, 31 de Maio de 2016

Está aí o Serralves em Festa

Com realização no fim-de-semana de 4 e 5 de Junho, o Serralves em Festa (Porto) deste ano irá, como habitualmente, incluir alguns nomes e projectos da área do jazz e da música improvisada, ou próximos desta, na sua programação de 40 horas ininterruptas. E tudo começa até antes, dia 3, com uma instalação-performance de Jon Rose marcada para as 22h00, na Praça Humberto Delgado. Em “Wreck”, o celebrado violinista (e tocador de vedações de arame) transformou um velho automóvel num instrumento musical colectivo, com todos os elementos e superfícies amplificados. Jorge Queijo, Henrique Fernandes, Luís Bittencourt e José Alberto Gomes participam.

Já em Serralves, e mais exactamente no “court” de ténis, o excêntrico trompetista alemão Matthias Schriefl e a Orquestra de Jazz da Escola Profissional de Música de Espinho apresentam “Eine Alpenjazzphonie” às 11h00 de dia 4. Dentro do formato de jazz “big band”, o que acontecer poderá incluir tanto elementos de fanfarra como uma pulsação punk e outras surpresas, surgindo estas quando menos se espera. Sempre com um sentido de humor e de espectáculo que se torna contagiante. Pelas 15h00, no mesmo local, assistiremos à prestação electrónica de OCP, ou Operador de Cabina Polivalente, de seu verdadeiro nome João Ricardo, colaborador da jazz.pt. Este vai construir uma trama feita de lentidões, contraposta ao actual mundo de pressas e mudanças rápidas.

A pianista Joana Gama, do duo Ozo, intervém às 17h00 do mesmo dia, no Auditório, com a sua leitura de “Vexations”, composição enigmática de Erik Satie descoberta apenas depois da sua morte. A peça de uma só página, mas destinada a ser repetida 840 vezes até se transformar num mantra, terá nesta interpretação apenas 20 voltas, com a duração de 40 minutos. O efeito hipnótico será o mesmo, garante-se. A outra metade dos Ozo, Pedro Oliveira, também vai ao Serralves em Festa, sob o nome Krake. Às 22h30 estará na Galeria de Arte Contemporânea não com os seus habituais dispositivos electrónicos, mas com uma bateria preparada. A sua ideia é tornar este instrumento num laboratório sonoro.

No mesmo dia, com início às 18h00, apresenta-se no Prado a Natural Information Society de uma figura de proa da cena de Chicago, Joshua Abrams, membro fundador dos grupos Town & Country e Sticks & Stones, este ao lado de Matana Roberts e Chad Taylor. Acompanham-no Gustavo Costa, Norberto Lobo, Yaw Tembe, Angelica V. Salvi e João Pais Filipe. Abrams tocará um instrumento tradicional de Marrocos, o guimbri, num contexto de improvisação jazz com estruturação rítmica de influência minimalista e do krautrock.

Às 19h00, no Museu, actua o guitarrista Luís Lopes com “Love Song”, um solo inesperadamente (para quem conhece o seu trabalho com o Humanization Quartet e o Lisbon-Berlin Trio, já para não referir o seu lado noise) suave e frágil, marcado pela languidez de Eros. O disco saiu há pouco e esta é a sua apresentação a Norte. Conhecido pela brandura da sua música, André Gonçalves tem a sua intervenção agendada, por sua vez, para as 23h00, a fim de apresentar na Biblioteca o novo “Currents & Riptides”. Sintetizadores modulares, computador, gravações de campo e guitarra eléctrica servem para a sua hábil gestão de contrastes, opondo situações de enorme beleza com induções de acidente determinadas pelo momento.

Ainda a 4, pelas 23h15, a Clareira das Bétulas do jardim de Serralves será ocupada pelos Sturgen. São eles César Rodrigues e David Arantes, dupla que aplica as estratégias da improvisação a uma abordagem desafiante da tecnologia analógica. Prometem não fazer concessões. Também com actividade nos territórios da electrónica, os Haarvol farão aparições de 20 minutos em ambos os dias deste mega-acontecimento, com encontros marcados na Capela da Casa de Serralves às 15h30 e às 22h00 de dia 4 e às 15h30 e 22h00 de 5. Levam consigo “Perpectuum Mobile”, trabalho em que combinam som e imagem vídeo.

A instalação “Oxidation Machine” estará patente durante toda a duração do evento na Sala de Mármore, das 8 da manhã de dia 4 à meia-noite de 5, revezando-se na sua activação seis artistas sonoros e visuais, designadamente Jonathan Uliel Saldanha, Frédéric Alstadt, Aymeric de Tapol, Diogo Tu dela, GNOD e Michael Schmid. O propósito é tornar aquele espaço numa cápsula imersiva, com difusão de sons a partir de arquivos, mecanismos e microfones localizados no Parque de Serralves. O projecto “LMY-7-10”, dos @c de Pedro Tudela e Miguel Carvalhais, ficará na Sala da Janela (capela) igualmente em todo o fim-de-semana. Primeiro das 10h00 de dia 4 às 02h00 de 5, e depois, no dia 5, das 10h00, novamente, até à meia-noite. Trata-se de objectos e estruturas concebidos para explorar a arquitectura do local, todos eles manipuláveis pelos visitantes, com as projecções sonoras a saírem em oito canais.

No dia 5, pelas 16h30, tocam no Ténis os Lubok de Helena Guerreiro, Alexandre Soares, Alberto Lopes, Henrique Fernandes e Gustavo Costa. Soam como se Diamanda Galás e Lydia Lunch se tivessem rendido ao rock psicadélico, ainda que em versão integralmente improvisada e por vezes denunciando referências jazzísticas. Outra combinação invulgar é a que se poderá escutar no Prado neste mesmo dia 5, às 17h30. Raed Yassin e Raed Concain, ou seja, os dois Praed, darão a conhecer a sua mistura de free jazz, música popular árabe e psicadelismo. O resultado é como se Sun Ra tivesse traduzido musicalmente a admiração que tinha pelo Egipto antigo, interiorizando os seus processos e sonoridades.

De volta ao campo de ténis, às 18h30, sobem ao palco Alex Zhang Hungtai, David Maranha e Gabriel Ferrandini para dar continuidade ao tributo a “Blue Train”, obra emblemática de John Coltrane, que a editora Blue Note lhes encomendou para inclusão num filme documental. O trio continuou e a música desenvolveu-se, sendo esta uma boa oportunidade para saber como e em que direcção. À noite, este canto do jardim pertence a Norberto Lobo. Folk guitarrística a solo com uma miríade de influências estilísticas e de género, é o que vai oferecer ao público.

Na Biblioteca de Serralves, às 20h30, GOZ, o nome com que se identifica o baixista Gonçalo Almeida (de pseudónimo Gonzo) quando trabalha a solo, encontra-se com a trompetista Susana Santos Silva. É difícil imaginar o que poderá acontecer: a música de GOZ tem um carácter cavernoso, como se os Sunn O))) tocassem temas blues de Robert Johnson, e Silva utiliza um fraseamento melódico mesmo em contexto mais livre. Às 23h00, teremos The Rite of Trio na Clareira das Bétulas, com os temas do CD “Getting All the Evil of the Piston Collar!”. Espera-nos um jazz com cores de rock, entregue com irreverência e com uma dose q.b. de provocação, sustentando que não só o jazz não está morto como nem sequer cheira mal, ao contrário do que dizia Frank Zappa.

Muitos motivos existem, pois, para dar um salto até à Fundação de Serralves nos próximos sábado e domingo, ficar por lá e fazer uma directa… Dança, teatro, circo, exposições, “workshops” e muito mais estão ainda na agenda desta autêntica feira das artes, no caso de quererem descansar os ouvidos.