Nicolas Masson, 8 de Julho de 2013

Bobinas paralelas

texto Nuno Catarino

Palhetista de múltiplos recursos , o suíço Nicolas Masson já gravou pela portuguesa Clean Feed. Este ano lançou o disco de estreia do seu trio Third Reel, grupo que reúne Roberto Pianca (guitarra) e Emanuele Maniscalco (bateria), na prestigiada ECM de Manfred Eicher. Este será, a 9, um dos destaques do programa do festival Jazz Im Goethe-Garten, a decorrer até 18 de Julho em Lisboa. O saxofonista e clarinetista aproveitará a passagem pela capital portuguesa para uma conversa na Trem Azul, integrada no ciclo ECM Perspectives. Em vésperas de passar por Portugal, Nicolas Masson apresenta-se à jazz.pt.

 

Como começou a tocar saxofone e clarinete?

Comecei por volta dos 14 anos… Até então tinha tocado guitarra e descobri o saxofone através de uma banda ska-punk, os Fishbone. Pouco depois o destino levou-me a descobrir o jazz. Aprendi a tocar clarinete pela mesma altura. Comecei com o clarinete baixo e depois mudei para o soprano quando descobri as peças de Karlheinz Stockhausen para clarinete solo e a obra “Quatuor pour la fin du temps” de Olivier Messiaen. Chris Speed foi também uma influência decisiva no meu desejo de tocar clarinete. Também era um grande fã da banda Bloodcount de Tim Berne, do final dos anos 1990.

 

Li que mergulhou na improvisação após ter-se encontrado com Cecil Taylor em Nova Iorque. Como é que isso aconteceu?

Quando cheguei a Nova Iorque tinha 19 anos e acabara de fazer uma viagem de seis meses pela Ásia. Conheci Cecil Taylor na minha segunda noite em Nova Iorque, num clube onde a “big band” de David Murray tinha actuado. Ele estava lá com as suas botas de “cowboy” e perguntou-me que instrumento é que eu tocava. A princípio não o reconheci, e até foi melhor assim! Ao longo da conversa foram-se juntando outras pessoas e depois é que percebi quem ele era. Infelizmente, nunca cheguei a tocar com ele, mas foi através dele que conheci J.R. Mitchell e depois Frank Lowe, Fred Hopkins e Makanda [Ken] McIntyre. Ter conhecido, convivido e tocado com esses músicos levou-me a conhecer o lado mais aberto do jazz e da música improvisada.

 

Estudou saxofone, precisamente, com essas duas lendas da cena free jazz da década de 70, Frank Lowe e Makanda Ken McIntyre. O que recolheu dos seus ensinamentos?

Com eles aprendi muita coisa em muitos níveis diferentes. Eu era muito jovem quando cheguei a Nova Iorque e eles foram ambos muito generosos e partilharam tudo comigo. Não fazia ideia do que significava ser um músico profissional, ser um improvisador, ser parte de uma minoria. Eles foram dois grandes exemplos de integridade, dedicação, resistência e resiliência. A nível instrumental, o Makanda pôs-me a trabalhar, sobretudo, as técnicas de respiração, embocadura e som em geral. Já o Frank pôs-me a praticar solos de Don Byas e de Dexter Gordon! Isso deu-me outra perspectiva sobre a música “criativa”. Apesar de poder tocar muito “fora”, o Frank estava enraizado na tradição. E havia muita coisa para aprender por aí…

Wayne Shorter, sempre 

Para além destes professores, quem foram as suas maiores influências no saxofone?

Dewey Redman, Wayne Shorter, Lester Young, Rich Perry (com quem estudei durante um ano), Lee Konitz, Chris Cheek, Tony Malaby, Chris Speed, Mark Turner, Joe Lovano, Oskar Gudjonsson... Todos! E também fui sendo influenciado por outros instrumentistas, para além de saxofonistas.

 

Hoje em dia que música ouve em casa? Que discos tem ouvido recentemente?

Tenho ouvido muito o “Chants”,  do trio de Craig Taborn. A interacção deste grupo é fenomenal. E outras coisas muito diferentes: Morton Feldman, o contratenor barroco Andreas Scholl e Wayne Shorter, sempre.

 

Qual é o seu disco favorito de sempre?

Penso que não haja um disco que possa dizer que seja o meu favorito. Mas um top 3 provavelmente incluiria “Crescent” de John Coltrane, “The Freewheelin' Bob Dylan” e qualquer disco do segundo quinteto de Miles Davis. 

 

Já tocou com Ben Monder, Gerald Cleaver, Kenny Wheeler, Kris Davis, Eivind Opsvik, Russ Lossing, Colin Vallon e Tom Arthurs, entre outros. Destes quem foram os músicos que mais contribuíram para a sua evolução musical?

Todos continuam a ser muito importantes para mim. Todos me trouxeram algo diferente, mas igualmente valioso. Algumas pessoas atravessam-se no nosso caminho num determinado ponto e acabam por ter uma influência mais duradoura. Gerald Cleaver, Colin Vallon e Ben Monder foram influências muito importantes em momentos diferentes da minha jornada musical.

 

Quais são as principais ideias que norteiam o grupo Third Reel?

Espaço, liberdade, texturas sonoras, lirismo… É uma banda na qual investimos muita liberdade com um certo controlo de formas improvisadas, contraste e produção sonora. Tentamos fugir de conceitos musicais pré-estabelecidos, de modo a tentarmos encontrar o nosso próprio som. É por esse motivo que nos poderão ouvir a usar abordagens diferentes para cada canção… Tentamos não nos restringir a um único estilo ou a uma forma de tocar, mas estamos a esforçar-nos para encontrar unidade na nossa identidade musical.

 

Como chegou ao contacto com Roberto Pianca e Emanuele Maniscalco?

Conheci o Roberto através de uma rede social, o que nos levou primeiro a tocar juntos e depois a decidirmos formar uma banda. Após termos tocado com vários bateristas, estivemos num concerto com o Emanuele, que o Roberto já conhecia de outra banda. Sentimos logo que era o baterista perfeito para o projecto e essa primeira impressão nunca mais se alterou! 

Cada banda uma aventura

 

Para além deste grupo, lidera outros dois projectos: Parallels e Nicolas Masson Quartet. Quais são as maiores diferenças entre eles?

Desde logo, haver uma instrumentação diferente e músicos diferentes faz com que a música seja necessariamente diferente. Houve uma altura em que estava à procura de conceitos para cada um dos grupos, mas à medida que vou ficando mais velho penso que me aproximo de uma filosofia geral para cada um deles. Numa banda poderei salientar um ou outro aspecto, mas à medida que ganho confiança em mim mesmo e na minha personalidade musical julgo que fico também mais coerente. Cada banda é uma aventura diferente e sinto-me simplesmente a mesma pessoa a viver diferentes aventuras!

 

O disco do trio Third Reel foi editado através da ECM. Este foi um passo importante para chegar a mais pessoas?

É ainda muito cedo para analisar exactamente qual o impacto de ter editado o disco através de uma editora tão importante como é a ECM, mas, tendo em conta as críticas que já recebemos, a resposta é afirmativa. Para mim o mais importante foi a oportunidade de trabalhar com Manfred Eicher em condições excepcionais. Gravar e fazer as misturas com ele foi uma experiência que nunca esquecerei! Inspirou-me para continuar a elevar os padrões e para esforçar-me sempre pela melhor qualidade a todos os níveis, desde pensar a música, actuar e gravar até ao aspecto visual do produto acabado.

 

No dia 8 de Julho vai participar numa conversa na Trem Azul, no âmbito do ciclo ECM Perspectives. Sente-se confortável a fazer este tipo de acções, a falar sobre a sua música?

Antes ficava desconfortável ao fazer esse tipo de coisas, mas já me habituei e até gosto! Desde que as pessoas não me perguntem os significados dos títulos das músicas!...

 

O que poderemos esperar do concerto do Third Reel no Jazz Im Goethe-Garten?

Vamos tocar material do nosso álbum e também algumas coisas novas. Raramente tocamos ao ar livre, por isso esta será uma experiência muito interessante! Lembro-me, da última vez que toquei no Goethe Garten, que havia pássaros a cantar. Veremos como vamos interagir com eles!

 

Para saber mais

http://www.nicolasmasson.com/

 

Discografia seleccionada

Third Reel: “Third Reel” (ECM, 2013)

Nicolas Masson: “Departures” (Fresh Sound/New Talent, 2011)

Nicolas Masson Parallels: “Thirty Six Ghosts” (Clean Feed, 2009)

Nicolas Masson Quartet: “Yellow (A Little Orange)” (Fresh Sound/New Talent, 2006)

Nicolas Masson Quartet: “Awake” (Altri Suoni, 2002)