Stale Storløkken, 18 de Agosto de 2013

Operador de máquina rock

texto Pedro Tavares fotografia Nuno Martins

Um dos músicos em maior destaque na cena norueguesa que nos vai sendo apresentada pela editora Rune Grammofon, Stale Storløkken passou por Lisboa com os seus Elephant9 e um convidado especial recrutado nas hostes do rock progressivo, Reine Fiske. Constituiu uma das mais agradáveis surpresas da 30ª edição do Jazz em Agosto, tocando os velhinhos Hammond B-3 e Fender Rhodes numa mistura do jazz eléctrico dos Seventies com o rock psicadélico e o prog, na perspectiva de lhes dar uma continuidade. A jazz.pt conversou com ele para saber mais das suas razões e motivações…

 

A música dos Elephant9 tem sido apresentada como uma mistura de rock progressivo, psicadelismo e jazz de fusão. Manias dos críticos ou concordas? Quais são os vossos propósitos e intenções?

Acho que essa é uma boa descrição da música. O Torstein chamou-me a mim e ao Nicolai, quando era estudante em Oslo, para tocar material dos anos 1970: Miles Davis e outros do género... Divertimo-nos e decidimos formar uma banda. Depois de algum tempo, comecei a compor para o grupo.

Sentia que havia um espaço por preencher naquilo que queria tocar. Toco com os Supersilent, cuja música tem uma forma muito livre, mas também sempre gostei muito do jazz da década de 70. Esta banda veio, de certa forma, preencher esse vazio. Também tentamos expandir a composição e a tonalidade, ao mesmo tempo mantendo a “rock machine” viva. Para nós é essencial.

 

De facto, vocês são apontados como um misto do Miles Davis eléctrico e dos Deep Purple. Porquê esta invulgar dupla influência, porquê este cruzamento de referências?

Quando me comecei a interessar pelo jazz, o Miles foi para mim muito especial. Mas enquanto estudava na academia de jazz, ouvia Deep Purple, Emerson, Lake and Palmer e o rock desse período tanto quanto ouvia jazz. Penso que é sempre bom ouvir a maior variedade possível de música. Desde que se goste, não importa se é jazz, rock ou clássica. Sempre tive esse tipo de abordagem.

  

De que outras fontes vem o som e o vocabulário dos Elephant9 ?

O som da banda é um reflexo dos anos 70 mas, ao mesmo tempo, tem influências da música mais recente e de vários estilos. Cada um de nós tem muitas e variadas referências que, juntas, dão uma boa mistura. Por exemplo, o Nicolai ouve muito rock, som da Motown e a cena soul desse tempo. 

Um som mais quente

 

A vossa música centra-se em instrumentos “vintage”, como o órgão Hammond B-3, o piano eléctrico Fender Rhodes ou o sintetizador Minimoog. Explica-me o porquê destas opções e quais são as particularidades que pretendes explorar?

É difícil de explicar, mas esse foi o caminho que fiz nos instrumentos eléctricos de teclas. Eu era um grande fã dos Weather Report quando estudava jazz. Tinha um vídeo nessa altura do grupo ao vivo, acho que no Japão, e comprei quase todos os sintetizadores que vi nessa gravação.

Mesmo hoje em dia acho que os sintetizadores analógicos têm mais potencial para ajustar os sons em tempo real do que um sintetizador actual. E, além disso, têm um som muito próprio, reconhece-se imediatamente um MiniMoog ou um Hammond. Acho que o som tem realmente uma textura distinta. E para mim é perfeito!

 

As gravações do vosso grupo são feitas em estúdio analógico? E o equipamento de som que utilizam habitualmente também o é?

Sim, a maioria. Temos um estúdio em que todos os elementos são analógicos, embora o último passo, a masterização do CD, seja sempre digital. E trabalhamos com um técnico que utiliza material analógico e de válvulas. Claro que isso contribui para o som da gravação, que é mais quente do que nas outras gravações. Por exemplo, no nosso segundo álbum, “Walk the Nile”, também utilizámos fitas analógicas. Todo este processo é muito importante para nós.

 

O que te fascina mais nas décadas de 1960 e 70?

Fascinam-me a abertura às influências e o não ter medo de experimentar e misturar estilos diferentes. Nessa época houve bandas de rock que, por exemplo, fizeram gravações de coisas clássicas. Apesar de nem sempre todos os esforços terem resultado, pelo menos tentaram. Acho que é um pouco o que se faz hoje em dia, e eu gosto disso.

 

Colaboraste com Terje Rypdal. Que retiras dessa experiência?

Comecei a tocar com ele em 1995, quando eu era bastante novo. O momento em que recebi o telefonema a propor-me para me juntar a ele foi realmente especial. Fizemos uns concertos muitos agradáveis e, para mais, eu era um grande admirador dele, dado o seu interesse constante pela música, quase como se fosse uma criança: «Já ouviste este álbum? E aquele?» Era inspirador. Ainda agora, com mais de 60 anos, continua a ser assim!

 

Como é trabalhar com Reine Fisk e que aportou este guitarrista ao vosso trabalho?

É muito bom trabalhar com ele. Contribui com uma nova dimensão do som e tem uma dinâmica muito boa. 

 

É um visionário?

Sim, totalmente. Consegue um grande som de guitarra, único. É uma boa adição à banda.

 

O álbum “Atlantis” tem o nome de um estúdio de gravação muito famoso de Estocolmo, onde gravaram o disco. É uma homenagem?

Sim, é um tipo de homenagem. E um bom título. É inteiramente analógico e existe há muito, muito tempo. Já por lá passaram muitos artistas pop. É um estúdio com óptimas condições de som. Foi uma boa experiência.

 

Gravaram “Atlantis”, precisamente, com Reine Fiske. É uma parceria para manter? Que planos existem?  

O trio tem estado a fazer uns “gigs” que estão a correr bem. Vamos para o Japão em Setembro, em digressão. E talvez, ainda não é certo, gravemos um álbum para o próximo ano. E gostávamos de convidar o Reine Fiske para participar pelo menos em alguns dos temas. 

Viajar sem drogas

 

Além dos Elephant9 e dos Supersilent, em que outros projectos te encontras envolvido?

Tenho o duo com Thomas Strønen, o Humcrush. Com os Motorpsycho gravei um álbum no ano passado e fizemos uma digressão europeia em Abril.

 

Fala-me sobre esses grupos, por favor…

Os Supersilent são constituídos por mim, Arve Henriksen e Helge Sten. Também trabalhámos nalguns concertos com Stian Westerhus na guitarra, e, ocasionalmente, com John Paul Jones, dos Led Zeppelin. É uma música com uma forma mais livre do que a dos Elephant9. O mesmo tipo de abordagem, mas com muita energia!

A colaboração com os Motorpsycho é muito porreira! Gravámos algumas músicas, com umas partes escritas por eles e outras por mim e que resultaram no álbum “The Death Defying Unicorn”, saído a ano passado. Apesar de se tratar de uma banda de rock, temos as mesmas bases musicais dos anos 70 e é muito bom tocar com eles.

O Humcrush também se caracteriza por um formato livre, mas com uma base mais rítmica, ao contrário dos Supersilent, em que há maior ausência de pulsações definidas.

 

Que importância tem para ti a editora Rune Grammofon, aquela em que, regra geral, surge a tua música?

É uma das maiores editoras independentes hoje existentes. Dá muito crédito ter gravações na Rune Grammofon, pelo que é algo de muito bom.

 

O que pensas sobre o psicadelismo, do ponto de vista da espiritualidade, da sua filosofia e da relação desta com as drogas? 

Acho que tem mais a ver com uma década do que com o movimento em si. Talvez alguma música descreva, em certa medida, certos estados de alma sob o efeito de drogas. É bom viajar até aos mesmos lugares sem termos ingerido drogas. Essa é mais a minha onda.

 

Que significam para ti os conceitos progressivo, exploratório e experimental? 

São conceitos que tenho tentado aplicar musicalmente. Tal como disse antes, o que os anos 70 tinham de bom era que as pessoas não tinham medo de experimentar. Representam uma força que leva a música até mais longe. Nos Elephant9, tentamos por um lado preservar as influências desses anos e, por outro, procuramos esticá-las e actualizá-las. Terão de ser os outros, agora, a dizer se o conseguimos ou não. Acho que a função de um músico é explorar.

 

Do ponto de vista do jazz, como entendes a absorção por este do rock e de outras músicas?

É algo que se tem verificado bastante nestes últimos 10 anos e tem sido muito importante para os músicos fazer isso. Algumas bandas de rock utilizam música clássica e vice-versa. Por exemplo, podemos ouvir jovens violoncelistas que estão aderir a ritmos modernos do rock e do jazz .

 

Para saber mais

http://en.wikipedia.org/wiki/St%C3%A5le_Storl%C3%B8kken

 

Discografia seleccionada 

Elephant9 feat. Reine Fiske: “Atlantis” (Rune Grammofon, 2012)

BOL: “Num, Number” (Gigafon, 2012)

Motorpsycho: “The Death Defying Unicorn” (Stickman Records, 2012)

Elephant9: “Live at the BBC” (Rune Grammofon, 2011)

Elephant9: “Walk the Nile” (Rune Grammofon, 2010)

Supersilent: “11” (Rune Grammofon, 2010)

Supersilent: “10” (Rune Grammofon, 2010)

Paolo Vinaccia: “Very Much Alive” (Jazzland, 2010)

Supersilent: “9” (Rune Grammofon, 2009)

Elephant9: “Dodovoodoo” (Rune Grammofon, 2008)

Mark O’Leary / Stale Storlokken / Stein Inge Braekhus: “St. Fin Barre’s” (Leo Records, 2008)

BOL: “Skylab” (Nor, 2008)

Supersilent: “8” (Rune Grammofon, 2007)

Arve Henriksen: “Strjon” (Rune Grammofon, 2007)

BigBang: “Poetic Terrorism” (Grandsport, 2006)

Humcrush: “Homswoggle” (Rune Grammofon, 2006)

Terje Rypdal: “Vossabrygg” (ECM, 2006)

Supersilent: “7” (Rune Grammofon, 2005)

Lisbeth Diers: “Chime” (Spicytuna, 2005)

BOL: “Silver Sun” (Curling Legs, 2005)

Humcrush: “Humcrush” (Rune Grammofon, 2004)

Veslefrekk: “Valse Mysterioso” (Nor, 2004)

Cucumber: “No Slumber” (Bergland, 2004)

Audun Kleive Generator X: “Ohmagoddabl” (Jazzland, 2004)

Supersilent: “6” (Rune Grammofon, 2003)

Sverre Gjorvad: “Denne Lille Pytten er et Hav” (Curling Legs, 2002)

Supersilent: “5” (Rune Grammofon, 2001)

Cucumber Slumber: “New Cumber” (Bergland, 2001)

BOL: “BOL” (Via Music, 2001)

Cadillac: “Cure” (Music Network, 2001)

Audun Kleive Generator X: “Generator X” (Jazzland, 2000)

Terje Isungset: “Floating Rhythms” (Via Music, 2000)

Didrik Ingvaldsen: “History and Movement” (Via Music, 2000)