Maresuke Okamoto, 19 de Junho de 2013

Fuga à radioactividade

texto Paulo Chagas

Como muitos músicos que no mundo se dedicam ao jazz mais exploratório e à improvisação livre, Maresuke Okamoto tem outra profissão para além da música. É esta que lhe permite a subsistência e, muito essencialmente, a liberdade para tocar pelo mero gosto de o fazer e de viajar pela Europa para encontrar outras formas de improvisar. Desde há dois anos e da tragédia de Fukushima mais habitualmente, procurando algum recanto onde não haja radioactividade. Atouguia da Baleia, a vila do concelho de Peniche onde se realiza anualmente o MIA, parece ser esse lugar. Este ano participou no festival pela segunda vez.

Para Okamoto, a improvisação é coisa de palco, para viver no presente de cada actuação. Por isso, não tem discos editados e mostra não ter interesse em vir a tê-los. Assim, se o quiserem ouvir terá de ser ao vivo. Haverá muitas oportunidades para tal, pois o virtuoso do contracelo (um contrabaixo piccolo afinado como um violoncelo) e da contraviola (simplesmente um violoncelo piccolo) voltará ao nosso país, tudo o indica, muitas mais vezes…

 

Foste um dos impulsionadores da recentemente criada Tokyo Improvisers Orchestra. Fala-nos um pouco sobre isso – as motivações para a sua criação e a sua actividade regular…
A ideia nasceu quando o saxofonista/clarinetista Ricardo Tejero veio ao Japão em Fevereiro de 2012, através de um protocolo com a London Improvisers Orchestra. Na altura fiquei com a esperança de que ele gostasse de dirigir uma orquestra de músicos japoneses e fiz-lhe um convite nesse sentido. Como ele aceitou, tratei de contactar vários amigos que ficaram fascinados com a ideia de tocarmos todos juntos. O primeiro concerto da orquestra resultou então numa reunião de 40 grandes músicos.

Apesar de ter sido um grupo de dimensão significativa, o espectáculo foi muito tranquilo, pois todos os músicos meus convidados eram pessoas que sabiam ouvir muito bem os sons uns dos outros para poderem tocar. Foi uma improvisação muito japonesa. Desde aí temos tentado organizar concertos mensais em vários espaços e brevemente iremos fazer uma apresentação numa das salas mais importantes da cidade.

 

Relativamente à cena da improvisação japonesa o que nos podes dizer? Há muitas diferenças em relação ao que se faz na Europa?

Tal como Albert Ayler já se queixava há umas décadas, no Japão dos anos 2000 continuamos a não ter ninguém que realmente saiba apreciar e perceber como se fazem estas músicas. Há muita dificuldade em distinguir-se o que é amador e profissional, pois aqui a improvisação é confundida muitas vezes como um desempenho fácil ao alcance de qualquer um. As pessoas vão para casa tocar ao vivo, fingindo ser músicos. No dia em que compram os seus instrumentos imaginam-se logo improvisadores emergentes. Portanto não são credíveis as sessões caseiras de improvisação japonesas, pois o ambiente em que surgem é falacioso. Encontrar por aqui uma performance verdadeiramente esotérica é uma raridade no meio de tantas possibilidades de escolha. As pessoas acabam por ir para casa cedo jogar ou ver TV, porque a maior parte dos espectáculos é um desperdício de tempo.

Sonho com o dia em que possa haver uma programação de concertos de improvisação diários em Tóquio, mas as condições presentes dos músicos e as características da maioria do público limitam-nos imenso. O grande público é mais atraído por espectáculos em que possam ver fogo a sair de um piano ou de um violino, por exemplo. Por isso eu acho que há pouca razão para continuar a tocar no Japão e, inevitavelmente, meto-me a caminho da Europa. 

Terra rica em simplicidade

 

Disseste-me há umas semanas que apreciaste imenso os dias calmamente passados em Atouguia da Baleia e que se pudesses mudavas para cá. Viver em Tóquio é assim tão traumatizante?

Como sabes, houve um grande terramoto em 11 de Março de 2011 com graves consequências na central nuclear de Fukushima. A explosão espalhou por toda a parte um enorme nível de radioactividade, o que forçou imensas pessoas (incluindo músicos, obviamente) a mudarem de localização. No entanto, apenas foi facilitada a deslocação de famílias com jovens ou gente com conhecimentos e dinheiro. O que significa que inúmeras pessoas ainda absorvem grandes quantidades de radioactividade. O governo japonês continua a afiançar que «está tudo bem», mas sabe-se que as pessoas continuam numa situação perigosa.

O ambiente continua a ser nocivo hoje, dois anos após o acidente. Desde então nada melhorou, tal como para as pessoas em todo mundo, até mesmo nas regiões com menos poluição do que no Japão. Mesmo essas acho que se sentem bastante inseguras. Dá uma espreitadela no mapa e podes compreender a visão terrível do espectro da radioactividade e do nada que se pode fazer sobre isso. Assim, pensar nas crianças que ainda têm tanto para viver e pensar no que lhes pode acontecer é assustador. Por isso Atouguia da Baleia é um paraíso para mim. É uma terra rica em simplicidade, longe da radioactividade e das guerras económicas. E lá eu posso tocar!

 

Como é que a música surgiu na tua vida? Que diferentes fases se podem identificar na tua carreira musical?

Comecei a aprender piano aos 6 anos de idade com a minha mãe. Tendo sido forçado a isso, pois não tinha qualquer intenção nem gosto em aprender música, o meu dia-a-dia era bastante desagradável. Para fugir à situação, aos 11 anos mudei para a guitarra e a minha vida mudou completamente. Divertia-me imenso praticando diariamente e cantando. A minha mochila andava sempre carregada de manuais de guitarra e “songbooks”, a que eu dava sempre muito mais atenção do que aos livros escolares. Era um início de vida – no fundo o mesmo que sinto agora.

Comecei a tocar contrabaixo aos 14 anos na banda da escola secundária e até aos 17 fui experimentando igualmente o trombone e o clarinete numa espécie de filarmónica. Paralelamente, desde os 12 anos, tinha actividades regulares com a minha própria banda, que tocava “covers” e música folclórica japonesa.

Como qualquer jovem da época, interessei-me pelo rock progressivo (que ainda me apaixona hoje) e comecei também a tocar baixo eléctrico a partir dos 16 anos de idade, imitando bandas como Deep Purple, King Crimson, Yes e Emerson, Lake & Palmer – estudava minuciosamente todas as linhas de baixo daqueles tipos.

Foi nessa altura que me cruzei com o jazz, pois queria incorporar na minha maneira de tocar os elementos do jazz enquanto técnica sistemática e porque acreditava que essa era a verdadeira estética da música psicadélica. Rapidamente me fui apercebendo que estava a cometer um grande erro, pois o que era mesmo importante era ouvir e aprender ouvindo - esta é uma verdade que permanece até hoje.

Mais tarde, e como não era possível obter um contrabaixo próprio na faculdade, matriculei-me numa classe de orquestra clássica. Tinha, porém, ficado completamente obcecado pela improvisação do jazz e comecei a trabalhar num pequeno clube de jazz de bairro para poder praticar no contrabaixo de lá, nas horas vagas. Decidi então deixar a universidade e começar a trabalhar a sério para poder comprar os meus instrumentos.

Tive depois aulas com Motoharu Yoshizawa, que é o contrabaixista pioneiro da música improvisada no Japão. Com ele fui-me familiarizando com as sonoridades de Derek Bailey, Steve Lacy e Barre Phillips, o que me permitiu interiorizar melhor a natureza desta música. 

O eu interior 

Como consegues conjugar a tua actividade profissional fora da música com a tua carreira de improvisador?

Seria mais fácil se tocasse música convencional, escrita, etc. Mas para tocar improvisação livre torna-se mais difícil, devido à absoluta necessidade de adquirir primeiro toda uma apreensão do universo “free” e ter muito tempo para praticar. Além disso, é preciso saber gerir muito bem a actividade profissional para conseguir manter um orçamento pessoal que nos proporcione essa coisa chamada liberdade. Preciso de economizar dinheiro para viver porque nunca tento obter dinheiro na música improvisada por si só. É como se estivesse a utilizar os restos mortais do gado doente para alimentar o gado sobrevivente.

 

Sentes que existe hoje em dia uma crise de criatividade, como alguns apontam aos improvisadores actuais?

Deixaria simplesmente de tocar se alguma vez sentisse que a música improvisada tinha deixado de ser criativa. Com todo o respeito pelos músicos de rock ou da clássica, nunca me conseguiria sentir satisfeito trabalhando apenas sobre esses tipos de música mais fechada. Para continuar a tocar é necessário que eu consiga expressar o que vive no meu interior. Faço isso diariamente e estou sempre ansioso para que o dia de trabalho termine e eu possa ir para casa tocar. Espero poder continuar a fazer isto até a morte.

 

O que é que costumas ouvir actualmente?

Preciso de praticar o instrumento todos os dias. Chego a tocar durante oito horas ou mais nos dias livres. Ando à volta das suites de Bach para violoncelo solo e é só isso que tenho ouvido recentemente. Temos imensos CDs em casa, mas raramente os ouço hoje em dia.

 

A tua postura enquanto artista inclui alguma forma de crítica social ou é apenas uma ocupação de que gostas?

Como músico, nunca posso apenas tocar por tocar. As minhas actividades musicais têm sempre alguma mensagem específica.

 

A tua face mais visível enquanto músico é a do “performer”. Porque é que nunca te preocupaste muito em editar os teus trabalhos?

A minha música continua a mudar numa base diária. Por exemplo, vou tocar hoje à noite, mas o que me irá preocupar sobretudo é a tentativa de encontrar algo de novo. Pode parecer que não sei o que estou a fazer, mas poderia perfeitamente ficar apenas a tocar, a sentir durante horas. Não há dúvida de que é algo que te faz conhecer mais profundamente o teu eu e é isso que me dá vontade de continuar. Pode surgir um elogio da plateia, que em si é bom e me alegra, obviamente, mas não a um nível relevante para a própria improvisação. A consideração do público é importante, mas não nos permite ganhar a vida improvisando apenas. Sendo assim, o importante é tocares para ti e sentires o verdadeiro significado do momento, que não interessa muito eternizar.

Gostaria de não dizer isto, mas há muita gente que grava apenas para poder ouvir depois o seu próprio desempenho. Claro que também fico feliz com as minhas gravações, mas são sempre coisas do passado e eu estou sempre muito mais interessado no hoje e no amanhã. A energia é menor, se olhares para o passado.

 

Além do teu contrabaixo, tens utilizado instrumentos adaptados que baptizas de contraviola, contracelo, etc. Como é que surgem essas inovações?

Um dos instrumentos que mais utilizo e adoro é o meu contrabaixo, que tenho há mais de 20 anos. É um instrumento muito grande, de tamanho 7/8. Mas sempre tive vontade de experimentar um contrabaixo mais pequeno, pois gosto imenso de ouvir as gravações de Ron Carter em que usava um piccolo. Além de que um contrabaixo grande não é adequado para tocar certas coisas, como Bach por exemplo. Mas eu estava bastante agarrado ao contrabaixo e não me queria converter em violoncelista.

Então, um dia resolvi experimentar diferentes afinações no contrabaixo. Basicamente, mudei-lhe a afinação normal em quartas para uma afinação em quintas, como no violoncelo. Foi muito difícil adaptar-me no início, mas aos poucos fui conseguindo, pois a música de Bach para violoncelo constitui um excelente desafio e incentivo. Foi necessário reaprender uma série de coisas e re-sintonizar toda a dedilhação que tinha vindo a praticar. Foi quase como abandonar tudo o que sabia fazer. Assim, o contracelo não é mais do que o meu contrabaixo pequeno com uma afinação de violoncelo. Ou seja, posso dizer que mudei a configuração do violoncelo.

Existe uma regra comum em todo o mundo para configurar o violoncelo, mas não há para contrabaixo. Como sabes, a forma é semelhante, mas é um instrumento musical que é fundamentalmente diferente a todos os outros níveis.

A contraviola é uma aquisição recente. Há uns meses fui convidado para ir tocar a Itália e a companhia de aviação Alitalia recusou-se a aceitar como bagagem um instrumento de comprimento superior a um metro. Por coincidência, uns dias antes tinha comprado um violoncelo piccolo barato, no qual estava a proceder a algumas alterações – entre outras coisas descasquei-lhe o verniz do tampo e ajustei-lhe o cavalete. Foi com esse instrumento que pude viajar para Itália. O nome contraviola é simplesmente uma piada. 

As formas da improvisação portuguesa

 

É frequente encontrar-te em itinerância pela Europa. O que é que te atrai por cá?

Acho que já te respondi a isso numa das perguntas anteriores, mas posso reforçar dizendo que me sinto muitas vezes como um "refugiado do Japão". Comecei a ir tocar mais vezes à Europa imediatamente após o acidente nuclear. Acho que estou à procura de um novo lugar para viver, afastado da radioactividade que está espalhada no Japão.

 

Nos últimos tempos estiveste por três vezes em Portugal. Fala-nos das tuas impressões sobre a experiência de tocar com músicos culturalmente tão diferentes, como os que aqui encontras.

Acho que a cena de improvisação portuguesa é muito original. Sinto uma atracção por Portugal que não consigo sentir por outros países. Não percebo porquê, ainda não é claro para mim o que se passa em relação a isso. Por exemplo, o facto de se comer muito antes de um concerto e beber muito álcool e depois conseguir tocar de forma satisfatória foi algo que nunca tinha experimentado nem sequer visto noutros países. Tive um certo sentimento de resistência relativamente a essa questão nas primeiras duas vezes em que estive em Portugal, mas na terceira vez isso tornou-se-me tão familiar que resolvi tentar a mesma coisa de forma agressiva. Posso mesmo ter encontrado vagamente as verdadeiras finalidades e formas de improvisação neste país.

É como se essa postura funcionasse como um lubrificante entre o ouvinte e o músico, ou entre os músicos uns com os outros. As performances que são realizadas e a maneira original como se toca em Portugal são coisas extremamente atraentes.

 

O que podemos esperar de ti como músico no futuro próximo? Em que projectos estás a trabalhar e o que tens em mente?

Quero continuar a ser um músico em permanente mudança e gostaria de continuar a ter contactos pessoais com outros músicos e com as suas formas de tocar, independentemente das técnicas que utilizem. Ainda para este ano estou a planear uma nova digressão por Itália, Áustria e Suíça com o percussionista Marcello Magliocchi. Acho também que irei tocar a solo em Berlim e em outras cidades europeias. Pretendo tocar na Europa pelo menos quatro vezes por ano. Espero ter sorte para conseguir alcançar esse objectivo.

 

Para saber mais

http://maresuke.air-nifty.com/

http://www.deepwhitesound.com/maresuke-okamoto/