, 12 de Dezembro de 2015

Devolver a Vista… e a audição

A Casa-Museu Dr. Anastásio Gonçalves, em Lisboa, está a promover uma exposição e um ciclo de concertos a que deu o nome de Devolver a Vista. No que a actuações musicais ao vivo diz respeito a primeira aconteceu, em registo de improvisação livre, no passado dia 10 de Dezembro com o inédito duo de Rodrigo Pinheiro (Red Trio, Earnear) em cravo e André Gonçalves num sintetizador modular de sua própria construção – foto acima. A gravação da mesma será publicada em disco pela Shhpuma, editora que surge neste contexto com responsabilidades de organização, ao lado do músico electrónico Miguel Sá. A próxima intervenção de uma série que se prolongará até Fevereiro de 2016 será dia 19, com Rafael Toral.

Toral intervirá com “Infinity Blur”, composição que apresenta como sendo de «exploração no limiar da escuta, com diluição da matéria musical no infinito». Música e paisagem sonora confundir-se-ão intencionalmente, num conceito que muito deve às ideias de John Cage. Para o dia 19 está igualmente marcada a inauguração da exposição Devolver a Vista. Os artistas Paulo T. Silva e Marta Galvão Lucas vão utilizar as colecções do médico oftalmologista Anastácio Gonçalves como ponto de partida para uma produção artística, e a Miguel Sá caberá “dar” sons aos objectos. Por exemplo, abrir uma gaveta ou portada de um móvel terá um efeito auditivo.

A restante programação será gradualmente anunciada, prevendo-se o envolvimento de músicos improvisadores em situações que incluem a utilização de instrumentos históricos – caso do cravo que Pinheiro tocou, em estreia absoluta (ele que já se apresentou a tocar órgão de igreja na St. George’s Church) e sua associação com instrumentos actuais.

Projectado em 1904 pelo arquitecto Norte Júnior a pedido do pintor José Malhoa e distinguido com o Prémio Valmor, o edifício no Saldanha onde está a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves foi adquirido por este em 1932, para residência própria e aí reunir o seu acervo de 2500 peças, entre elas se distinguindo obras de pintura naturalista portuguesa, um dos mais completos acervos mundiais de porcelana chinesa e mobiliário europeu datado de entre os séculos XVII e XIX. Falecido em 1965, Anastácio Gonçalves foi, a par do seu amigo (e paciente) Calouste Gulbenkian, um dos mais importantes coleccionadores de arte em Portugal.