Nelson Cascais, 4 de Junho de 2013

Atrás da cenoura

texto Rui Eduardo Paes

Com honras de fecho do Festival de Jazz de Valado dos Frades a 29 de Junho próximo, com The Mingus Project, Nelson Cascais está a viver uma fase particularmente dinâmica do seu percurso. O álbum “Evolução na Forma”, primeiro do seu novo Decateto, saiu recentemente e tem dado uma outra perspectiva – mais ampla, e agora muito dirigida para os instrumentos de sopro – do trabalho composicional e de direcção daquele que é um dos mais importantes contrabaixistas do jazz nacional.

Na conversa que a seguir se reproduz, o músico afirma que a sua escrita, bem como a improvisação conjunta com os seus parceiros, está simplesmente em continuidade com a de anteriores discos como “The Golden Fish” e “Guruka”. E que até surge mais parametrada, pois faz uso de séries dodecafónicas. Aqui ficam as suas impressões sobre o que fez, o que está a fazer, o que aí vem e muito mais...

 

Depois de uma série de projectos “pessoais”, ainda que partilhados com outros músicos, estás agora a investir num par de outros em que o factor colectivo é dominante, um com a música de Charles Mingus, que mesmo com pequenas formações tinha uma perspectiva, digamos, orquestral, e outro que apresentas como uma «orquestra em formato reduzido», o Nelson Cascais Decateto. Porquê a passagem de uma dimensão para outra, se é que entendes que existe realmente uma?

Sempre trabalhei com colectivos, uns maiores e outros menores, mas em todos eles o factor colectivo esteve presente de uma forma determinante. Nunca senti vontade de fazer música sozinho. O que me satisfaz é a partilha da música com outros músicos e com o público.

O Decateto resulta da procura de um som. Em primeiro lugar vem a projecção de uma sonoridade na minha mente, na minha imaginação. O prazer proporcionado pelo desafio de escrever para 10 instrumentos é apenas superado pela experiência de ouvir e tocar a música pelo Decateto, com toda a entrega e a partilha que existe entre os seus elementos.

Talvez este efeito de júbilo seja proporcional ao número de músicos envolvido. Imagine-se o que será ouvir e tocar a própria música por uma grande orquestra sinfónica, com coro misto! Deve ser de perder o ar. Hum... isto está a dar-me umas ideias...

 

Pegar na música de Mingus pode ser uma experiência esmagadora, mas tiveste a coragem de tornar a música deste gigante da história do jazz em algo de próprio com The Mingus Project. É a homenagem de um compositor a outro compositor, ou focaste-te simplesmente num trabalho de arranjos? E é a homenagem de um contrabaixista a outro contrabaixista? Até que ponto está o Mingus presente no teu jogo de contrabaixo neste contexto? E em geral?

Estou de acordo contigo quando dizes que pegar na música do Mingus pode ser uma experiência esmagadora. Pode ser uma experiência desastrosa... Considero o Charles Mingus um dos grandes génios da composição musical do século XX e é para mim uma referência muito forte como compositor, como contrabaixista, como “bandleader”.

O homem escrevia e tocava a sério e deixou-nos um legado de um valor incomensurável. Além disso é o exemplo perfeito de um tipo de postura perante a música no qual me revejo, ou seja, um indivíduo fiel à sua verdade, com um profundo respeito pela tradição, com a vontade insaciável de levar a música mais além, procurando evitar o fácil e o óbvio e apostando em fazê-lo de uma forma musicalmente e intelectualmente fundamentada; e isto é algo que requer uma entrega de corpo e alma, com tudo o que isso implica. Falamos do Mingus, mas poderíamos falar de Eric Dolphy ou de Booker Little…

Olho para The Mingus Project como uma homenagem de um músico a outro músico; tocamos a música como ela foi concebida, sem procurar personalizá-la através de arranjos ou de instrumentações pretensiosas e desnecessárias. 

Para tocar Mingus é preciso compreender a música nas suas várias dimensões, na medida em que é uma obra plena de emoção, de profundidade, de significado, de história, de tradição, de reverência e de irreverência, de cisão, de revolta, de paixão e de ódio. Ter essa consciência ajuda-me a tocar com a energia, com o pulso e a intenção que a sua música exige. Dá um gozo brutal. 

Um equilíbrio difícil 

Porque se trata de Mingus, que quota-parte têm nos resultados da música que tocam os músicos integrados no grupo? Não creio que sejam apenas intérpretes, ou que o seu contributo passe apenas por solos improvisados... Se bem que o Mingus fosse um bocado ditador, determinando o que os seus músicos deviam fazer e como deviam, o que julgo que não acontece contigo.

Os músicos são determinantes para o resultado final. É assim, de resto, em qualquer tarefa que implique várias pessoas. Acredito que reuni um grupo fantástico que partilha comigo a admiração e o interesse pela obra do Mingus e que reúne as características técnicas, criativas e humanas que considero adequadas à música em questão. É pessoal que toca a sério, com um elevadíssimo domínio técnico dos instrumentos, com um profundo conhecimento da linguagem e, portanto, com a liberdade necessária para tocar esta música. Falo de Ricardo Toscano, de Diogo Duque, de Victor Zamora e de Vasco Furtado. Inspiradíssimos.

Ditador não sou. E o Mingus também não o era, em boa verdade. Trata-se de ter uma visão artística, de saber o que se quer e orientar o grupo nessa direcção; mas de espírito aberto, sem pretensões nem certezas absolutas. É um equilíbrio difícil que requer bom senso e muita intuição.

Às vezes tens de ser firme nas tuas convicções, claro, mas é importante ouvir o outro e estar preparado para que as coisas possam acontecer de uma forma totalmente diferente da que tinhas projectado. É esta a postura que tento ter em todos os grupos que tenho liderado ao longo do meu percurso.

 

A tua admiração por Charles Mingus está também patente no Decateto? E se sim, de que modo? O teu interesse em escrever para uma naipe alargado de sopros vem de onde? De um gosto particular por “big bands”, de que quem te ouvia não suspeitava? Existe uma particularidade neste ensemble: a inclusão de instrumentos como os clarinetes soprano e baixo, a flauta, a trompa, a tuba, não é o mais usual no jazz, denotando um interesse pelas orquestras de câmara... É isso?

Há aspectos da escrita do Mingus que encontro na composição que desenvolvi para o Decateto e que têm a ver com, por exemplo, não fazer uma escrita segura, isto é, não deixar de escrever algo só porque será difícil de executar e também não seguir convenções; é deixar a pena correr pelo papel, guiada pelo ouvido e por nada mais.

Não tenho um particular interesse por “big bands”. Gosto de Duke Ellington. Sou completamente apaixonado pela música de Gil Evans, em particular a que fez com Miles Davis. Gosto muito de Maria Schneider.  A Liberation Music Orchestra de Charlie Haden é sublime. “The Birth of the Cool” é um disco simplesmente maravilhoso e foi uma referência sobretudo em termos tímbricos.

Tenho um grande fascínio pelo universo das bandas filarmónicas. Um dia gostaria de escrever e tocar com uma banda filarmónica.

 

Precisamente numa altura do teu percurso em que a composição parece sobrepor-se ao resto, o Decateto é o teu projecto com mais presença da improvisação. Como é que esses dois cúmulos surgem em simultâneo? É um paradoxo?

Não creio que seja assim. Não encontro qualquer diferença entre a música que faço com o Decateto e a que fiz nos meus trabalhos anteriores no que diz respeito ao equilíbrio entre música escrita, a interpretação desta e o espaço para solos improvisados. Compreendo que talvez se possa ficar com essa ideia após a audição do tema “Hurly Burly”... este tem, de facto, uma secção de improvisação totalmente livre levada a cabo pelos sopros, mas esta desenvolve-se sobre um ostinato rígido, construído a partir de uma série dodecafónica tocada pelo Fender Rhodes. A segunda secção do tema é totalmente escrita a partir da mesma série. Enfim, dada a ambiguidade harmónica e melódica poderá parecer, ao ouvido menos familiarizado com esta estética, que se trata de uma improvisação livre. Mas não. 

Música livre

 

Com o Decateto sente-se que estás a sair das tuas zonas de conforto. Talvez seja o teu projecto menos parametrizado e mais livre. Isso foi intencional desde o início da sua formulação? Até que ponto, também, há uma co-responsabilização dos músicos que tocam contigo nas linhas de orientação, levando inclusive a mudanças no que está na pauta?

Não partilho da tua percepção. Partes do pressuposto, errado na minha opinião, de que esta música é mais livre e menos parametrizada do que a que fiz anteriormente. Mas não é assim. É, na realidade, um pouco mais parametrizada, na medida em que, dada a dimensão do ensemble e no sentido de tirar o máximo partido das possibilidades orquestrais, existem mais secções escritas, “backgrounds”, “shouts” e os solistas têm, aqui e ali, predefinido o número de “chorus” de solos.

Como referi, em termos gerais a música processa-se da mesma forma da que apresentei nos meus discos anteriores. Porque é o que me interessa fazer. É música livre, sim. Aí estamos de acordo. Cada um de nós toca o que quer, como quer e bem entende. A única coisa que exijo é que isso seja feito com sinceridade, com convicção; com verdade.

 

Como definirias a tua escrita? Achas que ainda há alguma distância entre aquilo que ela é e aquilo que queres que ela seja?

Há uma grande distância, pois. É como o burro que persegue a cenoura (risos)...

 

Consideras que o teu trabalho como compositor é directa ou indirectamente determinado pelo facto de seres contrabaixista ou compões precisamente para cobrir zonas que o contrabaixo não cobre? E olhando a questão na inversa: a tua experiência como compositor vem influenciando a maneira como tocas o instrumento?

Componho sempre ao piano, embora os meus recursos neste instrumento sejam diminutos, e isto creio que me ajuda a distanciar-me do contrabaixista.

 

Fala-me do teu contrabaixo. É um belíssimo instrumento...

Tal como grande parte dos contrabaixistas, sofro da síndrome do descontentamento com o instrumento. Já vou no nono contrabaixo e começo a ficar insatisfeito com a minha última aquisição: um belíssimo instrumento alemão, 7/8, com aproximadamente 100 anos, que comprei na Holanda e com o qual gravei o meu último disco, com o Decateto.

Tenho também um John Juzek, 5/8, de 1940, semelhante ao de Ron Carter, que tem o som característico dos instrumentos feitos na Alemanha de Leste e na Checoslováquia naquele período; são contrabaixos com muita projecção e ataque e foram sempre muito procurados pelos músicos de jazz. Com este gravei “Guruka” e o “Sound Colors” de Jesus Santandreu.

 

O que vem aí depois, ou para além, do Mingus Project e do Decateto? Mais investimentos iminentemente colectivos ou um regresso a uma esfera mais pessoal? E enquanto sideman: em que grupos estás agora envolvido e qual o nível do teu envolvimento?

Não sei o que virá a seguir. Neste momento estou a curtir a música do Mingus e o Decateto e também um trio que lidero chamado The Amplectors o qual tem uma formação volátil, pois o único elemento fixo sou eu. Vou convidando pessoas para integrarem este trio de acordo com a música que me apetece tocar.

Enquanto “sideman” estou no novo grupo de Bruno Santos, terei ao longo deste ano algumas colaborações com a Orquestra Jazz de Matosinhos na sequência do disco que gravei com esta tocando a música de João Paulo Esteves da Siva, e co-lidero o No Project Trio com o João Paulo e com João Lencastre.

Este ano integro o Septeto do Hot Clube sob a direcção de Gonçalo Marques. Tenho o privilégio, também, de continuar a tocar com imensos músicos que muito admiro, como André Fernandes, Mário Laginha, Jeff Davis, entre outros

 

Como encaras o futuro próximo? Achas que a crise e as medidas de austeridade que estão a afectar o sector cultural vão minar, ou estão a minar, o “boom” do jazz em Portugal? O balão estará a perder o ar?

O futuro é incerto. Mas não é só para os músicos, infelizmente. Acredito que o elástico da ganância, do poder, do capital, está a esticar e irá rebentar. Não sei o que virá a seguir, mas espero que seja melhor. Pela parte que me toca continuarei a fazer o que melhor sei: música. E fá-lo-ei sempre com as mesmas entrega e dedicação. É o que eu tenho para oferecer ao mundo.

O sector cultural está a ser muito afectado pela crise. Nós, portugueses, deparamo-nos com uma crise bem pior do que a crise financeira: a crise intelectual. A sociedade portuguesa está cada vez mais vazia de pensamento. E por isso não reclama a cultura. Os equipamentos vão sendo extintos e os que permanecem reduzem cada vez mais a sua programação a mínimos de quantidade e de qualidade vergonhosos. Tudo o que se investiu nas últimas décadas ao nível da difusão artística e do alargamento e da formação de público está a ser destruído.

Não creio que o balão do jazz esteja a perder o ar, pelo menos por enquanto. A paixão que nos move é imensa e resiste, insiste. Continuamos a tocar, a compor, a gravar, a viajar para levar o nosso jazz a outras culturas. Há cada vez mais jovens músicos a tocarem muitíssimo bem, a estabelecerem pontes internacionais e a garantirem a vitalidade do meio. Para terminar com uma frase muito representativa da mentalidade portuguesa: a coisa vai indo...

 

Para saber mais

http://www.nelsoncascais.net

 

Discografia

Nelson Cascais Decateto: “A Evolução na Forma” (Sintoma Records, 2013)

Orquestra Jazz de Matosinhos & João Paulo Esteves da Silva: “Bela Senão Sem” (Tone of a Pitch, 2013)

Nelson Cascais: “The Golden Fish” (Tone of a Pitch, 2011)

No Project: “Vol. 1” (JACC Records, 2011)

Luís Figueiredo Trio: “Manhã” (JACC Records, 2010)

Nelson Cascais: “Guruka” (Tone of a Pitch, 2009)

André Fernandes: “Imaginário” (Tone of a Pitch, 2009)

Carlos Martins: “Água” (iPlay, 2008)

Paulo Bandeira: “Iberiando” (Tone of a Pitch, 2008)

Abe Rabade Septet: “Open Doors” (Karonte Records, 2008)

Abe Rabade: “Rosalia XXI” (Ed. de autor, 2008)

André Fernandes: “Cubo” (Tone of a Pitch, 2007)

André Fernandes: “Timbuktu” (Tone of a Pitch, 2006)

Carlos Martins e Orquestra: “Do Outro Lado” (Som Livre, 2006)

Sara Valente: “Blue in Green” (Ed. de autor, 2006)

TOAP Colectivo: “Vol. 1” (Tone of a Pitch, 2006)

Laurent Filipe: “Ode to Chet” (Som Livre, 2006)

Nelson Cascais: “Nine Stories” (Tone of a Pitch, 2005)

Bruno Santos: “Wrong Way” (Tone of a Pitch, 2005)

Joana Machado: “Idiossincrasias” (Ed. de autor, 2005)

Pedro Madaleno: “Sound of Places” (Clean Feed, 2004)

Laurent Filipe: “A Luz” (Clean Feed, 2004)

Jorge Reis: “Pueblos” (Tone of a Pitch, 2003)

Nelson Cascais: “Ciclope” (Tone of a Pitch, 2002)

Nuno Ferreira & Companhia dos Sons: “Spin” (Tone of a Pitch, 2002)

Isaac Turienzo: “Con Angel” (Ed. de autor, 1999)