, 17 de Fevereiro de 2018

Vem aí o Amadora Jazz

Vem aí mais uma edição – a nona – do Amadora Jazz, como sempre com organização da autarquia local e uma programação (do Jazz ao Centro Clube) que visa a apresentação de «uma diversidade de propostas» que possa «atrair públicos igualmente díspares». O arranque faz-se na noite de 28 de Fevereiro, no Salão Nobre dos Recreios da Amadora, com o duo Mano a Mano, dos irmãos guitarristas Bruno Santos e André Santos. A música tocada por estes, «toda ela feita de pormenores delicados», como na jazz.pt se escreveu a propósito do álbum “Mano a Mano Vol. 2”, combina leituras da tradição do jazz com elementos da música popular portuguesa (sobretudo a da Madeira, de onde são provenientes) e técnicas de carácter experimental, com blues, rock e processamentos vários na mistura.

A 1 de Março o ciclo instala-se no auditório dos Recreios, para um concerto em que o Alexandre Coelho Quarteto traduz ao vivo o seu mais recente projecto, “Idiosyncrasies”. Com João Mortágua no saxofone alto, Gonçalo Moreira no piano e João Cação no contrabaixo, o baterista e compositor propõe-nos um “bending” das fórmulas do be bop, conduzindo esta tendência do jazz caracteristicamente americana para desenlaces europeus e até portugueses, sobretudo em termos de elaboração harmónica. O dia 2 pertence ao Carlos Martins Quarteto, formado com João Paulo Esteves da Silva (piano), André Rosinha (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria). Algumas das composições são as que Martins tocou com esse outro quarteto integrado por Mário Delgado e Carlos Barretto em que Frazão também esteve envolvido desde o lançamento de “Absense”, a homenagem prestada pelo saxofonista (foto acima) a Bernardo Sassetti. A abordagem é, no entanto, outra: se naquele disco se exploraram as contenções sassettianas, o propósito é agora partir daí para abrir a música de modos alternativos.

No dia 3 tocam os Cornettada de Hugo Antunes, grupo em que o contrabaixista e os seus pares, o italiano Giovanni Di Domenico (piano) e João Lobo (bateria), se dedicam ao mais improvável dos propósitos: converter a música de Ornette Coleman (que, regra geral, não chamava pianistas a tocarem com ele, tendo Joachim Kuhn e Geri Allen sido as únicas e episódicas excepções) ao modelo do trio de piano jazz. Neste contexto, a herança do free jazz é tratada com outras perspectivas que não as do próprio free, numa releitura da história que prefere ver os efeitos do passado no presente a reproduzir passivamente o que foi feito. Neste mesmo último dia do Amadora Jazz, mas à tarde e no Cineteatro D. João V, sobe também ao palco o GeraJazz, jovem ensemble da Orquestra Geração que vem interpretando o espólio jazzístico sob a direcção de Eduardo Lála. Se o serão é sobre o presente, a matiné pretende contribuir para a construção do futuro, pois poderão estar no palco alguns dos músicos de jazz do Portugal de 2030.