Quinito Mourelle, 30 de Setembro de 2013

O surfista do jazz

texto Rui Eduardo Paes

Escritor sempre, músico cada vez mais frequentemente e crítico quando as circunstâncias deixam. Quinito Mourelle (em cima fotografado por Curru Garabal) escreve romances como se tocasse jazz e compõe / improvisa ao piano com a ideia de colocar na música as armadilhas de leitura que caracterizam os seus livros. Falar da cena jazz da nossa vizinha Galiza só se completa mencionando o seu nome e referindo o que tem feito na literatura, na crítica e na arte dos sons.

Algo de muito especial, apesar da característica humildade deste renascentista romântico a quem agrada o «grito dadaísta» e que tem disco novo (“Paradero Desconocido”, com Roberto Somoza e Lucía Souto) e livro novo (“Orquestra Voland”). É urgente conhecê-lo em Portugal, porque alguém como este apaixonado surfista faz falta em qualquer país…

 

Não é possível abarcar e entender a cena galega do jazz sem ter em conta a tua múltipla intervenção como romancista, crítico e músico. Mesmo que esta última actividade (a de músico) só se tenha intensificado nos últimos anos, julgo que bastariam as duas primeiras para que te tivesses tornado numa espécie de “consciência” do jazz na Galiza. Apercebes-te disso?

Não, e acho que estás a exagerar. Por varios motivos. Em primeiro lugar, a cena galega é bastante heterogénea e não há uma boa interligação entre músicos e crítica, sobretudo porque a crítica é aquí praticamente inexistente. A situação dos jornalistas piorou com a crise: mesmo críticos de renome que escrevem para jornais de tiragem nacional têm sérios problemas em publicar e, tratando-se de jazz, as coisas complicam-se. Faz dois anos que deixei de escrever para a publicação da minha cidade, A Coruña  (La Opinion). Actualmente só colaboro com críticas de discos para os Cuadernos de Jazz, sem periodicidade fixa, e no Verão recomendo um álbum na secção Who the Fuck? da Tomajazz.com.

A minha relação com os músicos galegos é boa, mas a maioria apenas se preocupa com as críticas dos seus próprios concertos e só se lembra do jornalista quando não o vê sentado antes de começar a tocar, mas o certo é que alguém tem de pagar, e dignamente, os críticos pelo seu trabalho, Enquanto romancista, só despertei o interesse de alguns músicos. O exemplo de que estou mais orgulhoso é o do guitarrista e compositor Pepe Evangelista, que compôs uma obra inspirada no meu primeiro livro, “Confines”, e gravou um disco de guitarra clássica, que para além do mais me parece um trabalho maravilhoso.

Por outro lado, não me considero um músico de jazz. São necessárias uma preparação, uma ténica e uma dedicação exclusivas – além de um grande talento – para se ser um verdadeiro músico de jazz e eu não me dedico à música profissionalmente. Gosto de improvisar e componho com a intenção de que a minha música seja uma desculpa para o fazer, mas prefiro considerar-me, apenas, um escritor  que gosta de compor e tocar as suas próprias criações.

Seja como for, não pretendo ser uma “consciência” do jazz da Galiza. A minha personalidade vai contra a ideia de liderar qualquer corrente de opinião ou de sensibilidade e sou a favor da maior pluralidade de visões possível.

 

No teu livro “Pimienta Negra” utilizas como personagem uma figura histórica do jazz, Coleman Hawkins, e as tuas primeiras incursões pianísticas e composicionais em concerto e em disco alinhavam pelo “mainstream”. O teu trabalho crítico incide, no entanto, sobre o jazz mais vanguardista, tornaste públicas listas de audição durante a escrita dos teus romances com nomes das tendências de ponta como Louis Sclavis, Julius Hemphill, Alexander von Schlippenbach, Satoko Fujii, Daniel Levin, Joe McPhee, Agustí Fernández e Barry Guy e tens, finalmente, um disco que se pode definir como de jazz de câmara, “Paradero Desconocido”. Como é que te situas entre a tradição e a contemporaneidade do jazz, afinal?

Sinto-me muito à vontade a ouvir qualquer tipo de jazz, desde que por detrás se manifeste uma personalidade musical. Tudo tem o seu momento e o que é antigo não tem de ser, necessariamente, aborrecido ou fora de moda. Creio, até, que a “moda” é uma invenção muito superficial e uma evidencia da ridícula voracidade do capitalismo, alheia ao verdadeiro significado das artes.

Descarto, no entanto, a música que, mesmo sendo tecnicamente bem executada, não tenha algo de diferente e significativamente criativo. Os nomes que referes são todos do meu agrado, mas também o são muitos outros que poderiam ser considerados “mainstream”, e inclusive alguns conservadores, como, por exemplo, Yellow Jackets. Também sinto a necessidade de ouvir outros estilos de música, como o rock progressivo (Genesis, Yes, Camel, King Crimson, etc.) e música popular com sofisticação harmónica (Ivan Lins, Guinga, Chico Buarque, etc.). Ultimamente estou focado na música clássica de todas as épocas, desde Palestrina a Thomas Adés. Os “jazzistas” que apenas ouvem jazz sofrem de um grave problema...

Como músico e compositor sempre tive a tendência para exteriorizar de algum modo a música clássica que escutei desde a infância e que retomei, com maior intensidade, no último par de anos. A sonoridade e a estrutura da música de câmara atraem-me especialmente e creio que têm uma estreita relação com o jazz e com as suas possibilidades expressivas. Não disponho de conhecimentos suficientes para escrever música sinfónica ou de maior envergadura polifónica do que a que componho, mas a minha aspiração seria compor uma obra com essas características. Os “lieder” são também uma grande fonte de inspiração para mim e, de facto, no meu último disco, “Paradero Desconocido”, incluí duas canções com letra minha interpretadas por Lucía Souto. Escrever letras para a minha própria música era algo que estava pendente e no próximo álbum voltarei a fazê-lo certamente.   

Metragem jornalística

Quinito Mourelle por Alberto Camba 

Pelo que tenho lido da tua produção literária, não é apenas em termos de temática que o jazz vai surgindo. Há uma óbvia musicalidade no teu fraseio. Essa é uma influência consciente e intencional? E ao nível dos processos? Por exemplo, a tua escrita é muito ou pouco improvisada? Emendas bastante o que escreves ou privilegias os automatismos?

Sim, estou plenamente consciente dessa musicalidade e da relação que existe entre a frase musical, seja melodía escrita ou improvisação, e a frase narrativa. Nos meus últimos romances descobri também (e agora é uma condicionante do meu método de trabalho) a correspondência entre a duração dos capítulos e o sentido do tempo na música. Por exemplo, o romance que estou a escrever consta de pequenos capítulos de duas páginas de Word cada um. Não ultrapasso nem uma linha esse limite e dá-me um certo prazer comprovar que tudo o que tenho a contar em cada capítulo cabe nessas duas páginas. Este tipo de metragem tem algo de jornalístico (escrever críticas de uma coluna é uma boa aprendizagem), mas entendo a coisa mais como um sentido de ritmo inerente à obra e que se transmite para o leitor.

Na minha maneira de escrever há, de qualquer modo, muita improvisação. Carlos Reigosa, o escritor e crítico que apresentou o meu primeiro romance, definiu-a como uma sinfonía em que todas as vozes se encaixam. Poderia pensar-se que essa estrutura é completamente premeditada e tecida de antemão, mas não é assim. Começo sempre a escrever sem ter clarificados muitos pontos do romance, do seu desenlace argumentativo ou das relações entre as personagens. Por vezes, escrevo mesmo com o receio de não ter preparado convenientemente o romance, de não ter material suficiente, mas é precisamente essa incerteza que me atrai no processo criativo: sair ao encontro dos temas e das ideias como um viajante que não programou tudo o que acontece. Ouvir música enquanto escrevo ajuda-me a colocar-me em situação, a entrar no cenário do romance e a garantir que o que sucede vá fluindo.

Assim sendo, os automatismos estão muito presentes no meu processo criativo, mas – e é essa a diferença com o jazz – posso corrigir depois o que “toquei” antes e sou muito meticuloso nesse sentido. Cada jornada de trabalho narrativo inicia-se corrigindo o que escrevi no dia anterior e, dessa forma, retomando o ritmo da escrita. Uma vez terminado um livro, volto a corrigir uns meses depois, quando já estou distanciado da “criatura”, e ainda faço uma revisão antes de o mesmo entrar na tipografía.

 

Viveste alguns anos no Brasil e é óbvia a influência da literatura sul-americana na tua escrita, designadamente a de autores como Jorge Amado e Alejo Carpentier. Achas que isso te distingue da restante literatura galega, além de seres o único escritor que na Galiza escreve e toca jazz?

A literatura sul-americana é uma clara influência minha e especialmente a brasileira, mas também a literatura russa e, transversalmente, outro tipo de textos que não o romance – ensaios sobre música, por exemplo. Desconheço se sou o único escritor galego que toca jazz, apesar de conhecer outros escritores que tocam outros géneros musicais, mas não me parece que seja essa a característica que me distingue. Julgo que é mais a maneira de escrever, o tipo de frase utilizado, mais em linha com os autores que apontas e que aquí não são de leitura frequente, e os temas que trato.

O idioma é igualmente um factor a ter em conta, pois não escrevo em Galego, língua que falo, mas de que considero não dispor de suficientes recursos (vocabulário, gramática adequada, fluidez, etc.). Creio que se publica muita literatura em Galego que não tem nem personalidade nem qualidade literária suficientes. Defendo que se deve fomentar o uso do Galego, mas publicar obras de duvidosa qualidade não o favorece, antes pelo contrário. Acontece, porém, que os escritores galegos que escrevem em Castelhano não são tidos em conta: simplesmente, não existimos.

 

O teu percurso musical tem sido feito com a colaboração do saxofonista Roberto Somoza, que co-liderou contigo o quarteto de “Pavasaris” e com quem surges em duo no álbum “Paradero Desconocido”. Curiosamente, essa parceria musical resultou em outro livro teu, “Orquestra Voland, Oito Pezas Europeas”. Fala-me deste projecto tão curioso e do teu continuado trabalho com Somoza…

Há uns anos fui “manager” de Roberto Somoza, ainda que apenas o tempo suficiente para perceber que não tinha estofo para ser um “manager”. Na altura já tinha escrito bastantes composições e um dia perguntei-lhe se queria tocar alguma comigo. A experiência foi muito satisfatória e fiz questão que o Roberto estivesse presente na minha primeira “jam session”, pelo que foi como que o meu padrino no território do jazz. Quando me dispus a gravar o meu primeiro disco pensei nele imediatamente, e em Miguel Cabana e Quique Alvarado.

De seguida, ele convidou-me para escrever um conto destinado a um concerto didáctico (“A Jam de Simón”) para banda filarmónica e quinteto de jazz. Um belo dia apanhou-me de surpresa quando me ligou em pleno Verão e me disse que estava a compor música a partir dos folclores de diversos países europeus e que gostaria que eu escrevesse um romance que se relacionasse com essa música, tendo como eixo a digressão de um grupo musical pela Europa. Surgiu assim “Orquestra Voland”, que é um livro e um disco que se vendem conjuntamente.

O projecto foi sendo gerado em diversas conversas telefónicas. No romance intercalei oito contos que correspondiam a cada uma das composições do Roberto. Apresentámo-lo várias vezes em concertó, mas não tantas quantas queríamos. A crise também tem muito a ver com isto, pois conseguir actuações para 10 músicos é muito complicado. Surpreendeu-me imenso a versatilidade de Roberto Somoza para escrever música que, na realidade, não é jazz e tem uma grande complexidade de execução, sobretudo devido a uma rítmica que é atípica na nossa tradição musical. Temos em mente fazer uma segunda parte, mas a situação actual não é boa para colocar em marcha este tipo de projectos. Na minha próxima gravação contarei de novo com ele: conhece-me muito bem e sabe adaptar-se perfeitamente à minha música e à minha invulgar formação como músico. Estou-lhe muito agradecido, pois sem ele não poderia ter lançado os meus discos. 

Impulso poético

Quinito Mourelle por Ana De Francisco 

“Pimienta Negra” foi livro e foi um CD com música tua. Porquê também a edição musical?

Na realidade não há qualquer paralelismo entre o romance e o disco. Os temas deste são completamente independentes da temática do livro. No momento de publicar “Pimienta Negra” quis relacionar as minhas duas facetas e dar aos meus leitores uma visão complementar da minha criatividade. Tinha muita vontade de gravar a minha música e o meu professor de piano, e excelente pianista de jazz, Sergio Delgado, incentivou-me a ir para estúdio. E pegou numa delas para a tocar com uma das suas múltiplas formações, o que me comoveu bastante. Foi a primeira e a única vez que alguém me pediu uma música para interpretar. A publicação do álbum “Pimienta Negra” foi inteiramente à minha conta, não uma aposta da editora, ainda que esta tivesse ficado encantada com a ideia.

 

Tens formação superior em jornalismo e chegaste a trabalhar como jornalista, mas o interessante é que a tua crítica é muito mais literária do que propriamente jornalística, de que é um excelente exemplo a “review” que fizeste da reedição de “For Alto”, de Anthony Braxton, para os Cuadernos de Jazz. O texto está algures entre a poesia e a análise ensaística. Que crítica é esta, então, que fazes?

Agrada-me que tenhas destacado essa crítica e não foste o único a quem chamou a atenção. Há pouco vi na Internet que alguém que desconheço a colocou no seu blogue, um gesto que me dá prazer. Quando dei por terminada a minha carreira de jornalista e me decidi pelo doutoramento por não ter uma verdadeira vocação jornalística, acabei por me especializar em literatura. O meu primeiro impulso criativo é sempre poético e, tanto no romance como na crítica, procuro ir nessa direcção sempre que posso, sem esquecer que também tenho de informar, tenho de oferecer ao leitor uma série de dados (no caso da crítica) que lhe permitam saber o que pode encontrar no disco em questão.

Seja como for, há algum tempo que a crítica discográfica me está a cansar. É uma tarefa muito rotineira e já não sinto o mesmo entusiasmo que tinha antes, pois a escrita literária e a leitura de romances absorvem-me muito. Prefiro, agora, ouvir um disco pelo simples prazer de o fazer, mesmo que o crítico que há em mim emita inevitavelmente, na sua mente, um juízo sobre o que escuto.

 

Qual das tuas actividades achas que conquistou mais pessoas para a audição do jazz, a crítica ou a literária? E já conseguiste perceber se quem te ouve era quem já te lia?

Não tenho dados suficientes para chegar a uma conclusão a esse respeito, mas temo que não tenha conseguido atrair muitas pessoas para o jazz. Com “Pimienta Negra” sim, ainda que modestamente. Alguns aficionados do jazz terão ficado interessados pelos meus romances e, quanto ao meu trabalho crítico, as pessoas que me lêem têm à partida um certo interesse pelo jazz. Mas claro que me interessa que as pessoas que ouvem a minha música também me leiam e vice-versa. É por esse caminho que pretendo dirigir os meus passos.

 

Por alturas da edição de “Pimienta Negra” apresentavas-te como «um pianista pior que medíocre», argumentando que não eras músico e que se tratava apenas de um “hobby”. Continuas a ser tão autocrítico? Não se tornou esse “hobby” em algo de muito mais sério e mais frequente na tua vida? Evoluíste muito estes últimos anos, mas não eras tão mau como dizias…

Custa-me imenso ajuizar sobre a minha própria faceta musical ou ouvir a minha música como se fosse a de um desconhecido, mas sei quais são as minhas carências e não me envergonho de as admitir. Sim, evoluí muito estes últimos anos e dediquei mais tempo e mais esforços ao piano, mas preferia que me avaliassem não como pianista de jazz mas, simplesmente, como alguém que toca piano. Não me agrada a competição que se estabelece nos meios do jazz, crendo-se muitas vezes que aquele que toca mais rapidamente sem cair, como se estivesse em cima de um touro mecânico, é o músico que mais devemos admirar.

Há outros aspectos musicais que o público muitas vezes não contempla ou não sabe apreciar. Por isso é que, para já, deixo o peso da improvisação a Roberto Somoza e centro-me mais na composição e no acompanhamento. Procuro que os meus temas sejam histórias sugestivas para o público e que este assim as entenda, deixando de lado se sou ou não capaz de frasear como um ciclone. Há uma grande quantidade de pianistas talentosos que o podem fazer muitíssimo melhor do que eu, pelo que não estou, nem quero estar, nessa luta.

 

Disseste numa entrevista a Pachi Tapiz, para a Toma Jazz, que «o jazz é uma metáfora da vida, uma atitude perante a vida». Metáfora e atitude porquê e como, concretamente e na tua opinião? Referes-te a ser o jazz um exemplo de espontaneidade ou está em causa aquele elemento “cool”, descomprometido, que é imputado aos músicos de jazz?

Referia-me ao primeiro significado. Todos os días temos de improvisar na nossa rotina diária, e quem não souber fazê-lo terá menos posibilidades de amadurecer e sobreviver. Relativamente ao segundo sentido que apontas, não me parece que haja uma personalidade característica do músico de jazz. Outros géneros musicais parecem necessitar de um aparato estilístico e de imagem que os sustente: os seus seguidores vestem-se segundo determinados padrões e adoptam as mesmas atitudes perante a vida, mas eu não gosto de rebanhos. Gostaria de pensar que o jazz é precisamente o inverso: um conglomerado de gente heterogénea e não reconhecível à primeira vista. 

Romântico, ma non troppo

Quinito Mourelle por Sonia Rodriguez

As tuas composições são muito intimistas e serenas, sendo-te frequentemente aplicado o rótulo de “romântico”. Reflectem a tua personalidade?

Sim, creio que reflectem a minha personalidade, os meus sonhos e anseios e o contraste entre estes e a realidade, bem como a nostalgia como via de conhecimento de si mesmo e do mundo, o bosque à beira da cidade e a busca contínua de beleza. A música do Romantismo nutriu-me desde pequeno e considero-a como a minha “casa”, o lugar a que sempre volto.  Aos 14 anos de idade descobri, no entanto, a obra de Alexander Scriabin, graças ao meu irmão mais velho. Nesse momento abriu-se para mim a porta que me conduziu a novas formas de expressão e ao jazz. Sou muito romântico, sem dúvida, mas também aprecio a experimentação e o sentido da aventura na arte, a irreverência, o grito dadaísta. Por isso é que o free e a música contemporânea se enquadram também com a minha personalidade.

 

Apesar do peso que as emoções têm na tua música e de os teus romances serem algo melancólicos, nestes – e sobretudo em “Pimienta Negra” e “Sin Ana Beatriz” – há um factor racional de jogo. Lanças pistas de condução narrativa que depois se vêm a revelar como armadilhas para a leitura, com desenlaces completamente diferentes daqueles que se previam nas tramas. Não recorres muito a esse tipo de construção na música, pois não?

Esse tipo de jogos e os desenlaces imprevistos de que falas são como que a versão literária da surpresa jazzística. Alguns podem não apreciar esses jogos, mas são parte essencial da minha narrativa e um dos meus recursos para manter o interesse dos leitores. Se conseguir despistá-los e surpreendê-los, isso é sinal de que a minha estratégia funcionou. Na música talvez seja mais conservador, mas fujo ao esquema previsível dos “standards” e inclino-me para estruturas sinfónicas com pequenas partes e desenvolvimentos. De qualquer modo, se hoje tenho um processo, amanhã poderei compor de forma completamente diferente.

 

Sei que também és surfista. O surf e o rock têm uma longa história conjunta, mas quanto à relação surf e jazz, que considerações podes fazer? Bem sei que o jazz é uma música nocturna e fumarenta, mas…

Acertaste em fazer-me essa pergunta. Apenas conheço surfistas e windsurfistas que ouvem jazz e creio que a relação é evidente. Um surfista improvisa uma melodía sobre uma onda, que para mais nunca é igual à onda anterior e tem a sua vida própria. É como se fosse uma progressão harmónica que facilita as coisas ao músico, mas pode mudar sem aviso prévio (um acorde maior que se converte em menor, por exemplo), de maneira que o surfista tem de ir interpretando a onda e antecipar-se à forma que esta vai tomando.

Muitas vezes, quando me preparo, com vela ou sem ela, para receber a onda seguinte e vejo como um amigo surfa a onda correspondente, penso que o oiço a fazer um solo, imprimindo a sua marca sobre a água. Curiosamente, conheci este Verão um grupo de austríacos liderado pelo violinista Christoph Mallinger que dá aulas de surf e improvisação musical num acampamento de Ferrol, uma iniciativa que me parece muito interessante e própria de gente avançada.

E olha que não acho que o jazz seja uma música «nocturna e fumarenta». Tenho sérios problemas de insónia, mas procuro não ouvir música à noite para não me habituar a essa prática noctívaga e já quase não vou a clubes de jazz pelo mesmo motivo. Encanta-me a luz do dia e reclamo para Espanha horários europeus, em que acordamos com luz natural e não com a dos candeeiros. Além disso, não suporto o fumo dos cigarros. Nada do que te disse agora impede que me considere uma pessoa emocionalmente muito vinculada ao jazz.

 

Alguma perspectiva relativamente à tradução dos teus livros para Português, uma língua que até utilizas? E quanto a concertos em Portugal, ninguém te convida? Porque é que achas que a Galiza e Portugal continuam a estar de costas voltadas, apesar de todas as ligações históricas e culturais que existem entre si? Quem está mais em falta, a Galiza ou Portugal? Ou o mal é de ambos?

Nada me daría maior prazer do que ser traduzido em Português, uma língua que amo, e de resto em qualquer outro idioma, mas ninguém me contactou até agora para esse efeito, e nem tão pouco para tocar em outros países. Na Galiza conhece-se agora mais a cultura portuguesa e tem havido uma maior aproximação ao vosso idioma, mas continua vigente a ideia de que quem sabe ler, escrever e falar Galego sabe também ler, escrever e falar Português. Não é verdade, e as pessoas que pensam assim nunca se preocuparam em comprar um livro em Português e lê-lo e também não conhecem a língua galega como deveriam – algo certamente difícil, devido às constantes mudanças da normativa linguística a que tem estado exposta. Talvez aconteça o mesmo em Portugal. De qualquer modo, é uma tristeza que não haja um intercâmbio mais fluido e constante de experiências culturais entre ambos.

 

Tens acompanhado alguma coisa do jazz português? O quê, designadamente? Que apreciações fazes?

Por falta de tempo, tenho estado bastante desligado da actualidade do jazz e das cenas jazzísticas galega e portuguesa, mas alguma coisa me vai chegando. Dos grupos portugueses o Red Trio foi o que mais me chamou a atenção nos últimos anos, assim como as formações de Rodrigo Amado. Ouvi também Hugo Carvalhais muito recentemente. Sempre que algum amigo meu vai a Portugal peço-lhe que me traga um pacote de discos da Clean Feed, uma editora magnífica e que deveria ser motivo de orgulho nacional. Gostaria de conhecer melhor o que se está a passar em Portugal, o que está Carlos Barretto a fazer agora, mas não tenho disponibilidade para fazer todas as coisas que desejo. Tenho bastante abandonada a leitura de artigos sobre jazz. A ver se retomo um dia desses…

 

Para finalizar, um estereótipo: o que estás a escrever agora e qual vai ser a tua próxima aventura musical? E o que andas a ouvir para trabalho crítico?

Estou a escrever um romance em torno da figura de Johann Sebastian Bach e de um episódio concreto da sua biografia, mas não se trata de uma obra histórica e sim de uma reflexão a partir de uma personagem que existiu. Infelizmente, estou neste momento sem editora que me publique e tenho dois romances que ainda não vieram a público, pelo que tenho de dedicar algum tempo a procurar editora.

Os discos que critico para os Cuadernos de Jazz não sou eu que os escolho: mandam-me da Redacção. Tenho agora entre mãos um duplo de Michael Wollny, um pianista muito interessante cujo trabalho conheço bastante bem, e também me enviaram um do igualmente pianista Alexi Tuomarila, álbum em que participa o português André Fernandes, que considero um guitarrista excepcional e que tive a oportunidade de ouvir ao vivo em Braga há uns anos. Já é um músico conhecido aquí na Galiza e colaborou com alguns músicos galegos. Alegrou-me muito verificar que Tuomarila contou com ele para o seu disco, que é um bom trabalho.

Termino com outro estereótipo, se bem que o diga com o coração nas mãos. Estou muito agradecido tanto pela oportunidade de me dares a conhecer em Portugal como pela cuidada e interessante selecção de perguntas que me fizeste. Esta é a entrevista com maior profundidade que já realizaram comigo e alegra-me que seja publicada numa revista com tanta qualidade como a jazz.pt.

 

Para saber mais

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