Rob Mazurek, 31 de Julho de 2013

Como um jaguar no telhado

texto Nuno Catarino

É no próximo dia 11 de Agosto que Rob Mazurek se apresenta no Jazz em Agosto, cabendo-lhe a responsabilidade de fechar o festival. Se em anterior participação trouxe consigo até Lisboa uma figura histórica do jazz, Bill Dixon, tem agora outro convidado bem especial: Pharoah Sanders, companheiro de John Coltrane e Alice Coltrane em muitas viagens sónico-espirituais e ele próprio um líder de mérito próprio no continuado esforço de juntar as raízes africanas ao alcance cósmico dessa música a que chamam jazz.

Aqui se explica o cornetista que voltou à sua Chicago depois de viver vários anos no Brasil, com um registo discursivo que denota bem a influência que nele teve o representante de Saturno na Terra, Sun Ra… Se ainda não sabiam de quem se trata, aqui estão o homem e a sua mensagem.

 

Está no centro da activa cena musical de Chicago desde a década de 1990, tendo colaborado com Tortoise, Isotope 217, Sam Prekop, Gastr del Sol, entre outros. Quais são suas melhores lembranças desses tempos?

As melhores lembranças são os momentos musicais, que saltam como um jaguar do telhado, da sua boca para a expansão do universo. Esses momentos especiais voam como os pássaros a partir do topo da cabeça, fazendo o seu caminho pelas fendas das mentes humanas e das almas.

Isso sempre aconteceu e continuará a acontecer, como aquela vez que eu toquei um solo no armário de Jim O'Rourke para a gravação do disco “Camoufleur” dos Gastr Del Sol, quando toquei com o Chicago Undergound em Verona (Itália) pela primeira vez ou quando fiz uma introdução de solo de corneta para os Tortoise em Inglaterra ou acompanhei os Sonic Youth na cave da ópera de Frankfurt, lançando espirais de som num ritmo acelerado.

 

O que ganhou com essas colaborações, o que incorporou na sua música?

O conhecimento advém da experiência e não apenas da informação. Vivemos numa época em que se pode encontrar todas as informações que quisermos, mas é a experiência de fazer as coisas que mais interessa. As colaborações que tenho sido capaz de fazer ao longo dos últimos anos têm tido um valor inestimável para a ideia de imersão e para a realidade de fazer a coisa.

Quer se trate de encontrar o som perfeito com Bill Dixon, trabalhar ao lado de Fred Anderson ou desenvolver ideias sonoras urbanas com arquitectos em Paris, criar pinturas gigantes e vídeo, tocar ao lado de Roscoe Mitchell, criar estruturas para canções com Marcelo Camelo no Rio, experienciar a música de Pharaoh Sanders, Yusef Lateef e do grande guitarrista/artista noise Carlos Issa em São Paulo, são essas colaborações que constroem a nossa experiência e permitem que esta leve os seus próprios pensamentos e acções para um domínio ainda maior. A incorporação de Som/Arquitectura/Visão/Texto tem desempenhado um papel importante na minha evolução como projector de som/visão.

 

O que o levou para o jazz? E porque escolheu a corneta como instrumento principal?

Ouvi pela primeira vez Miles Davis numa idade muito precoce, com o álbum “Bitches Brew”. Pouco depois comecei a comprar discos do Art Ensemble of Chicago e de Sun Ra e mais tarde da Blue Note, da Riverside, da Prestige e da Impulse. Quando ouvi Sun Ra pela primeira vez, em 1982, percebi que era isto o que eu queria fazer... E para além de ser um músico de jazz, a ideia de teatro/dança/ópera veio à minha mente a partir do grande mago do tempo e do espaço...

Mudei-me para Chicago logo após terminar a escola para seguir essa ideia de me tornar um amplificador abrangente de ideias únicas. Billy Brimfield, Kenny Prince, Jodie Christian, Lyn Halliday, Earma Thompson e Bill Dixon foram os meus mentores. Adoro o sentimento da minha corneta.

Imersão completa

 

Além da música, é também é um artista visual. Quais são os objetivos de seu trabalho neste campo?

Projectar uma sensação de imersão completa nas construções de uma realidade fixa (física) e de uma realidade não-fixa (metafísica), a fim de quebrar o tecto galaxial do que é possível e impossível, para uma entidade viva, experienciar no campo de visualização sonora. Sempre baseando-me na evolução das minhas próprias construções, ligadas à questão de saber por que razão estamos ainda aqui. Cor, forma, camadas, expansão, o movimento linear, o movimento não-linear e estas formando arquitecturas que se possam ouvir e sentir.

 

Mudou-se para São Paulo no ano de 2000. Estabeleceu contactos fortes com a música brasileira? Quais são os seus músicos brasileiros favoritos?

Fiquei bêbado com a música forró em Manaus, o som do Nordeste em Recife, o som do céu em Brasília e a agitação urbana de São Paulo e do samba que está em toda parte. MTakara3, Thomas Roher, Bodes e Elefantes, Marcelo Camelo, Malu, Kassim, Objeto Amarelo, Jorge de Peixe, Guilherme Vaz, Vanessa da Matta, Nana Vasconcelos, Rodrigo Brandão, etc.: são todos músicos superemocionantes.

 

Depois de se ter mudado para o Brasil, começou a tocar com músicos locais, sob a designação São Paulo Underground. Esta é uma experiência muito diferente do Chicago Undergound?

A sensação e a experiência de um músico em São Paulo e de um músico nos Estados Unidos ou em qualquer lugar serão sempre diferentes. O São Paulo Underground foi, naturalmente, concebido a partir da ideia do Chicago Underground, mas tem a sua própria personalidade por causa da diversidade dos membros envolvidos. Estranhamente, o Mauricio [Takara] e o Guilherme [Granado] já conheciam a música do Chicago Underground antes de eu os conhecer e isso aumentou a delícia da situação. Trata-se de dois grupos de indivíduos que se esforçam em prol de um objectivo similar, que é o de explodir a mente para deixar o sol brilhar.

 

Uma das últimas gravações do São Paulo Underground tem por título "Três Cabeças Loucuras". Pode a loucura ser uma parte do processo criativo?

A loucura é um elemento-chave em todas as nossas músicas. É preciso ser completamente louco para fazer o que estamos fazendo e isso é, naturalmente, uma parte do processo criativo. É como Ol 'Dirty Bastard brincando na floresta com o Feiticeiro de Oz enquanto ouve o “Interstellar Space” do Coltrane.

 

O Chicago Underground continua activo e publicou, como duo, um novo álbum, “Age of Energy”, no ano passado. Este é um projecto para continuar, mesmo não estando a viver em Chicago?

Tenho vivido em Chicago nos últimos três anos, é a minha casa novamente. O Chicago Underground Duo acabou de gravar um novo álbum e será lançado na Primavera de 2014, pela Northern Spy. Eu e Chad Taylor planeamos continuar a criar por muito tempo.

O céu abre-se

 

Já tocou no Jazz em Agosto com Chicago Underground Quartet (2002), Mandarin Movie (2006) e Exploding Star Orchestra com Bill Dixon (2009). Que recordações guarda desses concertos?

O céu abre-se quando se sobe ao palco no Jazz em Agosto. Lembro-me de excelentes momentos ao ar livre e dos sons da cidade e do céu com a sua lua e de um avião solitário sobre a cabeça no momento mais silencioso e do trompete de Bill Dixon enchendo o ar da noite com a sua beleza sonora. Lembro-me de passear pelos jardins da Gulbenkian durante o dia e ver toda a gente a ler livros e a desfrutar da companhia uns dos outros.

O Jazz em Agosto é um tesouro de grande importância como canal para a projecção de sentimentos mais puros dos artistas e para amar e aceitar a multidão que gosta de ser sacudida com as realidades e irrealidades das projecções vivas dos amplificadores criativos humanos.

 

Além dos concertos oficiais, a última vez que esteve em Lisboa também tocou na loja de jazz Trem Azul, numa sessão de improvisação informal. Está a par da cena jazz portuguesa, dos músicos, das editoras?

A loja de discos Trem Azul e a Clean Feed Records são excelentes exemplos de como criar uma situação radical, a fim de enviar raios em direcção ao mundo mundano, que é alimentado à força a cada segundo de cada dia das nossas vidas. Ser um marco tão importante do som e da oportunidade e do radicalismo da cidade de Lisboa é uma inspiração para o mundo e deve ser vivida a qualquer custo.

 

Este novo grupo reúne músicos de Chicago e São Paulo. Como é que estes músicos, vindos de diferentes origens, podem combinar?

Temos gostos semelhantes e educações radicalmente diferentes. Temos colecções de discos similares e a oportunidade de tocar por todo o mundo, tanto separadamente como em conjunto. Trazemos novas ideias uns para os outros e estamos sempre num estado de devir. Sentindo e amando os seres humanos que não têm medo de enviar amor e dar amor. Lançando projecções de som e visão para uma onda de amor universal.

 

Porque decidiu convidar Pharoah Sanders para este projeto?

O Pharoah é um ícone do amor do som e é uma das grandes figuras da música espiritual do nosso planeta. Ser cercado pelo seu som e pelo seu ser é de suprema importância para todos nós.

 

O que poderemos esperar deste concerto em Lisboa?

Uma explosão de estrelas.

 

Para saber mais

http://www.robmazurek.com/

 

Discografia seleccionada

Rob Mazurek: “Episodes” (Wapapura, 2013)

São Paulo Undergrund: “Beija Flors Velho e Sujo” (Cuneiform, 2013)

Rob Mazurek & Exploding Star Electro-Acoustic Ensemble: “The Space Between” (Delmark, 2013)

Rob Mazurek Octet: “Skull Sessions” (Cuneiform, 2013)

Rob Mazurek / Carlos Issa: “Eclusa” (Submarine, 2012)

Rob Mazurek Pulsar Quartet: “Stellar Pulsations” (Delmark, 2012)

Chicago Underground Duo: “Age of Energy” (Northern Spy, 2012)

São Paulo Underground: “Três Cabeças Loucuras” (Cuneiform, 2011)

Starlicker: “Double Demon” (Delmark, 2011)

Rob Mazurek: “Calma Gente” (Submarine, 2010)

Exploding Star Orchestra: “Stars Have Shapes” (Delmark, 2010)

Chicago Underground Duo: “Boca Negra” (Thrill Jockey, 2010)