, 8 de Maio de 2018

Jazz no Parque traz "grooves" em Julho

Quando o chamado jazz de fusão se formulou como um subgénero definido, foi com um custo: tudo o que as anteriores realizações feitas entre jazz, funk e rock tinham de experimental (“On the Corner”, de Miles Davis, é um exemplo, com a sua pulsação saltitante a coexistir com estruturas inspiradas em Stockhausen) desvaneceu-se para dar lugar a uma música mais arrumada e previsível. A semente ficou, no entanto, e nos últimos anos vamos assistindo novamente a práticas musicais que têm o “groove” como fundamento, mas também uma perspectiva de exploração de possibilidades e uma atitude inconformista. É esse o tema geral da 27ª edição do ciclo Jazz no Parque, promovido pela Fundação de Serralves com curadoria de Rui Eduardo Paes. O mote escolhido é, de resto, muito claro: «Há mais jazz para além do “mainstream” e da vanguarda.»

A série de concertos no Ténis de Serralves inicia-se no fim da tarde de 7 de Julho com o projecto “The Mantra of the pHat Lotus”, de Mané Fernandes, com novas composições do líder guitarrista para o grupo portuense com o mesmo nome constituído com José Soares (saxofone alto), Ricardo Coelho (vibrafone, percussão electrónica), Pedro Vasconcelos (bateria) e, nesta ocasião, os convidados Gonçalo Moreira (teclados, vindo de outra formação de Fernandes, Bouncelab) e Nick Jurd (baixo eléctrico, mentor da banda britânica Trope). Os temas estarão no cruzamento do jazz e do hip-hop, mas com uma escrita de grande complexidade em que poderemos reconhecer aspectos da música contemporânea.

No dia 14 será a vez de Lucía Martínez & The Fearless, quinteto baseado em Berlim que interpreta as partituras de uma baterista galega bem conhecida dos meios jazzísticos do Porto, pelo facto de ter feito os seus estudos na ESMAE. Com um novo guitarrista, Ronny Graupe (encontramo-lo nos mesmos circuitos dos nossos bem conhecidos Christian Lillinger e Robert Landfermann), no lugar que antes era de Kalle Kalima e a inclusão do gira-disquista DJ Illvibe, o grupo conta também com o clarinete baixo de Benjamin Weidekamp e o contrabaixo de Marcel Kroemker. A abordagem escolhida é a do free bop, aqui e ali ecoando alguns conceitos de Eric Dolphy, mas fá-lo entrando pelo universo dos filmes de “cowboys”, uma rítmica intensa mesclando-se com ambientes à maneira de Ennio Morricone e Nino Rota.

Por fim, sobem ao palco a 21 de Julho os transnacionais Naked Wolf, juntando músicos da Holanda, da Austrália, do Brasil, da Finlândia e da Áustria. Um deles vive em Portugal há um par de anos, o saxofonista brasileiro Yedo Gibson (foto acima), e outro, Luc Ex, foi baixista num grupo de rock que tem uma fiel legião de fãs no nosso país, The Ex. A cantora e trompetista Felicity Provan, o guitarrista Mikael Szafirowski e o baterista Gerri Jager são os outros integrantes desta trupe que associa a linguagem do jazz com o punk, a pop e a folk, adoptando o formato da canção para o esticar até ao limite. Ou mais além, mergulhando em improvisações que, por se quererem verdadeiramente livres, não desdenham as métricas hipnóticas e as melodias orelhudas.