Baldo Martínez, 24 de Junho de 2013

Projecto em construção

texto Rui Eduardo Paes

O contrabaixista e compositor Baldo Martínez vai apresentar no Imaxina Sons, a 29 de Junho (concerto no Auditório da Câmara Municipal de Vigo), um novo grupo que vem criando as maiores expectativas: o Cuarteto Europa. É a mais recente aposta no seu esforço de tocar um jazz europeu, na linha do que já fez – e faz – com figuras como Carlo Actis Dato e Agustí Fernández, em que estejam representadas as contribuições regionais dos elementos em presença, no seu caso as galegas. Com ele estarão o violinista francês Dominique Pifarely, o trombonista suíço Samuel Blaser e um companheiro de muitas aventuras, o baterista espanhol, mas parte da cena de França, Ramón López.

Em conversa com a jazz.pt, Baldo fala de outros investimentos musicais seus do passado e do presente, como o Triez, o duo Sons-Nús e o Projecto Miño, que teve gestação portuguesa e, muito particularmente, explica porque é que o «fenómeno Imaxina Sons» tem sido tão importante…

 

Depois de um investimento como o do Projecto Miño, que integrava elementos do folclore galego (e, inevitavelmente, também do Minho português), o Cuarteto Europa parece ir em busca de uma sonoridade europeia e diria até que europeísta. Mesmo que haja resquícios de expressões particulares, sabendo que Dominique Pifarely é um herdeiro da linhagem grapelliana do violino cigano de jazz e que Ramón López utiliza as tablas indianas... Porquê esta mudança de foco e atitude?

É certo que o Projecto Miño tem o folclore como motor da música, mas nos meus grupos o folclore é um elemento mais, muito importante para mim, mas apenas um elemento mais. Nesse quinteto que mantive durante 15 anos há influências de vário tipo, mas também um elemento comum: prestar uma especial atenção ao que sucede no nosso continente. O propósito fundamental do Cuarteto Europa é trabalhar com músicos que estão plenamente envolvidos com o jazz contemporâneo europeu, que tenho como modelo, e aprender com eles a desenvolver uma maneira de fazer música com a qual creio estarmos de acordo.

 

Alguns motivos específicos para a escolha de Pifarely e Samuel Blaser para este quarteto? Não pergunto pelo Ramón López porque ele está incluído em muitos dos teus grupos...

O primeiro objectivo, como disse, foi escolher músicos que estivessem dentro desse âmbito musical que tanto me atrai, e paralelamente procurar uma sonoridade que resultasse atractiva e sugestiva. Tinha definido qual deveria ser a instrumentação e era uma questão de escolher as pessoas. O violino é um instrumento que me agrada muito e Pifarely é um dos violinistas que mais me interessam pela sua música e pela maneira de tocar. Antes já tínhamos tentado uma colaboração, mas não foi possível. É este o momento certo.

Com Ramón trabalho em projectos distintos e parece-me ideal para este, devido à sua versatilidade, à magia que projecta e porque nos conhecemos bem. Quanto a Blaser… Queria um trombone e o Ramón recomendou-me o seu nome. Ouvi-o mais atentamente e cheguei à conclusão que era dele que estava à procura. Além disso, todos os três são grandes improvisadores e esse é outro elemento fundamental deste projecto.

 

Tens um outro projecto europeu, o duo com o italiano Carlo Actis Dato, mas neste julgo que se mantém a ligação às raízes, da tua parte as galegas, da de Dato as transalpinas. É assim? Ou será que o cruzamento de referências regionais é já uma condição pan-europeia? A dupla com Carlo Actis Dato, que lançou um disco intitulado “Folklore Imaginario”, está no caminho que vai do Projecto Miño ao Cuarteto Europa?

Há um pouco de tudo. A experiência com o Carlo é muito particular, primeiro devido à formação em duo e depois porque tem coordenadas que o colocam dentro da corrente do jazz italiano mais próxima de um free construído a partir do folclore, a mesma em que estão a Italian Instabile Orchestra ou Pino Minafra. O Cuarteto Europa segue uma linha mais aberta, mais próxima talvez da livre-improvisação, mas também do jazz contemporâneo. É o que está por verificar e por isso é que escolhi músicos dessas duas estéticas. Essa combinação e a interpretação que eles fazem da música darão uma personalidade a este quarteto. É algo que está em construção. Sim, há elementos folclóricos, até porque estes constituem uma parte importante das minhas fontes, e os meus companheiros de viagem também o fazem com distintos enfoques. 

Uma forma de fazer 

Curiosamente, o teu trio espanhol com Agustí Fernández e Ramón López, Triez, é, digamos, mais universalista. As vossas proveniências geográficas e culturais poderiam ser outras, certo? Universalista, mas não adequada ao padrão do trio de piano jazz, não é?

Certo, mas isso creio que se deve ao facto de os propósitos do Triez, desde o início, serem totalmente abertos. As componentes da nossa música são as nossas próprias vivências musicais, como diz o Agustí. A mochila que cada um transporta consigo, onde armazenamos tudo o que vamos recolhendo das nossas experiências. Estas são muitas e somam-se as dos três elementos.

 

Entre os teus projectos está o Sons-Nús, com a cantora Maite Dono. É um regresso a casa, beneficiando das qualidades primárias, ancestrais, da voz?

O projecto Sons-Nús surgiu primeiro da vontade de lidar apenas com uma voz e um contrabaixo. A decisão de o fazer com Maite Dono deveu-se, em grande parte, a esse aspecto mais ancestral da sua voz, e à sua forma de se expressar com ela. É algo de primitivo, rompendo com aqueles padrões rígidos que muitas vezes nos servem de referência, mas nos limitam na altura de criar.

 

No meio destas questões, como entendes a identidade do jazz, música com berço americano? Já não é um idioma musical americano, ou como dizia Duke Ellington, “música clássica norte-americana”? E tendo-se globalizado, o que o faz ainda ser jazz, na tua opinião?

Concebo o jazz não como um estilo, mas como uma forma de fazer música, ideia que compartilho com muitos outros músicos. O jazz tem uma história muito curta e em pouco mais de um século evoluiu como creio que não sucedeu com outras correntes musicais. O jazz surgiu da fusão de duas culturas, a europeia e a folclórica do Oeste de África, a partir daí buscando outras fontes – no Brasil, na música latina, em diversos folclores, na música contemporânea europeia. E é com esta característica fundamental que continua a crescer. Houve uma época em que pôde, de facto, ser uma “música clássica americana”, como disse o Ellington, mas depois foi beber em diversas fontes e isso deu-lhe uma grande riqueza e muita liberdade.

Ora, a liberdade é um elemento essencial da filosofia desta música. O jazz surgiu como um canto de liberdade e é assim que deve continuar a ser, num processo de revolução permanente que lhe permita nunca estagnar.

  

Sendo tu um músico do jazz dito de vanguarda, com incursões pela música livremente improvisada, manténs ainda assim um claro vínculo com a tradição e algumas coisas que fizeste cabem pacificamente, ou quase, no domínio do “mainstream”. É uma dupla condição pessoal? Explica-me a natureza desta...

Tens muita razão e isso explica-se. O meu interesse musical está mais em procurar coisas novas que me chamem a atenção e mantenham o meu interesse, mas é um facto que já estive próximo da forma de fazer música conhecida por “mainstream”. Foi por aí que entrei no jazz, mas tenho-me afastado em busca de outras coisas, como julgo que a maior parte da música que toco vai revelando.

Faço notar, de qualquer modo, que há condicionantes ambientais decorrentes de ter decidido ficar a viver em Espanha. Pelo menos no que tem a ver com o jazz, Espanha é muito conservadora e isso limita-nos bastante. É claro que poderia ter optado por viver noutro sítio, mas fiz questão em reivindicar o direito de criar música no meu próprio país. Talvez o Cuarteto Europa seja uma maneira de me desembaraçar dessa carga… 

Acontecimento do ano

 

Que retrato fazes do jazz galego na actualidade, e tendo tu já sido director artístico do Imaxina Sons, onde apresentarás o Cuarteto Europa, que contributo pensas que este festival tem para o desenvolvimento de cena local do jazz?

A explosão do jazz galego coincidiu com o início deste festival e há diversos factores que contribuíram, e estão a contribuir, para o seu desenvolvimento e crescimento: por um lado, escolas como o Estudio de Santiago, a pioneira, a Municipal da Coruña, o Seminário Permanente de Pontevedra, o curso superior de jazz no Conservatório da Coruña; por outro, o Imaxina Sons, dado que dá guarida, numa ampla percentagem, a formações galegas e porque mostra a cara do nosso jazz, possibilitando que os músicos galegos conheçam outras tendências do jazz actual e permitindo uma maior conexão com Portugal e com músicos do resto da Europa. Ainda há muito a fazer, mas o caminho já foi aberto…

 

O Projecto Miño nasceu em Portugal, no Guimarães Jazz. Que conhecimento tens da realidade jazzística portuguesa e que ligações manténs com a mesma, se é que estas, de facto, continuam?

Tento estar ao corrente do que acontece em Portugal e sempre vi o teu país como uma referência, já que está vários passos adiante de Espanha no que diz respeito a ter uma mente aberta na altura de criar coisas novas. Músicos como Maria João, com quem trabalhei, e Mário Laginha são para mim um exemplo, e quanto a contrabaixistas, que escola! Zé Eduardo, Carlos Barretto, Carlos Bica e agora também o jovem Hugo Carvalhais, que descobri numa edição do Festival jazz.pt em Lisboa. Curiosamente, nos nossos últimos projectos partilhamos o mesmo músico, Dominique Pifarely, o que só descobri depois de estar formado o Cuarteto Europa. Deveria estar mais em contacto com a cena portuguesa e espero que no futuro isso aconteça.

 

Vives há uns anos em Madrid. Achas que algo como o Imaxina Sons poderia acontecer na capital espanhola? O que tem a cena galega de comum e de diferente com a da restante Espanha?

O Imaxina Sons é um caso muito particular e à parte do que sucede ou sucedia na Galiza há uns anos. Creio que o segredo, se se pode chamar assim, deste festival está no facto de, num determinado momento, uma série de pessoas do âmbito da cultura, começando por uma instituição como o município de Vigo, ter decidido ocupar um espaço totalmente vazio não só na Galiza como em grande parte de Espanha com um jazz de denominação de origem europeia e contemporânea, algo que ajudou a abrir os ouvidos e a perceber que há algo mais do que o “mainstream”.

O fenómeno Imaxina Sons contribui para que a cena galega cresça mais e, sobretudo, em múltiplas direcções, sem complexos nem padrões muito rígidos, comprovando que se pode fazer música de muitas maneiras. Numa cidade como Madrid poderia acontecer algo como o Imaxina Sons, dado que há muita gente sensível às estéticas expostas pelo festival, mas o problema seria aglutinar todas essas pessoas. Além de que em Vigo o Imaxina Sons é o acontecimento jazzístico do ano e em Madrid seria apenas um mais, muito interessante sem dúvida, mas não provocando tantas expectativas. Seria, no entanto, uma boa ideia e alguém deveria avançar com isso.

 

Para saber mais

http://baldomartinez.weebly.com/

 

Discografia seleccionada

Antonio Bravo / Baldo Martínez / Lucía Martínez: “MBM Trío” (Xingra, 2011)

Agustí Fernández / Baldo Martínez / Ramón López: “Triez” (Emercy, 2010)

Maite Dono / Baldo Martínez: “Sons-Nús” (Karonte Records, 2010)

Baldo Martínez: “Projecto Miño” (Karonte Records, 2008)

Carlo Actis Dato / Baldo Martínez: “Folklore Imaginario” (Leo Records, 2005)

Baldo Martínez Grupo: “Tusitala” (Karonte Records, 2005)