, 7 de Junho de 2016

Jazz no Parque leva estreias absolutas a Serralves

Em ano de comemoração das suas “bodas de prata”, o 25º Jazz no Parque tem este ano quatro concertos em vez dos habituais três, com os últimos dois a concentrarem-se no último dia deste ciclo promovido pela Fundação de Serralves com a curadoria do ensaísta e crítico Rui Eduardo Paes. O local é o de sempre: o “court” de ténis do Parque de Serralves, nos finais de tarde dos domingos de Julho.

No dia 3, tocam os brasileiros Ivo Perelman (foto acima), Marcio Mattos e António “Panda” Gianfratti. É a estreia absoluta de um trio brasileiro que nunca existiu por motivos exclusivamente geográficos, apesar de os três músicos há muito se conhecerem. Ivo Perelman mudou-se para os Estados Unidos no início dos anos 1980, aí gravando discos que o tornaram numa das referências maiores do saxofone tenor contemporâneo, Marcio Mattos está radicado no Reino Unido há quatro décadas, integrando em lugar de destaque a cena londrina da improvisação livre, e António “Panda” Gianfratti manteve-se em S. Paulo, aí tendo conquistado o estatuto de patrono da música criativa. O que se vai ouvir está totalmente em aberto, prevendo-se apenas que surgirá dos legados combinados de John Coltrane, Albert Ayler, John Stevens e Derek Bailey.

A 10, vez para Nani García Cinematojazzia, projecto que reúne um quarteto de cordas formado por Eduardo Coma, Lázaro Wilman González, Raymond Arteaga e Luis Enrique Caballero ao Nani García Trio, no qual encontramos o pianista com Simon García no contrabaixo e Miguel Cabana na bateria. Figura maior do jazz espanhol, tendo liderado um grupo pioneiro deste género musical na Galiza, Clunia (com convidados ilustres como Kenny Wheeler e a portuguesa Maria João), Nani Garcia é também um renomado compositor para o cinema e a TV, com especial ênfase nos filmes de animação. Neste âmbito vem colaborando com o autor de BD e desenhos animados Miguelanxo Prado, com quem colaborou, por exemplo, na premiada longa-metragem “De Profundis”. Mais recentemente, tem ainda realizado incursões pela música de câmara. Todas estas vertentes são combinadas no projecto Cinemajazzia.

Para fechar o evento, no dia 17 apresentam-se os portugueses Slow is Possible com um projecto especialmente criado para o Jazz no Parque e logo de seguida o Red Trio em versão eléctrica com um convidado especial, o guitarrista Raoul Bjorkenheim. Grupo-revelação do jazz nacional que reúne jovens músicos da Beira Interior com actividade, sobretudo, na música erudita, os Slow is Possible tocam um jazz cinematográfico que, por vezes, nos remete para a escrita destinada ao grande ecrã de John Zorn. Um jazz sem tiques, truques ou vícios que incorpora elementos clássicos, do rock e da música exploratória, sustentado sobre uma rítmica intensa e com melodias que ficam no ouvido. O septeto de Bruno Figueira, Patrick Ferreira, André Pontífice, João Clemente, Nuno Santos Dias, Ricardo Sousa e Duarte Fonseca vai apresentar um repertório inédito inspirado num poema de Charles Bukowski, “The Genius of the Crowd”.

Um dos mais internacionalmente aclamados projectos portugueses no âmbito do jazz e da música improvisada, o Red Trio vai recorrer a um Fender Rhodes, electrónica digital e um baixo eléctrico e não aos habituais piano de cauda e contrabaixo. Com este formato, o grupo de Rodrigo Pinheiro, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini ganha uma dimensão “groovy” que o aproxima do rock. Essa orientação será acentuada pelo finlandês Raoul Bjorkenheim, conhecido pelo trabalho que desenvolveu com os Krakatau, gravando para a ECM, e com o Scorch Trio (Rune Grammofon), partilhado com Ingebrigt Haker-Flaten e Paal Nilssen-Love (agora rebaptizado apenas como Scorch, com as entradas de Frank Rosaly e Mars Williams). Bjorkenheim sucede-se, assim, a outros “special guests” do Red Trio, como John Butcher e Nate Wooley, naquele que promete ser o início (é a primeira vez que tocam juntos) de um novo capítulo no seu percurso.