Pão, 6 de Abril de 2013

Uma certa transcendência

texto Nuno Catarino fotografia Nuno Martins

Faz às vezes lembrar The Necks, mas com a junção de uma electrónica entre o “lowercase” e o “near silence”. Remete-nos em ocasiões para La Monte Young, mas se este tivesse o mesmo amor pelo jazz de outro compositor minimalista, Terry Riley. Tem alguma coisa dos Sonic Youth na sua versão “jam”, mas sem nunca chegar ao vermelho da distorção.

Não é fácil definir a música criada pelo trio Pão, mas ainda bem. Trata-se, afinal, de música improvisada, nem idiomática nem não-idiomática, mas trans, atravessando vários territórios nas suas incursões pelo universo dos sons. Se já constituíam uma boa surpresa nos palcos, o seu disco debutante, saído na Shhpuma, veio reforçar ainda mais a noção de que estamos perante algo de muito especial.

Quisemos saber mais e falámos com os três homens que amassam a farinha deste projecto…

 

Como nasceu este trio?
Travassos – O projecto começou numa noite em que fiquei a trabalhar até tarde na Trem Azul e assisti a um ensaio entre Pedro Sousa e Tiago Sousa. Senti de imediato que a música faria sentido e sugeri que eu também participasse. A partir desse dia não tivemos qualquer dúvida de que encontráramos um fio condutor comum.
Pedro Sousa – Mais concretamente, foi um ensaio com Gabriel Ferrandini, Hernâni Faustino e Tiago Sousa. O Travassos estava no escritório ao lado a trabalhar e no fim sugeriu-nos, a mim e ao Tiago, que ensaiássemos juntos. Uns dias a seguir isso aconteceu, e assim nasceu o Pão.
De onde vem e qual é a justificação para o vosso nome, Pão?
Travassos – Procurávamos um nome simples, curto e forte, que não passasse despercebido. O nome Pão estava na gaveta faz algum tempo e este projecto pareceu-me o ideal para o utilizar.
O vosso eixo é a improvisação total? Quais são as regras que são definidas “a priori”?
Tiago Sousa – As regras foram definidas de modo muito natural. Sem grandes constrangimentos. Juntámo-nos para tocar e a música que saiu desde o início foi esta. A partir daí a evolução foi dada no sentido de tornarmos este som mais coeso e de nos tornarmos mais assertivos nos passos que damos. Nunca existiu uma grande estrutura por detrás dos concertos ou dos discos.

Definir é ser deus

Pedro Sousa

Como definem a vossa música?
Tiago Sousa – Parafraseando Virgílio Ferreira: «Toda a gente tem no bolso uma definição da arte, do amor, da política, coisas assim. Dar uma definição é ser deus, por ser definitivo. E então eu digo: a arte é a transcendência sensível do real. Serve-me.»
Travassos – Pessoalmente, sou avesso a catalogações. Enquanto banda nunca tivemos qualquer intenção de definir um género ou uma estética. O nosso som encontrou-se sozinho de forma bastante natural, logo desde os primeiros ensaios.
Pedro Sousa – Trata-se de música incrivelmente simples que ao mesmo tempo é “esquisita”. Creio que a música de Pão resulta porque é mais o contorno de uma ideia do que qualquer outra coisa.
Que referências musicais comuns se encontram nos elementos do trio?
Tiago Sousa – Não conseguimos ouvir música juntos. Quando vamos de carro é sempre uma luta para decidir quem manda no leitor...

Travassos – Felizmente, temos “backgrounds” diferentes e cada um tem os seus particulares interesses. Mas certamente que temos muitas referências comuns, como The Necks, La Monte Young, John Tilbury, John Cage, Sun Ra, Pharoah Sanders, Debussy e John Coltrane, entre muitos outros.

Pedro Sousa – As nossas referências cruzam-se especificamente no “drone” (o do rock e das suas variantes arrastadas), na música contemporânea e em algum jazz. Se eu metesse algum som de hip hop, o Tiago e o Travassos batiam-me.

Quais são as vossas ligações - individuais - ao jazz?

Travassos – Sou quem tem mais ligações ao jazz, até porque trabalho com esta música há cerca de 15 anos. A minha colecção de discos é 70% de jazz de todos os géneros, com maior incidência nas áreas mais criativas. O Pedro também tem desenvolvido a sua carreira à sombra do jazz, que é, actualmente, o seu género musical predilecto. O Tiago está um pouco mais distante, tendo em conta o seu percurso, mas é uma música que admira e aprecia.

E que jazz há na música de Pão?

Travassos – Voluntariamente nenhum, mas a nossa música está contagiada pelo jazz, tendo em conta as nossas influências. Por outro lado, o jazz é um campo tão abrangente, com barreiras tão esbatidas, que não vale a pena pensar sequer se estamos a usar fórmulas provenientes do jazz ou não.

Pedro Sousa – Pronto, seja. Eu toco saxofone; é impossível não apanhar influências dos saxofonistas que oiço e que são, na sua maioria, saxofonistas de jazz. Mas raramente penso no jazz como uma categoria… O que me interessa é fazer um determinado som num determinado momento, quer encaixe quer não, e por agora Pão começa e acaba na música improvisada.

Gestão dos momentos

 Tiago Sousa

A vossa música é marcada por uma permanente tensão, mas esta acaba por nunca explodir. Vive quase sempre no limite do controlo, na contenção... Evitam propositadamente esses momentos de maior descarga energética?

Tiago Sousa – Acho que isso sintetiza o que fazemos. Julgo que o exercício que procuramos está, de facto, nessa gestão dos momentos, do silêncio, do som contínuo. A busca por um momento quase etéreo ou por uma certa transcendência. Daí que sim, evitamos uma maior descarga, mas adoramos quando esses momentos nos surpreendem e tomam conta da coisa.

Poderemos dizer que a música do Pão é o reflexo do cruzamento das vossas personalidades? De um lado a faceta mais luminosa de Travassos e de Tiago Sousa, do outro a mais negra de Pedro Sousa?

Tiago Sousa – Quando se faz música numa banda, o resultado final é sempre a soma de cada uma das partes. Mas sim, de facto, o som do Pão só resulta porque a vida do Pedro é uma merda (risos).

Travassos – Acho que todos temos um pedaço dessa faceta negra a que te referes. De qualquer maneira, o Pedro Sousa bate qualquer um de nós a largos pontos. Está sempre imbuído de um fatalismo irreversível, atado com correntes de aço ao fundo do poço. Depois, lá no fundo, é um doce. Parece-me óbvio que quando se trata de música improvisada os resultados terão sempre a ver com as personalidades e os estados de espírito dos intervenientes. É isso que contribui para que esta música seja tão desafiante.

O Pão é uma fuga aos outros projectos em que estão envolvidos, e que são muito diferentes? O trabalho em nome próprio de Tiago Sousa, o "free jazz" de Pedro Sousa (em duo com Ferrandini, entre outros), a improvisação de Travassos (Pinkdraft, etc.)...

Tiago Sousa – Cada coisa em que me meto tem de ser algo em particular, algo de diferente. Se fosse para fazer a mesma música que faço quando componho não sentiria necessidade de tocar no Pão.

Travassos – Não me parece que haja qualquer necessidade de fuga aos outros projectos. Em princípio, se nos envolvemos neles é porque estamos seguros do que queremos fazer. Nunca me envolveria num projecto com o qual não me identificasse totalmente, em troca de dinheiro ou fama. É para isso que mantenho um emprego fixo e a música caminha em paralelo para me permitir liberdade total.

Pedro Sousa – Pão é diferente dos meus outros grupos, e como tal posso ver isso como uma fuga. Dá-me imenso prazer tocar esta música. O que quero é tocar o mais possível e de maneiras diferentes. A fuga não é mais do que uma inquietação, do que a vontade de me exprimir e fazer coisas.

Os lados da questão

 Travassos

Editaram o vosso primeiro disco pela Shhpuma. A gravação corresponde àquilo que pretendiam?

Pedro Sousa – Bem, sim e não. A música é improvisada e nunca sabemos bem o que irá sair. Se iremos gravar faixas longas ou curtas, com que ordem começamos, que tipo de dinâmicas escolheremos, etc. Construímos na nossa cabeça, individualmente, as ideias gerais ou estruturais, um esboço vago, e a música poderá corresponder ou não ao que imaginámos. O que tem um lado positivo e um lado negativo.

A música pode não ser aquilo que queremos à primeira, mas podemos descobrir coisas fantásticas no processo. É uma questão de sermos inteligentes o suficiente para perceber o que escapou ao nosso controlo e de que forma isso pode ser utilizado a nosso favor. De qualquer das maneiras, tentamos sempre dar o nosso melhor em qualquer altura.

Já tocaram ao vivo com outros músicos, como Filipe Felizardo, Hernâni Faustino e João Pais Filipe. Continuam a estar abertos a colaborações?

Travassos – Estamos sempre abertos a novas colaborações. Existe um rol de músicos que está na calha para o futuro. No entanto, estamos numa fase de retorno absoluto ao trabalho do trio.

Têm tocado ao vivo um pouco por todo o lado. Sentem que estas actuações contribuem para uma evolução da vossa música?

Tiago Sousa – Sem dúvida que a música do Pão tem solidificado e evoluído através dos concertos, dos ensaios e das gravações. Como é música improvisada, existe um processo muito empírico. Atiramo-nos para as coisas e no final tiramos as conclusões.

Pedro Sousa – Tal como o Tiago disse, a nossa música está em constante mutação. No espaço de um mês, mais coisa menos coisa, demos cinco concertos e todos eles foram bastante diferentes entre si, alguns mais próximos da música electrónica explorativa, outros mais assumidamente contemplativos, etc.

Para quando um próximo disco? Vai contar com algum músico convidado?

Travassos – Ainda não pensámos com clareza sobre os detalhes do próximo disco, mas muito provavelmente iremos ter músicos convidados. Sei que será um passo natural e evolutivo do grupo.

Que outros planos têm?

Travassos – Há muito trabalho por fazer. Temos obviamente algumas intenções, mas de momento estamos a tentar gerir o processo por etapas e a tirar ilações dos resultados. O que nos ajudará a determinar melhor os planos para o futuro…

 

Para saber mais

http://os-pao.info/press/

 

Discografia

“Pão” (Shhpuma, 2012)