Noel Taylor, 25 de Outubro de 2013

Puro desfrute

texto Paulo Chagas

Noel Taylor (acima fotografado por Andy Newcombe) participou na edição de 2013 do MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia e ficou tão impressionado com a qualidade dos improvisadores portugueses que quer voltar para novos encontros. É uma personagem particularmente activa da livre-improvisação de Londres, onde dirige o quarteto Splatters e integra a London Improvisers Orchestra. Entretanto, começou também a tocar com a nova Berlin Improvisers Orchestra e com a italiana Iato Orchestra.

No seu currículo tem colaborações com grandes nomes do jazz e da música “não-idiomática” como Theo Jorgensmann, Steve Beresford, Terry Day, Lawrence Casserley, Veryan Weston e Chris Biscoe, entre muitíssimos outros, todos eles interessados nas pesquisas que vai desenvolvendo das possibilidades dos clarinetes soprano, alto e baixo. Conversámos com ele…

 

Podemos apreciar em ti um clarinetista virtuoso. Essa é a tua forma de vida, ou tens paralelamente outra profissão?

Não me considero um clarinetista virtuoso, de todo - o que seria ridículo -, mas acredito que tenho uma certa capacidade para ouvir e reagir rapidamente ao que ouço, dentro das minhas próprias limitações técnicas. De qualquer forma, não acho que ter uma técnica excelente seja um pré-requisito para fazer música interessante, nem sequer me parece que o conceito clássico de “técnica excelente” seja necessariamente a técnica ideal para a música que faço. Há momentos, no entanto, em que a técnica convencional ajuda imenso.

Às vezes, quando se está a tocar, a orientação da música sofre mudanças de um modo em que parece estarmos a emergir de um emaranhado denso de vegetação rumo a uma clareira aberta, onde o sol brilha e o ar de repente fica mais fresco. Nesses momentos acho que é mais fácil e menos arriscado corrermos de volta para aqueles “matos musicais” do que tentarmos encontrar a música que se parece encaixar na clareira, que é no fundo aquilo que eu gosto de imaginar como sendo a música de todas as nossas memórias. É como se cada nota e cada som soassem exactamente como deveria ser.

Não tenho uma formação musical clássica, portanto ser-me-ia muito difícil conseguir oportunidades para trabalhar no ensino. Como todos sabemos, muito poucas pessoas conseguem ganhar a vida a tocar música improvisada, sem o conforto complementar de um salário, como o proveniente do ensino. Sendo assim, trabalho numa área completamente diferente, fazendo Psicologia numa universidade. Durante algum tempo ainda resisti a referir-me a mim mesmo como “músico”, pensando que a minha actividade musical era pouco substancial e apenas existia na sombra. Porém, já sinto que o meu quotidiano profissional é que está na sombra e que a minha vida musical é a minha verdadeira substância.

 

Como é que a música surgiu na tua vida? Que diferentes fases se podem identificar na tua carreira musical?
Quase parece estranho falar da minha "carreira musical" porque, apesar de não ser propriamente um jovem, a minha carreira é realmente muito curta. A música não era particularmente importante na nossa família. Em criança, conhecia algumas canções folclóricas locais e, para grande espanto de minha mãe, costumava cantá-las para mim, principalmente quando me sentia triste. Aprendi a tocar clarinete na escola secundária e, uns anos mais tarde, entrei numa “jam session” com uma banda de teatro de rua. Foi a primeira vez que toquei em grupo e a sensação de experimentar o poder e a alegria da improvisação colectiva foi excelente.

A alegria seria curta, pois tudo em mim desabou quando o líder da banda me fez algumas críticas que me pareceram menos simpáticas. Só mais tarde compreendi que esse tipo de observações faz parte de uma rotina importante nas sessões de improvisação colectiva, mas a verdade é que naquele momento me senti totalmente esmagado. Por essa razão, durante alguns anos não voltei a tocar a não ser sozinho.  

Gostava, no entanto, de tocar e improvisar por cima dos discos que ouvia. Tive a sorte de ter um amigo que me apresentou nomes como Ornette Coleman , The Velvet Underground, Brotherhood of Breath , Steve Reich , The Last Poets , etc., e também várias coisas um pouco mais misteriosas e bizarras, como Lord Buckley, por exemplo . Posso ainda referir um período eventualmente negativo, juntando-me a uma banda de estilo “canterburyano” quando entrei nas Belas Artes.

Depois da faculdade mudei-me para East London, onde moro agora, e passado pouco tempo comecei a tocar clarinete noutra banda , The Mosquitoes, com dois dos meus vizinhos, um dos quais era o guitarrista John Bisset . A música que tocávamos era estridente e frenética e divertia-nos imenso, mas estávamos completamente isolados de qualquer cena musical. Quando Bisset começou a dedicar-se à improvisação livre, confesso que manifestei alguma resistência em segui-lo. Eu adorava o rock irregular e improvisado que costumávamos tocar, mas ainda não tinha apurado suficientemente o gosto para aquele tipo de música que o estava a interessar então. Em resultado disso, voltei a entrar num período de isolamento musical, embora fosse também nessa época que comecei a ter aulas particulares que me fizeram chegar às obras-primas do repertório de clarinete. Alguns dos vestígios desse trabalho surgem, por vezes, na minha linguagem e na minha performance hoje em dia.

Quando frequentei o meu primeiro “workshop” com Eddie Prévost foi mais numa tentativa de conhecer pessoas do que de mergulhar conscientemente na música experimental. Lembro-me bem de o Eddie comentar que pessoas como eu estavam completamente “fora do radar". Ainda sentia dificuldade em pedir às pessoas para tocar comigo, mas por fim lá consegui arrancar com o ICE - Improvisers Clarinet Ensemble, um quinteto de clarinetistas saídos do “workshop”. Isto por volta do início de 2007. O projecto não durou muito tempo, mas foi extremamente importante e posso talvez até afirmar que este foi o verdadeiro início da minha "carreira", na medida em que ainda hoje estou a seguir esse caminho.

A maneira como toco é completamente dependente do tipo de pessoas com quem estou a tocar, e para mim a improvisação envolve sempre um processo de negociação para estabelecer os parâmetros dos gostos musicais comuns a quem está a tocar, o que só acontece através da música que se vai fazendo. Ao mesmo tempo, tento sempre alcançar um equilíbrio entre a necessidade de receber e responder aos outros e a necessidade de fazer valer os meus próprios impulsos e iniciativas. Acho que tenho conseguido trabalhar gradualmente através dessas pressões contraditórias, tentando aperfeiçoar a minha sensibilidade, mas este é, e sempre será, um processo em constante mutação.

Uma incrível paleta de sons 

A tua discografia inclui colaborações com nomes muito importantes da música actual. Como é que te sentes em relação a isso?
Tenho tido realmente muita sorte por tocar e gravar com alguns músicos muito bons, mas na verdade as colaborações que mais valorizo são as que têm uma dinâmica contínua e permanente.

 

Fala-nos um pouco sobre a tua ligação à London Improvisers Orchestra…
Entrei para a orquestra há cerca de três ou quatro anos. Hesitei muito tempo antes de perguntar se poderia participar, com medo de ser rejeitado. A orquestra usa o método de “condução” de Butch Morris e adoro algumas das músicas que criamos juntos. Muitos membros da orquestra nunca dirigem e preferem apenas tocar, mas achei emocionante trabalhar igualmente como “maestro” e ter à minha disposição aquela incrível paleta de sons que podem ser empacotados e manipulados em forma de música.

A minha primeira experiência a dirigir aconteceu na abertura do Encontro da Berlim Improvisers Orchestra. Tenho tocado com eles várias vezes, pois é uma orquestra fundada por Anna Kaluza que toca comigo no projecto Splatter. Tenho ainda trabalhado com a Iato Orchestra em Roma, sendo que entre estes três grandes grupos tenho podido conhecer muitos músicos incríveis, assim como a oportunidade de observar diferenças bastante distintas entre os seus processos de funcionamento. A London Improvisers Orchestra, por exemplo, está longe de ser tão extrovertida quanto a de Berlim, mas, por outro lado, tem uma ampla gama de instrumentos e o seu som é mais "orquestral ", por vezes mais próximo da música contemporânea do que do jazz.

 

Como observador, o que tens a dizer sobre o panorama da improvisação no teu país e, particularmente, na tua cidade?
Londres não tem uma visão uniforme sobre a improvisação. Existem muitos estilos e abordagens lado a lado, tal como a incrível mistura de nacionalidades e etnias que compõem a cidade. Pode dizer-se que existem sempre diversas facções sobre o que é ou não considerado uma tendência actual. Acho que foi Bell Clive que inventou o termo “new London silence” para descrever uma forma de tocar que surgiu há alguns anos e incide sobre pequenos sons suaves e quase inaudíveis. Por outro lado, há uma grande comunidade de músicos "noise” e artistas sonoros que trabalham com gravações de campo. Noutros círculos, o free jazz está considerado completamente fora de moda e a expressão EFI (European Free Improvisation) é praticamente um termo em desuso.

Porém, algumas das principais escolas superiores de música adoptaram a improvisação e, como resultado, a quantidade de músicos que se envolvem na cena é hoje em dia mais ampla e também mais jovem do que era. O surgimento de Café Oto como um local de espectáculos importante tem tido uma enorme influência no sentido de trazer esta música a um público mais vasto. Neste momento encontram-se gigs de música improvisada e experimental em quase todos os dias da semana, mas na sua grande maioria sem qualquer apoio financeiro. Acabamos por ter de desenvolver uma cultura DIY, com os músicos a organizar e promover os seus próprios concertos, recebendo apenas o dinheiro da porta. Na maior parte dos casos não dá sequer para cobrir os custos de transporte, mas quase toda gente aceita o facto de bom grado. Isto não significa que se concorde com a situação, mas se não fosse assim quase não haveria oportunidades de tocar. Fora de Londres, existem também alguns centros regionais, como Brighton, Sheffield, Oxford, Glasgow e Birmingham, onde existem pequenas comunidades e cenas de improvisação.

 

Em que medida é que o facto de viveres numa cidade com as características de Londres influencia a tua postura enquanto artista?
É difícil responder a esta pergunta: as pessoas aqui acreditam que, junto com Berlim, Londres é um dos centros-chave para este tipo de música, por isso não há qualquer sensação de isolamento. O mundo é actualmente um lugar muito interligado e Londres é uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, com uma linguagem que é quase uma "língua franca", especialmente nas artes. Em Londres consigo tocar com músicos venezuelanos, colombianos, dinamarqueses, franceses, brasileiros, checos, gregos, nigerianos, australianos, alemães, italianos, suíços, chineses, japoneses, russos ou mesmo portugueses e britânicos, claro - então, o que posso dizer?

Claro, nós somos uma ilha e muitas pessoas daqui parecem identificar-se primeiro que nada como britânicos e só depois (e muito a custo) como europeus. Talvez a nossa mentalidade de ilhéus tenha alguma influência sobre as nossas características nacionais, mas para discutir até que ponto isso nos poderá influenciar como artistas conduziria a um grau de generalização em que não estou completamente à vontade. 

Não-julgamento

Noel Taylor por José Félix Costa

Estiveste recentemente em Portugal para participar no MIA. Queres falar-nos das tuas impressões sobre esse encontro?
Fiquei impressionado com a cumplicidade/amizade entre os músicos que lá encontrei. Apesar de tudo decorrer numa atmosfera absolutamente solidária e de “não-julgamento”, prevalecia a sensação de que nada se tocaria a não ser o melhor possível. Acho que o nível-padrão das improvisações foi muito alto, o que resultou da intensidade de escuta, tanto por parte dos artistas como do público. Houve uma ampla gama de estilos e métodos de improvisação e, possivelmente, um pequeno número de músicos que tinha pouca experiência de improvisação, mas isso não pareceu dificultar-lhes a tentativa de encontrar um terreno comum.

A localização - longe dos centros urbanos - terá contribuído para essa atmosfera, de modo que parecia que estávamos encapsulados num espaço onde só a música importava. Isto poderia facilmente ter produzido uma atmosfera muito rarefeita, mas a verdade é que fomos todos muito bem recebidos pela comunidade local e todo o evento decorreu de uma forma satisfatória e saudável.

 

O que é que costumas ouvir?
Uma grande parte da minha prática diária consiste em tocar com o rádio, por isso acabo por ouvir imenso jazz bastante convencional, blues, soul e pop “indie” nas estações que normalmente sintonizo. Sou particularmente apaixonado pela música de um compositor russo algo obscuro chamado Boris Tchaikovsky e oiço-o muitas vezes no carro enquanto conduzo. Não sei porque gosto tanto dessa música - não é nada radical ou experimental, mas tem uma forma muito particular de lidar com os componentes melódicos extremamente simples que resultam em algo que acho lindíssimo. Também eu aspiro a criar o tipo de momentos que ele conseguia – momentos em que tudo se cristaliza e o tempo parece parar em suspensão.

Escuto igualmente uma boa quantidade de música para clarinete - desde a música turca de Husnu Senlendirici até ao virtuosismo supremo de um Martin Fröst. Também costumo ir com regularidade à ópera, a concertos de música clássica, contemporânea, jazz e, muitas vezes, de improvisação livre.

 

O que podemos esperar de ti como músico no futuro próximo? Em que projectos estás a trabalhar e o que tens em mente?
Uma das bandas em que toco - Splatter - está prestes a lançar um CD de improvisações que resultou de uma colaboração com o músico polaco Rafal Mazur. Tenho vários outros projectos que tocam regularmente e portanto irei continuar a dedicar algum do meu tempo a tentar arranjar oportunidades para eles e também a fazer gravações dos nossos concertos e ensaios. Interessa-me bastante, em todos os meus projectos, desenvolver a procura dos limites por onde passam as fronteiras da flutuação tonal na melodia e por onde a dissonância absoluta de repente se transforma num sistema harmónico.

Pretendo continuar a desenvolver a forma de expressão com que uso o material melódico de forma fragmentária, para que tenha um peso igual aos elementos mais abstractos. Por outro lado, gosto de padrões rítmicos propulsivos que também se fragmentam e conseguem resistir a um simples processo de repetição. Em termos gerais, toco pelo puro desfrute deste tipo de invenção espontânea e não porque esteja a tentar redefinir a música. Espero que aquilo que possam esperar de mim seja sempre o aumento desse prazer em tocar. Finalmente, também gostaria muito de voltar a Portugal e tocar novamente com alguns dos participantes que conheci no MIA.

 

Para saber mais

http://www.noeltaylor.net/

 

Discografia

Splatter: “Scraffiti” (Citystream, 2011)

London Improvisers Orchestra: “Lio Leo Leon” (Psi Records, 2010)

Berlin Improvisers Orchestra: “Berio Live at Wendel” (INQ, 2010)

Alberto Polla / Noel Taylor: “All Fall Down” (Citystream, 2010)

Niko Meinhold / Noel Taylor: “Border Patrol” (Citystream, 2010)

Splatter: “Music for Misanthropes” (Citystream, 2010)

Noel Taylor / James O’Sulivan / Oli Mayne: “Thistledown” (Clinical Archives, 2009)

Noel Taylor: “Foundry Solo Tritych” (Headphonica, 2009)

Uncle Rabbit: “200 Used Cars” (Citystream, 2009)

Improvising Clarinet Ensemble: “I-C-E Bound” (Citystream, 2008)