, 13 de Julho de 2014

A última dança de Charlie Haden

É impossível, para um português, falar da morte de Charlie Haden como se este fosse qualquer outra figura histórica de topo do jazz. Se custa ver os grandes partir, mais dói quando quem nos deixa é um amigo. São muitos os factores emocionais que nos ligam a este homem que teve a coragem, no Portugal fascista, de tocar o seu “Song For Che” para um público sedento de liberdade, o da primeiríssima edição do Cascais Jazz, em 1971. Veio com Ornette Coleman e a sua dedicatória aos movimentos de libertação das ex-colónias provocou o mais entusiástico aplauso que se possa imaginar.

Acabo de ouvir, mais uma vez, essa gravação, mas com a interferência da notícia que me chegou em pleno “soundcheck” de um dos concertos do Jazz no Parque, no Porto: morreu, na passada sexta-feira 11 de Julho, devido a doença prolongada, o contrabaixista e compositor que ainda há uns dias ouvi, ao lado de Keith Jarrett, numa nova edição da ECM, “Last Dance” (“review” no Ponto de Escuta sairá em breve)…

Quem diria que esta “dança” seria realmente a sua última em disco. O mesmo Haden lançou um CD com o nosso Carlos Paredes e com ele tocou num encontro no Hot Clube que ficou para os anais – e mais pelo forte simbolismo desse cruzamento de perspectivas do que pela música propriamente dita. A Pide meteu Charlie Haden num avião de volta aos Estados Unidos aquando da pública humilhação do regime que o músico protagonizou, mas a verdade é que ele sempre foi ficando connosco.

A Grande Ceifeira lá conseguiu roubar-nos este cúmplice de tantos sonhos e enlevos musicais, mas nunca o esqueceremos. (Rui Eduardo Paes)