, 13 de Outubro de 2017

Ivo Martins lança livro sobre o jazz «depois do jazz»

Em cada uma das suas edições, o Guimarães Jazz tem juntado ao folheto com o programa dos concertos do festival um texto de apresentação e reflexão do seu director artístico, Ivo Martins, sempre muito procurado e lido, até pelo facto de ir muito para além das questões do jazz e da música, revelando um sólido pensamento sobre a cultura do nosso tempo e sobre, tão simplesmente, a vida. Pois o mesmo Ivo Martins, também com actividade como curador de artes plásticas, tem um novo livro publicado, pela 7 Nós, sucedâneo ao seu “Em Trânsito, em Morte”. “O Jazz Depois do Jazz” terá apresentação pública nos próximos dias 20 de Outubro, na Sonoscopia (Porto, 19h00) e 22, no Bar Irreal (Lisboa, 19h30).

Este jazz que vem depois do jazz não é, de todo, o da “jazz age” nem o dos anos do “black power”, mas o da sociedade digital em que vivemos, tendo esta construído «um labirinto interminável de canais de acesso à realidade que mudaram em definitivo a relação do ser humano com o mundo que o rodeia e, por maioria de razão, com a música». A análise feita por Martins do jazz do século XXI é filosófica e sociológica, mas se a 7 Nós, no lançamento da obra, exagera ao referir que a mesma inaugura «um novo território na paisagem editorial ensaística de Portugal» (outros livros o fizeram antes, e com semelhante foco transdisciplinar), o certo é que os três capítulos reunidos, “O Jazz Depois do Jazz”, “Espaços de Liberdade” e “Boys and Girls”, revelam um pensamento sistematizado e de particular profundidade e pertinência.

Ivo Martins tem uma assumida perspectiva pessimista, quando não cínica, dos contextos que fazem do jazz aquilo que é hoje, mas deixa-se arrebatar pela música que daí resulta e entra frequentes vezes, e ao que parece conscientemente, em contradição. É essa particularidade que torna a sua escrita vibrante, intrincada e apaixonada e é essa não uniformização de ideias que dá interesse à leitura da sua prosa. Uma observação à lupa de um determinado aspecto da realidade jazzística faz com que desdiga numa página o que a traços largos, quando procurava definir o envolvimento das práticas musicais, antes sugerira: este não é um livro de certezas, mas de interrogações pessoais. Martins desenvolve considerações que depois relativiza e o seu amor pelo jazz leva-o a não concretizar as suas próprias dúvidas estéticas. Quando concordamos com algo, logo surge da sua parte alguma reserva, e quando discordamos, é o autor que nos interpõe um “mas” antes mesmo que nos sejam claros os motivos da diferença de opinião.

Ainda que seja um dos protagonistas maiores da cena nacional do jazz (o Guimarães Jazz é um dos dois mais importantes festivais do País, a par do Jazz em Agosto da Gulbenkian), Ivo Martins tem feito um percurso discreto. Não gosta de dar entrevistas (foi difícil conseguir a que a jazz.pt publicou nas suas páginas, em 2016) e não participa em debates e polémicas. Com este ensaio, ei-lo, mais do que nunca, e mais até do que com os textos que escreve para o Guimarães Jazz, no centro das grandes questões levantadas pelo jazz, aqui e agora. O que quer dizer que “O Jazz Depois do Jazz” é um livro incontornável para pensar (em Português) o jazz nesta era cibernética. E por uma vez que seja, Ivo Martins estará sob o foco das luzes: as duas apresentações contarão com a sua presença e com a sua voz. (R.E.P.)