Desidério Lázaro, 17 de Setembro de 2013

Chamamento interior

texto António Branco fotografia Sofia Lima

Num país que não é tão pródigo em saxofonistas como em praticantes de outros instrumentos, Desidério Lázaro (n. 1982, Faro) tem vindo a destacar-se como um dos nossos mais interessantes sopradores. Há muito que deixou de ser apenas uma promessa: é hoje um valor seguro do jazz nacional.

Depois de, em 2010, se ter estreado, em trio, com “Rotina Impermanente” (JACC Records) e de no ano passado ter inaugurado o catálogo da Sintoma Records com “Samsara”, regressa agora com “Cérebro: Estado Zero”, reunindo de novo o trio inicial, que se completa com Mário Franco no contrabaixo e Luís Candeias na bateria.

Desidério Lázaro começou por estudar flauta de bisel e teoria musical com 6 anos, optando depois pelo clarinete aos 10, na Banda Musical de Tavira, cidade onde cresceu. Depois estudou música clássica nos Conservatórios de Faro e Setúbal.

Ao longo do seu percurso formativo integrou a Orquestra Clássica Juvenil do Algarve, a Orquestra de Metais do Algarve, a Camerata Musical do Barreiro (também na qualidade de arranjador), a Orquestra de Sopros e o Coro de Câmara do Conservatório de Setúbal, entre outras bandas filarmónicas e agrupamentos de música de câmara.

O ano de 2002 marcou o início dos seus estudos de jazz e saxofone na Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Clube de Portugal. Dois anos depois mudou-se para Amesterdão, onde concluiu a Licenciatura em Jazz no Conservatório da capital holandesa.

Fundou diversos grupos, com os quais tem apresentado as suas composições: Urban Connections, Desidério Lázaro Quinteto, Quarteto e Trio. Tem vindo a apresentar-se com alguns dos músicos mais influentes do panorama português: Mário Laginha, Carlos Barretto, Júlio Resende, André Fernandes, Nelson Cascais, Alexandre Frazão, Bruno Pedroso, Lars Arens, Bruno Santos, entre outros.

Atualmente é professor de saxofone na Escola Superior de Música de Lisboa – instituição onde também se encontra a concluir o mestrado – e na Universidade Lusíada.

Esteve à conversa com a jazz.pt onde falou disto e mais.

 

Acabas de lançar “Cérebro: Estado Zero”, o teu terceiro disco na condição de líder. Depois de “Samsara”, em quinteto, regressas ao trio original com que gravaste “Rotina Impermanente”, o disco de estreia. Como enquadras este disco na sequência dos dois registos anteriores?

A maior parte dos temas que compõem este disco já tinha sido escrita aquando da apresentação de “Rotina Impermanente”. Acabámos por tocá-los algumas vezes ao vivo e já havia vontade de lançar este segundo disco a trio. No entanto, houve um chamamento interior para gravar o “Samsara” e deixei este em pausa.

 

É um regresso a um formato que preferes?

Não diria que prefiro. Vou escrevendo música e, durante o processo, vou-me apercebendo da formação que faz mais sentido tocá-la. Os meus “chamamentos interiores” vão acabando por determinar o disco ou o projeto que se segue. Tocar em trio é maravilhoso pelas características e possibilidades que oferece, mas também o é noutra formação qualquer.

 

O novo disco é muito diferente de “Samsara” e mesmo de “Rotina Impermanente”. Significa que este é um processo de busca, de evolução dos teus próprios interesses e métodos?

Eu diria que este disco é um cruzamento entre o lado mais introspetivo do primeiro e o lado mais positivo e feliz do segundo. A música é um veículo dos meus estados emocionais no momento atual e mantenho-me fiel a esse princípio, ainda que isso possa significar um resultado mais ou menos interessante para quem vê e ouve de fora.

 

Apresenta-nos “Cérebro: Estado Zero”. As peças seguem algum conceito de base, são temas soltos, resultantes de diferentes ideias e estados emocionais, ou há uma mistura de ambas?

Ao contrário de “Rotina Impermanente” e “Samsara”, onde havia um fio condutor, este novo trata-se de uma compilação de viagens e estados emocionais durante dois anos. Por outro lado, também inclui um tema de cada músico do trio que complementa muito bem o equilíbrio da disposição dos temas.

 

Trata-se da preferência por um formato mais descarnado, sem o suporte de um instrumento harmónico? Permite-te uma maior liberdade de movimentos?

Acima de tudo permite-nos a atribuição de novas funcionalidades. Por vezes, o saxofone assume o papel de instrumento acompanhador e o contrabaixo torna-se o melodista, funções que normalmente não assumem.

 

No disco anterior, havia uma presença marcante das guitarras. Neste voltas a assumir o papel de solista central. Gostas dos desafios que essa exposição te coloca?

O maior desafio prende-se com a expansividade e a qualidade do som. Num grupo com instrumento harmónico é mais fácil esconder alguma deficiência sonora na afinação ou na consistência. Num trio há mais exposição e sinto que tenho de estar mais em forma.

Estado zero

 

A tua escrita rigorosa combina um lado festivo – vertido muitas vezes em melodias garridas – com outro mais cerebral. Se “Samsara” é um disco muito marcado pelo funk, “Cérebro: Estado Zero” é bastante mais contido...

É possível que tenha a ver com mudanças a nível pessoal, pelas quais procuro cada vez mais só dizer o essencial. Isso também se reflete na maneira como toco e penso a música.

 

Batizaste o novo disco com um estranho nome. Queres descodificá-lo?

Refiro-me ao nosso cérebro, naquele momento em que, mesmo que seja só durante um segundo, conseguimos estagná-lo em termos de fluxo de pensamento. Esse é o instante que determino como de “estado zero”.

 

Quais são as tuas referências centrais no formato de trio saxofone-contrabaixo-bateria? De que forma te deixas contaminar, ou não, pelas luminárias do formato?

Este disco foi também um pretexto para investigar mais sobre o assunto, desembocando no mestrado que estou a terminar na Escola Superior de Música de Lisboa. Durante o processo acabei por receber influências dos trios de Sonny Rollins, Branford Marsalis, Tony Malaby e Joe Lovano, assim como do incontornável quarteto sem instrumento harmónico de Ornette Coleman.

 

Apesar da influência basilar (que sempre assumiste) de John Coltrane, e também de Steve Lacy, o teu som tanto no tenor como no soprano revela, disco após disco, uma identidade cada vez mais pessoal, num processo de depuração. Concordas?

Concordo, já estou desligado do processo de copiar enquanto aprendizagem, embora, quando analiso, consiga identificar todas as influências.

 

O teu saxofonismo revela um amplo conhecimento da história do jazz. É importante para a tua abordagem esse lastro referencial?

Sem dúvida, e cada vez vou regressando ainda mais ao passado. Tenho andado a redescobrir com mais atenção Coleman Hawkins e Louis Armstrong e dou por mim a pensar o quão avançados e frescos soam. Estudo bebop todos os dias.

 

Como equilibras essa base com o mundo em que vivemos presentemente, a facilidade de comunicação, o cruzamento de estéticas, a polinização entre as várias formas artísticas?

Acredito que há tempo para tudo, ao contrário do que pensava há 10 anos, quando achava que tinha de fazer ou acontecer ou estudar ou incorporar ou só ser músico e música. A música é só mais um veículo. O jazz, um veículo dentro do veículo, o bebop, idem, e por aí fora. Devemos ser honestos e aceitar que não vamos conseguir fazer tudo já, portanto uma coisa de cada vez. Há momentos para se estar focado, há outros para romper com essa procura e, amiúde, é assim que nascem as obras, os poemas, o amor. 

Seres infinitamente criativos

 

Como é o teu processo de criação? O maquinismo de processamento dessa realidade que te envolve resulta numa pena leve?

Os impulsos não se escolhem, mas devemos estar preparados para os receber. No entanto, se não forem aproveitados no momento, outros surgirão. Somos, potencialmente, seres infinitamente criativos.

 

Nesse processo qual é o papel que atribuis à improvisação? É ela que serve como rampa de lançamento para a composição, ou, pelo contrário, a improvisação expande, em tempo real, os horizontes do material composto?

Há vários processos utilizados. Cada uma das composições presentes no disco teve um ponto de partida e um processo diferentes. As duas linhas de que falas estão presentes.

 

Como geres então essa tensão entre composição e improvisação?

Não vejo grande diferença entre ambos. Encaro a improvisação como composição instantânea em tempo real, quer seja baseada em conceitos estritamente musicais quer conceptuais.

 

Escutando a tua música, parece-me claro que incorpora também uma dimensão filosófica e espiritual. No novo disco há “Meditação II”, notável exemplo disso. De que corres atrás, afinal, com a tua música?

A música acaba por ser uma mostra dos interesses pessoais. Esse tema pretende ser um mantra, um auxílio para a prática da meditação, um dos meus interesses. Não procuro nada com o que faço, embora haja, sim, uma necessidade de colocar a música cá fora.

 

Voltas neste disco a ter a companhia de Mário Franco e Luís Candeias. A química existente entre os três é bem patente em todo o disco. Como caracterizas a relação musical entre vós?

Diria que se trata de uma relação imprevisível por haver muita abertura, o que permite haver espaço para a experimentação e a surpresa. Nunca fizemos um concerto igual ao outro.

 

Escreves sabendo que as composições serão interpretadas por estes músicos e não outros? Mais do que os formatos, as pessoas à tua volta influenciam o teu “modus operandi”?

Não, de todo.

 

No disco há uma composição de Mário Franco (“Blues Hesitante”) e outra de Luís Candeias (“Largo”). Como se desenvolve o trabalho de construção das peças no seio do trio? Que espaço lhes concedes?

Pudesse haver mais concertos e espaço para ensaios, isso também tornaria o mesmo em laboratório de experimentação, tal como aconteceu mais no início da formação do grupo. Para este disco pedi que cada um dos músicos escrevesse um tema adequado à formação e estou bastante feliz, pois penso que cada uma dessas composições se enquadra com perfeição.

 

Que planos tens para a apresentação ao vivo do disco?

No dia de lançamento (1 de setembro), tocámos no Velvet Café, em Sesimbra, e no dia 4 estivemos no Hot Clube de Portugal, em Lisboa. Mais virão, espero.

 

A tua música continua a amalgamar – ainda que em doses diferentes de disco para disco – elementos de proveniência diversa, do jazz ao rock, passando pela pop e pelo funk. Consideras-te um músico permeável a influências várias? É essa a tua forma de escutar o mundo?

Sem dúvida. Isso faz com que nunca me seja expectável, de uma forma concreta, a próxima composição, ou o próximo disco.

 

“Cérebro: Estado Zero” é o décimo lançamento da editora Sintoma Records e o teu segundo para este catálogo, que está a completar um ano de existência. Como tem sido este relacionamento?

A Sintoma Records tem por base uma procura de união, um local onde se possa desenvolver uma comunidade, uma ferramenta que permita a edição de música vibrante de músicos vibrantes, desembocando numa estratégia de angariação de novos públicos através da cedência digital dos álbuns lançados. Passado um ano, posso dizer que os resultados foram mais impactantes do que inicialmente prevíamos. Estamos muito contentes, continua a existir procura e interesse.

 

Vários foram os músicos nacionais que recentemente editaram com formações mais alargadas: Bruno Santos, Nelson Cascais... Está nos teus planos fazer algo semelhante, compor e gravar, em teu nome, em tais contextos?

Não diria que está nos planos, mas se surgir o impulso para o fazer, farei. 

Amplitude de visão

 

Para além da tua atividade como músico e compositor lecionas na Escola Superior de Música de Lisboa e na Universidade Lusíada. Agrada-te a missão de transmitir conhecimentos? O que de mais relevante procuras transmitir aos teus alunos?

Agrada-me bastante, aprendo muito com todos os meus alunos. É uma troca constante, procuro que eles entendam a vastidão de possibilidades deste universo musical, tendo como ponto de partida a tradição.

 

O que pensas relativamente à recorrente questão dos estudos académicos serem fundamentais, mas, em simultâneo, poderem, de certa forma, constituir-se como uma limitação (sobretudo através da emulação de modelos), condicionando o desenvolvimento de uma identidade musical própria? Qual deve ser, em teu entender, o papel dos professores e dos pedagogos neste domínio?

A limitação pela emulação é uma ilusão de perspetiva. Só emulando se incorpora. As escolas são só veículos e não fins. No fim das contas, é a curiosidade de cada um que determina a amplitude de visão.

 

Por norma, és um músico muito ocupado. Que formações integras atualmente?

Neste momento colaboro com Tora Tora Big Band, LA New Mainstream, João Firmino, Luís Barrigas, Adriana Miki e outros, pontualmente.

 

Para além da promoção do novo disco, que outras novidades poderemos esperar de Desidério Lázaro nos próximos meses?

Espero poder anunciar que vou ser pai, em breve [risos].

 

Para saber mais       

www.facebook.com/desideriolazarosax

 

Discografia selecionada 

Desidério Lázaro Trio: “Cérebro: Estado Zero” (Sintoma Records, 2013)

L. A. New Mainstream – “L. A. New Mainstream” (Sintoma Records, 2013)

Desidério Lázaro: “Samsara” (Sintoma Records, 2012)

Adriana Miki: “Mulata de Arroz” (Ed. de autor/GDA, 2012)

Tora Tora Big Band: “Salteado” (JACC Records, 2012)

Luís Barrigas Trio & Desidério Lázaro: “2:30” (Sintoma Records, 2012)

Desidério Lázaro Trio: “Rotina Impermanente” (JACC Records, 2010)

Júlio Resende: “Assim Falava Jazzatustra” (Clean Feed, 2009)