, 24 de Janeiro de 2018

“Rajada” apresenta-se em dois concertos

A editora polaca Multikulti Project vem dedicando toda uma colecção do seu catálogo ao jazz criativo que se pratica na Península Ibérica, a Spontaneous Music Tribune Series. Depois de as primeiras cinco edições da dita terem insistido na cena de Barcelona, se bem que envolvendo três músicos que a de Lisboa também reivindica como seus (o luso-catalão Vasco Trilla e dois residentes em Portugal, Yedo Gibson e Albert Cirera, de quem lançou recentemente o solo “Lisboa’s Work”) eis que, finalmente, o selo dirigido pelo ensaísta, e autor de “Polish Jazz Recordings and Beyond”, Maciej Lewenstein publica o primeiro disco integralmente tocado por portugueses. São eles Pedro Sousa (foto acima, captada por Vera Marmelo), Miguel Mira e Afonso Simões, membros de um trio que tem estado activo há alguns anos, mas agora se apresenta com o mesmo nome do seu disco debutante, Rajada.

A estética abraçada pelo projecto é, muito claramente, a do free jazz, e designadamente aquele que se identifica como tal na Europa, numa linha que parte de Peter Brotzmann e Evan Parker e passa por figuras como Mats Gustafsson e Frank Gratkowski. Não se trata, porém, de um free literal, começando pela atitude punk colocada na música, verificável na entrega extremamente enérgica (mesmo os momentos mais calmos dos temas “Atazana” e “Desata” são tensos), e evidenciando-se pelo que cada um traz para as improvisações colectivas: Sousa (saxofone tenor) teve um passado na música electrónica / electroacústica experimental, Mira (violoncelista que conhecemos bem do Motion Trio de Rodrigo Amado) faz bom uso de todas as suas referências no funk e nos blues, grudando todas as partes num sólido “drone” feito de arpeggios e glissandos, e Simões (bateria) vem do rock, se é que assim podemos designar a mescla afro-latina, kraut, dub, techno e pop do grupo a que pertence, Gala Drop.

Há um outro factor de diferenciação nas propostas destes Rajada: se muito do pós-free jazz ou do neo-free jazz que vamos ouvindo tem como premissa a desconstrução de motivos ou estruturas, Sousa, Mira e Simões partem do limbo à procura de esqueletos, formas, padrões rítmicos, frases melódicas, harmonias. No processo vão introduzindo aspectos dos mesmos, a pouco e pouco, até finalmente tudo ganhar corpo. Quem estiver interessado saberá como nos dois concertos de apresentação de “Rajada”, a 25 de Janeiro nas Damas, em Lisboa, e a 26 na paredense SMUP, onde também actuará a dupla constituída por Gabriel Ferrandini e Pedro Gomes.