Carlos Bica, 26 de Abril de 2013

A curiosidade não morreu de velhice

texto Rui Eduardo Paes

É já no próximo dia 3 de Maio que vamos conhecer o novo trio de Carlos Bica com os alemães Carsten Daerr e Hanno Stick, marcando a abertura da 16ª edição do Festival de Jazz de Valado dos Frades (Nazaré) – ver Preview do evento neste “website”.

Sobre esta estreia nacional falámos com o contrabaixista e compositor residente em Berlim, que nos revela um pouco do que é este projecto e do que vamos ouvir. Entre muito mais ficámos a saber que o disco do grupo já está gravado e que agora falta só saber que editora está interessada em lançá-lo.

 

Vais apresentar no Valado dos Frades o teu novo projecto, um trio com Carsten Daerr e Hanno Stick. Talvez possamos começar por eles: que motivos levaram a que estes músicos se juntassem? Porquê eles e não outros?

Existe na música, assim como na vida, uma qualidade humana muito importante - a intuição. Esta ajuda-nos a saber qual o caminho a seguir e afasta-nos do ruído dos pensamentos. Tal como numa relação amorosa, não nos perguntamos o porquê de termos escolhido determinada pessoa como companheiro(a). Se o fizermos, é provavelmente um presságio de algo desagradável que pode estar para vir. Nunca escolhi os músicos para os meus projectos pela sua popularidade no meio musical ou sequer pelas suas qualidades enquanto instrumentistas. Um feliz acaso faz com que eles surjam na minha vida.

Este trio nasceu a partir da vontade de alargar a minha colaboração com o pianista Carsten Daerr e o baterista Hanno Stick foi o elo que faltava para que este trio nascesse. Aproveito para afirmar a importância da química musical entre músicos numa banda, o que nada tem que ver com amizades pessoais. Quando essa química existe, os músicos tornam-se insubstituíveis e a música atinge qualidades que jamais existirão em outros casos, por melhor que sejam os músicos.

Democracia de grupo 

Trata-se de um trio de piano jazz. Isso quer dizer que este formato instrumental leva também a um abraçar das tipificações históricas que lhe estão associadas? Que tem coordenadas semelhantes às de outras formações similares da actualidade? São questões que não se colocariam, talvez, se tu próprio, Daerr e Stick não fossem músicos flexíveis e desalinhados com tendências específicas…

Um trio de piano é uma constelação de instrumentos há muito praticada no jazz e que teve um renascimento nas últimas décadas através de nomes como Keith Jarrett, Brad Mehldau, E.S.T. ou Bad Plus. Um dos meus trios favoritos na história do jazz foi e continua a ser o trio do Bill Evans com Scott LaFaro e Paul Motian. Este foi um dos primeiros trios em que a hierarquia de funções desapareceu, dando lugar a uma democracia de grupo e a uma emancipação dos instrumentos.

Este é o passado histórico, nos dias de hoje é o processo criativo individual que mais determina a música, podendo ser secundária a instrumentação do grupo. Respondendo à tua pergunta e simplificando a coisa, poder-se-á dizer que praticamos um jazz europeu assente nas composições originais do trio.

 

Em termos estéticos, de conceito, de forma, o que define mais o Bica-Daerr-Stick Trio?

Devido à sua ainda curta existência, o trio encontra-se num processo de crescimento da sua entidade pessoal. Existem dois compositores neste trio, o Carsten Daerr e eu. Tal como acontece no trio Azul, as músicas escolhidas têm de ter sido aceites por todos os músicos intervenientes para que possam fazer parte do repertório. Qualquer músico tem de gostar e acreditar na música que toca para que esta tenha direito a existir e possa atingir a qualidade que merece ter.

 

Os três membros do trio têm uma característica comum: habitam todos em Berlim. Simples coincidência geográfica ou há o propósito de estabelecer uma abordagem berlinense da música, em linha com outros exemplos da chamada “cena de Berlim”?

Não há qualquer intuito em fazermos um "som berlinense". Foi simplesmente pelo facto de vivermos na mesma cidade que o acaso nos aproximou. A Kristiina Tuomi tinha um duo com Carsten Daerr e contactou-me depois me ter ouvido em concerto e desde aí eu e o Carsten temos vindo a tocar regularmente juntos nesta e em outras formações, nomeadamente em duo. Pela empatia musical que tem vindo a crescer entre nós, resolvemos alargar a formação para um trio.

Há três anos fui contactado por uma banda de jovens berlinenses, MSV Brecht, com o pedido de escrever as “liner notes” para o seu primeiro álbum. Desde então ficámos bons amigos. O baterista desta banda era Hanno Stick, um jovem cheio de talento e maturidade musical que encaixa na perfeição no som que temos em mente.


As tuas colaborações com Daerr remontam a uns 10 anos. Significa isso que o núcleo duro, por assim dizer, da  vossa música é constituído pelas interacções entre ambos?

Sim, poder-se-á dizer que o Carsten e eu somos o núcleo do trio. Para além de já tocarmos juntos há muito tempo, os anos de vida e experiência também contam.

Com naturalidade

Carlos Bica por Nuno Filipe Oliveira


Já disseste que a escrita para o grupo é uma tarefa partilhada com Daerr. Há alguma adequação do teu trabalho de composição para o efeito ou segues os parâmetros de sempre?

Os meus parâmetros são os habituais: encontrar música que sirva uma formação e os músicos envolvidos. Normalmente, não escrevo música a pensar num determinado projecto, mas quando se trabalha com um grupo regularmente isso acaba por acontecer de maneira natural.


E quanto à vertente Carlos Bica contrabaixista, o que se mantém do que conhecemos e o que é “diferente”, tendo que ver com as especificidades deste projecto? Vi um vídeo em que tocas com Daerr em situações de contraponto, ou seja, não propriamente fazendo o que um contrabaixo faz, mesmo em duo…

Se a música o permitir poderei, enquanto contrabaixista, optar por caminhos menos convencionais. No entanto, a minha entidade pessoal enquanto músico permanece intacta. Há que ter sempre em mente que não se pode vestir completamente a pele do instrumento que se toca, se quisermos ser realmente livres para poder criar.

 

O grupo já tem alguma rodagem de concertos, com uma ida à Índia pelo meio, sendo esta a primeira vez que toca em Portugal. Falta o disco. Para quando?

Depois de termos estado em estúdio a gravar uma demo, estamos neste momento a fazer uma pesquisa de mercado. Apesar de ser prática habitual, é muito injusto e desagradável, depois do trabalho intensivo que é a gravação de um álbum, um músico ter de iniciar uma "caça à editora". Não tem sido, felizmente, o meu caso, mas constato muitas vezes que os registos discográficos saem vários anos depois de terem sido gravados, numa altura em que os músicos já poderiam ter partido para um novo projecto.

 

Em termos de novidades na tua actividade musical esta está isolada, ou assistiremos brevemente a outros novos investimentos de Carlos Bica, para além da continuação de projectos como o Azul, o Matéria-Prima ou as tuas parcerias com João Paulo Esteves da Silva?

Para além destes projectos reiniciei uma colaboração musical com o guitarrista finlandês Kalle Kalima, que também vive em Berlim e com o qual gravei em 2006, juntamente com o trompetista Sven Klammer, o álbum "A Chama do Sol". Acabei há uns meses as gravações do primeiro disco do quarteto de cordas berlinense Move, um projecto entre a música de câmara erudita e a música improvisada.

Além disso, iniciei um projecto na área da dança, um duo contrabaixo-dança. Já fiz música para várias coreografias e participei diversas vezes em espectáculos de dança moderna, mas nunca me apresentei em palco apenas com o meu contrabaixo e um bailarino(a). A curiosidade não morreu de velhice.

 

Para saber mais

http://www.carlosbica.com/

 

Discografia

Carlos Bica & Azul: “Things About” (Clean Feed, 2011)

Carlos Bica & Matéria-Prima: “Carlos Bica + Matéria-Prima” (Clean Feed, 2010)

Carlos Bica & Azul: “Believer” (Enja, 2006)

Carlos Bica / Sven Klammer / Kalle Kalima: "A Chama do Sol" (Nabel, 2006) 

Carlos Bica: “Single” (Bor Land, 2005)

Tuomi: "Tightrope Walker" (Traumton, 2005)

Sven Klammer: "Nevs" (Mons, 2005)

Carlos Bica & Azul: “Look What They’ve Done to my Song” (Enja, 2003)

Paul Brody's Tango Toy: "The South Klezmer Suite" (Laika Records, 2003) 

Carlos Bica & Ana Brandão: "Diz" (Enja, 2001)

Gebhard Ullman / Jens Thomas feat. Carlos Bica: "Essência" (Between the Lines, 2001) 

João Paulo Esteves da Silva / Carlos Bica / Peter Epstein: "Almas" (M.A Recordings, 2000)

Paul Brody's Tango Toy: "Klezmer Stories" (Laika Records, 2000) 

Carlos Bica & Azul feat. Ana Brandão: "Twist" (Enja, 1999) 

João Paulo Esteves da Silva / Carlos Bica / Peter Epstein: "O Exílio" (M.A Recordings, 1998)

Carlos Bica & Azul feat. Ray Anderson e Maria João: "Azul" (Polygram/Emarcy, 1996)

Maria João & Cal Viva: "Sol" (Enja, 1991) 

Cal Viva: "Cal Viva" (Playon, 1991)