Evan Parker, 22 de Maio de 2013

Com o sentido do momento

texto Gonçalo Falcão

Quando se anunciou a ideia de uma nova reunião do XJazz Ensemble, todos os músicos que com Evan Parker estiveram em residência artística, o ano passado, em Pedrogão Pequeno responderam com entusiasmo e imediata adesão.

Quisemos saber mais sobre o que se passou no Verão de 2012 pelas aldeias do xisto e quais são os planos do saxofonista – um dos mais importantes na história do jazz e da improvisação ainda em actividade – para o concerto com 17 músicos nacionais (sendo um deles o autor desta entrevista) que se realizará a 1 de Junho no Teatro Académico de Gil Vicente e para o seu solo no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha a 31 de Maio, ambos inseridos no festival Jazz ao Centro.

 

Visitou-nos várias vezes e suponho que, depois de tantos contactos, já deve saber como funciona o cérebro português… Mesmo assim, será que estava preparado para a surpresa que o Jazz ao Centro Clube lhe fez em Agosto passado, ao fechá-lo numa sala com dois contrabaixos, três guitarras, três baterias, sopros, electrónica e uma harpa?

Bem, eu já conhecia a instrumentação antes de vir, mas o que é realmente importante são os indivíduos e a forma como cada um aborda a música, bem como a capacidade de trabalhar em conjunto…

 

Consegue dar-nos as suas memórias daquela semana fora do tempo? Dos concertos e dos ensaios?

Lembro-me de uma sala que ficou completamente preenchida, assim que toda a gente se instalou. Esta sala lotada acabou por imprimir bastante intensidade no trabalho. Parecia haver um ritmo quase natural naqueles dias, desde levantar, tocar, parar para as refeições e ter oportunidade para discutir a música e os progressos realizados.

 

O que é que achou da experiência com os músicos portugueses em termos de disciplina, personalidade e entrega à música, quando comparada com outras experiências suas com outros grupos?

Como compreendo pouquíssimas palavras em Português, fiquei totalmente dependente dos diálogos em Inglês. Procurei sempre sublinhar que a liberdade individual tem de ser equilibrada com o respeito mútuo. Levei algumas ideias que não funcionaram de todo, mas como não trazia material fixo, também eu tive de improvisar. Sabíamos todos que estávamos a trabalhar com o objectivo de um concerto final e para mais dois ou três acontecimentos “site-specific” ao ar livre, antes deste. Tínhamos alguns problemas de logística, com o movimento das baterias, dos amplificadores e dos instrumentos de um lado para o outro, mas no final tudo acabou por resultar bem. Espero que os músicos também tenham ficado contentes com esta minha abordagem improvisada.

Saber de experiência feito 

Trabalhar com um grupo grande de músicos não é uma novidade para si. O que é que este tem de diferente?

Quando tenho o papel de líder, normalmente estou com músicos que escolhi e com quem já toquei antes; ou seja, não tenho muito trabalho anterior que se compare ao que este ensemble determinou. Claro que trago comigo a experiência de trabalhar com a Globe Unity Orchestra, com a London Improvisers Orchestra e com outros grupos grandes, mas o que me interessa mais é a especificidade de cada situação, em vez de usar “métodos” que são transferidos de grupo para grupo.

 

Ao preparar o seu regresso a Portugal e a este ensemble, está a planear algumas mudanças e “inputs” diferentes para o grupo?

A forma como abordo este tipo de situações é idêntica: construir uma experiência colectiva e esperar que algumas questões basilares se resolvam por si mesmas. Destas, a mais importante de todas é a disposição dos músicos, não só na relação de uns com os outros mas também com o público. Será certamente tudo novo, por força das circunstâncias, e terá uma forte relação com os concertos anteriores pelos mesmos motivos.

 

A ideia de dirigir a improvisação e conseguir compor música com gestos, olhares, linguagem corporal implica uma grande capacidade para ouvir e a sua espantou todos os músicos que trabalharam consigo no ano passado. Consegue dar aos nossos leitores uma ideia do que se passa no seu cérebro enquanto conduz o grupo?

Sou um improvisador e por isso este trabalho é apenas uma continuação dessa forma de tocar. Tento perceber as individualidades e garantir que todos sentem que o seu envolvimento com a música conta e que é importante para o resultado global do grupo. A improvisação colectiva requer não só um forte sentido do momento, mas também um rumo para o desenvolvimento ou para uma direcção. Quem somos? O que é que estamos a fazer?
Depois de termos trabalhado algum tempo juntos, os músicos já conseguiam antecipar algumas das minhas decisões prováveis. Nesse momento tudo começou a ficar mais intuitivo.

 

Nos concertos do Verão, foi introduzida uma pequena conversa (feita por Pedro Costa, da Clean Feed), antes da música, de forma a dar aos ouvintes algumas pistas sobre como ouvir e melhor desfrutar o que ia acontecer. Acha que foi uma boa ideia e que deveria ser prosseguida?

Na verdade, isso foi apenas feito no concerto feito ao pé da piscina do hotel e no último. Foi uma boa ideia, pois muitos dos hóspedes do hotel teriam expectativas de um jazz mais familiar, com melodias e estruturas de repetição. Acho bem que se explique que a abordagem da improvisação total é diferente. 

Situações excepcionais

 

Depois de tantas experiências com músicos diferentes, continua à procura de criar contextos de trabalho inesperados ou surpreendentes, ou a própria vida encarrega-se disso (como ser convidado para ir a Pedrogão Pequeno dirigir um grupo de portugueses armados com instrumentos muito sonoros)?

Um pouco das duas. Normalmente é mais fácil ter uma ideia do que gerar um contexto para ela acontecer. Tenho tido a sorte de poder tocar em situações excepcionais ao longo destes anos e o “workshop” no Verão foi certamente uma delas.

 

Actualmente, quais são os seus projectos mais especiais?

Todas as oportunidades para tocar trazem desafios especiais, seja porque enfrento uma combinação completamente nova ou porque toco com colegas e amigos de sempre.

 

Aparentemente, trabalhar com grupos grandes é algo que o motiva e o Electro-Acoustic Ensemble parece ser o seu projecto mais importante neste momento. Estou certo?

O último concerto com o Electro-Acoustic Ensemble foi em 2011. É um grupo muito complexo e, por isso, relativamente caro, o que faz com que seja difícil arranjar trabalho para ele. Estou sempre com esperança de que alguém nos volte a convidar. O meu próximo trabalho é misturar e lançar as gravações do concerto no Huddersfield Contemporary Music Festival. Entretanto, tenho percebido que combinações menos alargadas dão-me oportunidade de trabalhar com subgrupos do EAE. Em Janeiro dei um concerto em quarteto na grande exposição sobre a ECM em Munique com o meu velho amigo Paul Lytton e os meus mais novos amigos Richard Barret e Paul Obermayer (aka FURT). Foi uma combinação única, apesar de já termos tido oportunidade de tocar juntos em outros subgrupos (SET, etc.).

 

Os seus solos com respiração circular são provavelmente os elementos mais habitualmente associados ao seu nome. Como é que se prepara – mentalmente – para um concerto a solo? Vai fazê-lo em Coimbra nas ruínas do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha (século XIII). O que é que acontece nos momentos imediatamente antes de começar a tocar?

Os momentos  antes são provavelmente muito menos importantes do que as semanas antes. A condição física, especialmente na embocadura, é crucial. Um “soundcheck” permite-me testar a acústica do local e o resto é feito pelo momento.

 

Acredito que há uma relação de grande proximidade entre a arquitectura e a história da música em que a primeira influencia grandemente a segunda. Concorda com esta ideia?

No sentido em que é a arquitectura que produz a boa acústica, sim, concordo.

 

Recentemente lançou um disco excepcional, a solo na igreja de Whitstable, e também “Psalms”, em duo com Stan Sandell no mesmo local. As igrejas lidam bem com o som do saxofone e com a maneira como entende a música? Como é que explora estes espaços?

Madeira, estuque, tijolo e pedra são bons materiais nas mãos de um bom engenheiro acústico. Dado que as igrejas foram projectadas para fazer com que a voz ressoasse, elas funcionam muito bem comigo. Fiquei convencidíssimo desde que me descreveram o mosteiro de Coimbra e estou cheio de vontade de ir lá testar a acústica pessoalmente.

 

Para saber mais

http://www.evanparker.com/

 

Discografia seleccionada

Globe Unity Orchestra: “Globe Unity 67 & 70” (Atavistic, 1970)

Globe Unity Orchestra: “Hamburg ‘74” (Atavistic, 1974)

Globe Unity Orchestra: “Baden-Baden ‘75” (FMP, 1975)

Evan Parker: “Monoceros” (Inclus, 1978)

Evan Parker: “Six of One” (Incus, 1980)

Evan Parker / Barry Guy / Paul Lytton: “Atlanta” (Impetus, 1986)

Evan Parker: “The Snake Decides” (Psi Recordings, 1986)

London Jazz Composers Orchestra: “Double Trouble” (Intakt, 1989)

Evan Parker: “Process and Reality” (FMP, 1991)

London Jazz Composers Orchestra: “Theoria” (Intakt, 1991)

Evan Parker / Barry Guy / Paul Lytton: “50th Birthday Concert” (Leo Records, 1994)

Evan Parker: “Chicago Solo” (Okka Disk, 1995)

Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble: “Toward the Margins” (ECM, 1996)

Evan Parker / Barry Guy / Paul Lytton & Marilyn Crispell: “After Appleby” (Leo Records, 1999)

Barry Guy New Orchestra: “Inscape – Tableaux” (Intakt, 2000)

Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble: “Memory / Vision” (ECM, 2002)

Barry Guy New Orchestra: “Oort-Entropy” (Intakt, 2004)

Evan Parker / Barry Guy / Paul Lytton & Agustí Fernández: “Topos” (Maya Recordings, 2006)

Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble: “The Moment’s Energy” (ECM, 2007)

Evan Parker: “Whitstable Solo” (Psi Recordings, 2008)

Evan Parker / Barry Guy / Paul Lytton & Peter Evans: “Scenes in the House of Music” (Clean Feed, 2009)

Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble: “Hasselt” (Psi Recordings, 2010)