-se um grande guitarrista da Europa que nos EUA é igualmente bem estimado, graças às suas colaborações com Tim Berne: Marc Ducret. O sexteto Real Thing #3 tem formato camerístico e a particularidade de incluir três trombonistas e de ter um vibrafone e uma marimba em vez da habitual bateria.

O português Luís Lopes sobe ao palco a 5 com o Lisbon-Berlin Trio, tendo consigo dois jovens músicos alemães que sobressaíram nos últimos anos, Robert Landfermann e Christian Lillinger. É de língua germânica, também, o mentor dos Big Rain, que actuam no dia 6. O austríaco Franz Hautzinger traz a menos esperada das companhias: o cultor de uma estranha mescla de noise e psicadelismo com elementos da música antiga que dá pelo nome de Keiji Haino, mais Tacuma, que como Blood Ulmer ganhou nome com Ornette, e Hamid Drake, o baterista que vem logo à ideia quando se fala da cena de Chicago do jazz.

Se os dias 7, 8 e 9 pertencem a Frith (e os dois primeiros também a Léandre), é inteiramente nacional a noite de fecho do Jazz em Agosto, com o LUME, ou Lisbon Underground Music Ensemble, de Marco Barroso, compositor e pianista com dupla actividade no jazz e na música erudita contemporânea que tem deixado bem claro o seu gosto pelo funk e pelo rock. Será a estreia de um novo repertório, a gravar posteriormente para edição em disco, com as participações de Manuel Luís Cochofel, Paulo Gaspar, Jorge Reis, João Pedro Silva, José Menezes, Rita Nunes, Jorge Almeida, João Moreira, Pedro Monteiro, Luís Cunha, Eduardo Lála, Pedro Canhoto, Miguel Amado e André Sousa Machado.

O Jazz em Agosto de 2014 inclui ainda a projecção de seis filmes: “The Soul of a Man” de Wim Wenders, sobre os “bluesmen” Skip James, Blind Willie Johnson e J.B. Lenoir, e no qual aparecem James Blood Ulmer e Marc Ribot (2 e 3 de Agosto); “The Breath Courses Through Us” de Alan Roth, sobre o New York Art Quartet (dia 6); “Dancing to a Different Drummer” de Julian Benedikt, sobre Chico Hamilton (7); “Basse Continue” de Christine Baudillon, sobre Joelle Léandre (8); “Step Across the Border” de Nicolas Humbert e Werner Penzel, sobre Fred Frith, e um vídeo da RTP com o concerto integral de Terje Rypdal com The Chasers na edição do festival de 1985.

Marquem na agenda e comecem a pôr dinheiro de lado para os bilhetes, porque a coisa promete… Muito a propósito: A Europe Jazz Network vai atribuir ao Jazz em Agosto, no próximo dia 26 de Abril, o EJN Award 2014. Rui Neves, o director artístico do evento, receberá o prémio numa sessão pública do festival Jazzahead!, em Bremen, na Alemanha.