, 13 de Março de 2015

Mais “Treatise” a 20 de Março

Tem lugar no próximo dia 20 de Março, no Clube Recreativo dos Anjos, em Lisboa, mais uma sessão da série Tratado. Assim se designa porque nestes concertos – realizaram-se já quatro desde Maio do ano passado, na St. George Church, no Panteão Nacional, no Clube Recreativo Amigos do Minho e na ZDB – se está a interpretar o gigantesco “Treatise” de Cornelius Cardew. É possível ouvir o registo em “podcast” do segundo no programa Dois ao Quadrado da Antena 2 (http://www.rtp.pt/play/p430/e167159/dois-ao-quadrado), aos 26’50’’.

No concerto que aí vem tocar-se-ão as páginas 62 a 72 da partitura do compositor britânico, com uma formação constituída por13 músicos cuja actividade tem sido desenvolvida nas áreas da improvisação e do jazz criativo, designadamente Bernardo Álvares, Mestre André, Aude Barrio, Carlos Godinho, Joana Guerra, Rui Miguel, Miguel Mira, Nuno Morão, Paulo Raposo, João Silva, Daniela Silvestre, Yaw Tembe e Nuno Torres. Prevê-se que a conclusão do projecto ocorra daqui por dois anos, se se mantiver o mesmo ritmo de apresentações.

Discípulo, enquanto jovem, de Karlheinz Stockhausen, membro do grupo seminal AMM e fundador da Scratch Orchestra, Cardew (1936-1981) foi um dos compositores mais inquietos e decisivos do século XX. Consciente do cunho político da arte, definiu o seu trabalho enquanto “people’s liberation music”. Na década de 1960 aproximou-se das linguagens da improvisação musical e do pensamento de Wittgenstein, cujo tratado inspirou precisamente a sua obra-prima.

Com os AMM ajudou a criar a improvisação livre e a música popular de vanguarda em Inglaterra. Algumas das ideias então introduzidas foram formuladas por si em “Towards an Ethic of Improvisation”. Durante a década de 1970 tornou-se um militante maoísta e, com a Scratch Orchestra, rompeu com a vanguarda e compôs hinos e canções de intervenção para a classe trabalhadora. Foi na sequência desse rompimento que publicou o polémico panfleto “Stockhausen Serves Imperialism”. Morreu, em 1981, vítima de atropelamento. O responsável nunca foi encontrado.

Considerado o "monte Everest" dos “scores” gráficos, o “Treatise” de Cornelius Cardew foi iniciado em 1963 e completado em 1967. Consiste em 193 páginas combinando um imenso  conjunto de elementos gráficos que formam uma longa composição visual (números, formas e símbolos, alguns dos quais relacionados com a nomenclatura clássica musical, mas sem qualquer hipótese de interpretação absoluta).

Cardew não especificou nem instruiu especificamente sobre a execução do seu Tratado. Não há quaisquer notas explicativas ou didascálias.  Configura-se antes como uma paisagem aberta a qualquer número de músicos e instrumentos (acústicos, analógicos ou digitais). Incentivando a improvisação, sugere-se que os intérpretes definam eles próprios as regras do (seu) jogo. É o que este colectivo está a fazer…