, 19 de Setembro de 2014

Morreu Kenny Wheeler

Num debate realizado há uns anos no festival Jazz em Agosto sobre a cena britânica, o moderador, Bill Shoemaker, perguntou a Evan Parker quem considerava ele ser a grande figura do jazz no seu país. Sem hesitações, o saxofonista respondeu: Kenny Wheeler. «Apesar de ele ter nascido no Canadá, vive há tantas décadas no Reino Unido que se tornou não só um de nós como o melhor que temos», acrescentou.

A referência poderá ter surpreendido quem esperava que Parker apontasse alguém próximo da sua própria orientação estética e não um músico que é habitualmente conotado com o “mainstream”. O certo, porém, é que o veterano do free jazz e da música livremente improvisada vê Wheeler como um dos grandes originais e por isso mesmo chegou a editá-lo na sua própria editora discográfica, a Psi. Aquele que é um dos mais importantes trompetistas da história do jazz desenvolveu uma personalidade musical única – logo reconhecível pelo seu sopro e por uma abordagem reflexiva e pausada dos sons – e tem sido uma referência para uma enorme variedade de músicos, do pianista John Taylor, que com ele tocou e interpreta frequentemente os seus temas, ao guitarrista rock experimental Stian Westerhus, que lhe pediu para ser seu aluno.

Foi com geral consternação, pois, que se soube da morte, ontem (18 de Setembro), de Kenny Wheeler. O músico tinha 84 anos de idade e a sua saúde deteriorara-se recentemente, ainda que nada fizesse prever tal desfecho. Os seus dois últimos discos saíram em 2013, “Mirrors” e “Six for Six”. Em 2011, outro álbum, “Live at the Vortex, London”, juntou-o precisamente a Evan Parker e a músicos como Paul Dunmall, Tony Levin e John Edwards.

A lista de colaborações que foi somando assinala bem a sua abertura de espírito. Tocou com Philly Joe Jones, Paul Gonsalves, Anthony Braxton, Steve Coleman, Wadada Leo Smith, George Adams, Ralph Towner, Bill Frisell, Dave Holland, Pierre Favre, John Abercrombie, Lee Konitz. Chegou, inclusive, a participar como solista em discos de rock e pop. Com o cantor David Sylvian gravou quatro: “Brilliant Trees”, “Alchemy: An Index o f Possibilities”, “Gone to Earth” e “Dead Bees on a Cake”.

Sem Kenny Wheeler não teria existido um Jon Hassell ou um Arve Henriksen, e talvez o nosso Sei Miguel não fosse como é. A comunidade do jazz está de luto. (Rui Eduardo Paes)