Tertúlia Jazz, 10 de Novembro de 2013

O que dizem os fotógrafos

texto Pedro Tavares e Rui Eduardo Paes fotografia António Marciano

Iniciativa da revista “online” Rua de Baixo, em parceria com a Le Cool Lisboa e a jazz.pt, as Tertúlias Jazz reuniram na Livraria Barata, em Lisboa, seis dos fotógrafos que mais se destacaram na cobertura de eventos jazzísticos em Portugal: Nuno Martins, Hervé Hette, Carlos Paes, Vera Marmelo, Rosa Reis e António Júlio Duarte. De registar que os três primeiros fazem parte da nossa equipa permanente e que já tivemos oportunidade de publicar o trabalho dos restantes. A conversa esteve animada e nela participou o público presente, que de seguida assistiu a um concerto da Bande à Part com o trompetista Yaw Tembe como convidado. Primeiro, fizeram-se as apresentações…

 

Hervé Hette – Sou francês e vivo em Portugal há 20 anos. Sou fotógrafo e “designer” gráfico. Comecei a fotografar jazz há seis, sete anos, mas faço da fotografia a minha principal profissão, sobretudo fotografia comercial. Tenho também alguns projectos pessoais, sozinho e com outras pessoas.

 

Rosa Reis – Fotografo jazz e não só. O jazz é para mim uma forma de representação da fotografia enquanto transmissão de emoções e relações. Comecei a fotografar jazz porque num concerto me emocionei tanto que decidi transmitir as minhas sensações naquilo que faço, a fotografia.

É um projecto que tem cerca de 15 anos. Publiquei um livro e acho importante fotografar, além da emoção que o músico me proporciona, também a emoção que ele tem na sua relação com o instrumento. Os momentos de comunicação do músico com o instrumento, os momentos de criação, são os que mais me interessam na fotografia de jazz. Faço também fotografia de autor, relacionada sempre com as pessoas e com os ambientes de trabalho, desde académicos a operários. Ora, o jazz é um ambiente de trabalho.

Carlos Paes fotografando a Bande à Part 

Carlos Paes – Sou “designer” e infográfico e tenho a fotografia como “hobby”. Há cerca de quatro ou cinco anos tive a possibilidade de começar a fotografar concertos de jazz. Na altura, ainda não tinha encontrado o que mais gostava de fazer – descobri ao fotografar o meu primeiro concerto de jazz que era isto que eu queria fazer com a fotografia. Fui evoluindo nesta área e hoje, quando fotografo, abstraio-me de tudo. O concerto chega ao fim, mas para mim parece que começou na altura. É assim que eu vivo a fotografia do jazz.

 

Nuno Martins – Sou autodidacta, sempre gostei de música e também de fotografia e uma conjunção de factores levou a que, há coisa de 10 anos, começasse a fotografar música ao vivo. Foi um concerto no Estoril jazz e a partir de então nunca mais parei. A minha actividade profissional nada tem que ver com fotografia. Trata-se de um “hobby” que levo muito a sério.

 

António Júlio Duarte – O meu interesse pela fotografia começou pela música já há muitos anos e talvez me tenha tornado fotógrafo porque não conseguia tornar-me músico, é uma sublimação. Comecei a acompanhar alguns músicos de jazz há quatro anos. Trabalho como fotógrafo “freelancer” sempre em projectos ligados a uma área mais documental, de autor, e há quatro, cinco anos, fui convidado para acompanhar uma digressão pelos Estados Unidos do Humanization Quartet, com duas funções: a de documentar a “tournée” e a de condutor. Repetimos a digressão passados dois anos. Fiz algumas capas para discos de músicos com quem tenho uma relação de amizade.

Este é um trabalho que vai ao encontro das minhas preocupações e das minhas intenções quanto à fotografia. Regra geral, quando vou a um concerto não levo a máquina, vou para ouvir música. Quando levo a máquina tenho esse papel de documentar e digamos que faço parte da banda. Além disso, dou aulas de fotografia. Infelizmente (risos)…

 

Vera Marmelo – Comecei a fotografar concertos porque os meus amigos são músicos, a maior parte deles de outras áreas que não o jazz, e eu, tal como o António, não tenho qualquer dom para a música. É uma forma de me manter perto deste meio de que tanto gosto. Está ali a primeira pessoa que me fez entrar no Hot Clube para fotografar um concerto, Nuno Catarino. Foi esse o meu primeiro contacto com o mundo do jazz. Fotografo com cada vez mais vontade e afinco por causa dessa documentação da vida dos meus amigos. Em 2010, acompanhei um deles, o pianista Tiago Sousa, numa ida à Trem Azul para deixar uns discos para vender. Comecei então a frequentar a loja e as pessoas que lá ia conhecendo tornaram-se minhas amigas.

Estou a fazer cada vez menos concertos, mas acompanho as digressões de muitos músicos. Levam-me para fotografar, tratam-me muito bem e é isso que eu gosto de fazer. O objectivo é sempre conhecer as pessoas e passar tempo suficiente com elas para depois ser mais fácil retratá-las. A fotografia é um extra: sou engenheira. Faço as duas coisas e encaro-as com a seriedade com que devem ser encaradas. Conheci Hernâni Faustino, Rodrigo Pinheiro, Gabriel Ferrandini, Travassos, gente que agora me é muito próxima. Mais do que fotografar músicos, fotografo amigos.

 

Sensação plena

Rosa Reis numa das suas intervenções 

Existe efectivamente uma fotografia de jazz? De que estamos a falar em concreto? No que é que a fotografia de jazz se distingue de outro tipo de fotografias de concerto, a do rock por exemplo?

Rosa Reis – A minha emoção, a minha entrega, a minha procura de empatia com o músico é a mesma num concerto de rock ou de jazz. Mas a música é diferente e as imagens finais são, naturalmente, diferentes. As do rock são muito mais explosivas. As do jazz são, por regra, mais calmas. O rock é a cores, o jazz é a preto-e-branco, por ser mais emotivo. Mas isso tem que ver comigo, pois emociono-me com o jazz de uma forma que não acontece com o rock.

O tempo é outro factor determinante: se só temos cinco, 10 ou 15 minutos para fotografar, isso não é nada! Só por sorte algo acontece nesses primeiros 10 minutos. Em alguns sítios tenho privilégios, como no Estoril Jazz, no Seixal Jazz e na Culturgest, se bem que nesta só se possa fotografar o “soundcheck”. Por exemplo, no Seixal Jazz consigo ir às teias e fotografar de cima para baixo. Os músicos nem sequer se apercebem que eu lá estou. É necessário muito tempo para fazer as coisas.

 

A mesma pergunta vai para o Carlos, que já foi baixista de rock. Um antigo músico de rock a fotografar jazz: como é que é isso?

Carlos Paes – O rock não proporciona a mesma vivência que sinto ao fotografar jazz. É preciso haver um certo intimismo com quem está em cima do palco e os músicos de jazz mostram-me essa particularidade. Eles dedicam-se ao seu instrumento e à sua música de uma maneira a que eu próprio nunca me dediquei quando fazia rock. E isso é importante. Conseguem passar para o meu lado uma sensação plena daquilo que estão a fazer. Um músico de rock toca muito para a pose e por vezes não sente a música que está a fazer. No jazz é o contrário. Mesmo quando não é calmo, como a Rosa diz, porque há um jazz muito violento, esse intimismo, essa entrega, existe.

 

Nuno, tu também fotografas rock… Há uma iconografía rock e uma iconografía jazz?

Nuno Martins – Acho que não, que admitir tal coisa seria estereotipar o mundo do jazz e o mundo do rock. No rock pode não haver pose, assim como no jazz pode haver pose e muita. É o caso de John Zorn (risos). Tem mais que ver com quem está a fotografar e a forma como sente o que está a fotografar. Acho que passa mais por aí. É tudo relativo. Se fizermos essa separação também estamos a caracterizar dois mundos que são muito diferentes, não entre eles, mas dentro deles. Não há absolutos.

 

Carlos Paes – É isso, sim.

Carlos Paes 

Nuno Martins – Por exemplo, houve concertos de rock que gostei imenso de fotografar e outros de jazz que não apreciei tanto.

 

Há uma série de fotos do António no último disco do Humanization Quartet, “Live in Madison”, que na sua maior parte não são dos músicos, mas sim do público…

António Júlio Duarte – Porque me interessa muito mais, no acompanhamento de uma banda, apanhar a assistência. Tenho uma maneira de fotografar muito pouco ortodoxa, digamos. A maior parte das bandas ou dos espaços nunca me deixaria fotografar como eu fotografo. Geralmente trabalho com “flash”, lente normal, em cima do palco. De certa maneira, sou mais um elemento do grupo que está no palco e que faz uma espécie de performance. Fotografo o público também com o “flash”. Portanto, crio uma grande relação com tudo o que se passa à minha volta. Sou tudo menos um fotógrafo discreto, talvez porque a minha estética deriva do punk, a música que comecei a ouvir. Aliás, interessei-me por fotografia por causa das capas dos discos de punk que ouvia quando era pequeno. Os de Patti Smith, por exemplo.

As fotografias que mais me interessam, hoje em dia, são as feitas aos primeiros músicos de blues. São fotos tiradas com equipamento anterior às Laicas, fotos com “flash”, muito duras. É com isso que me identifico. A partir de certa altura impõs-se uma certa tradição de fotografar o jazz e quase todos os grandes fotógrafos o fizeram e bem, como Lee Friedlander e Roy DeCarava. No rock isso já não aconteceu, pois há várias áreas. Muda-se muito em termos de imagem, pois há projectos para o grande público e projectos para minorias. Os projectos mais comerciais exigem uma máquina promocional e um tipo de imagem que se aproxima mais da fotografia de moda, altamente sofisticada.

Um caminho paralelo, e tanto do lado dos fotógrafos como dos músicos, é o de uma música mais pessoal em que os músicos têm uma liberdade de criação maior e por arrasto os fotógrafos também. Não faço, pois, distinções entre jazz, rock ou seja o que for. Tem mais que ver com o público que vai consumir. Não podemos comparar, uma coisa será fotografar com Madonna e para a Madonna, e outra coisa é fotografar com Peter Brotzmann. 

Sem definição

António Júlio Duarte 

Não se trata, portanto, de uma questão iconográfica?

António Júlio Duarte – As necessidades da iconografia são diferentes porque os públicos são diferentes. Voltando novamente à Madonna, há uma necessidade iconográfica que deve atingir toda uma audiência e que tem de criar um determinado tipo de desejos, enquanto uma iconografia jazz tem outra atitude. São canais diferentes, com iconografias diferentes.

 

Hervé Hette – Acho que não há uma iconografia específica do jazz, pela simples razão de que o jazz é um grande saco: o que não cabe noutro sítio é jazz. Não há uma definição certa do que temos de mostrar. Os próprios músicos não sabem muito bem que imagem querem passar. O que mais gosto de fotografar no jazz são os ensaios. O jazz é uma música largamente improvisada e nos ensaios da Culturgest apanhei músicos que não faziam a mínima ideia do que é que iriam tocar três horas depois. O que significa que nós também temos de improvisar.

Num concerto de rock, conhecemos o início, o meio e o fim de uma canção. No jazz, não. Temos de nos adaptar às situações e se os músicos não sabem o que vão fazer, nós ainda menos. Isso dá-me um gozo do caraças! É muito engraçado ver o trabalho que se faz nos ensaios com os instrumentos. Gosto muito e por isso estou a preparar uma exposição sobre a relação dos contrabaixistas com o instrumento. Parece que eles estão com a mulher da vida deles. Não sabem o que vai sair dessa relação, não sabem. Só o descobrem quando estão entre uma nota e outra. Isto no rock não existe, na música clássica não existe, e é precisamente o que temos de tentar apanhar numa fracção de segundos. É isso que é difícil no nosso trabalho: conseguir apanhar aquele momento especial de que ninguém está à espera. É nisto que se diferencia a fotografia de jazz.

Hervé Hette falando 

Vera Marmelo – Fotografo toda a gente da mesma maneira. Mesmo quando se trata de um pintor no seu “atelier” faço tal e qual como costumo fazer. Não há alterações na forma como procuro as imagens. Mas é verdade que existe um tipo de fotografias para o pessoal do jazz e outro para o pessoal do hip hop. A malta do hardcore tem um tipo de imagem que é toda igual, feito de “flashadas”. O que os miúdos pretendem ver é aquilo que lhes dá pica naquele tipo de música. No hip hop há aquela coisa do poder, para cima e para baixo. Nem sequer consigo imitar aquilo, porque não o sei fazer e porque não o quero fazer. Também por isso fotografo toda a gente da mesma maneira. Sejam os Orelha Negra, Sam the Kid ou Gabriel Ferrandini. Fotografo o Gabriel baterista da mesma forma que fotografo o Fred, baterista dos Buraka Som Sistema e dos Orelha Negra.

Quando faço um retrato da Márcia sei que as pessoas que ouvem a música dela querem ver uma miúda fofinha. Se for uma banda de hardcore querem o picado. Só que eu não faço assim, não sou capaz. Tenho uma relação com as imagens um bocado atípica. Ou gosto ou não gosto. Não me preocupa se é um músico de jazz. É só mais um tipo a tocar, envolvido por uma luz e uma série de elementos interessantes. Divirto-me. Quando se trata de alguém que se conhece muito bem, sei quais são os tiques da pessoa e o que vai acontecer a seguir. Chega-se também a um ponto em que não sei o que posso fazer mais. É então que me viro para o público, o que também pode ser divertido.

 

Rosa Reis – Eu até gostava que o jazz fosse mais improvisado. Sabem porquê? Porque odeio aquelas pautas que estão sempre a interceptar na imagem. Então, onde é que está a improvisação?

 

Vera Marmelo – Eu estou cheia de sorte, Rosa, nunca apanhei ninguém com pauta. 

Uma troca de olhares

Vera Marmelo 

Rosa Reis – Aprendemos o quê? A jogar com as pautas e com esses obstáculos todos, o que também é interessante. Ando ali na estética, a jogar com ângulos bonitos para os enquadrar e querer dizer mais qualquer coisa. Porque a ideia é falar sempre um pouco mais. Tu fazes uma fotografia muito “engagée”, envolves-te com os músicos, tens uma relação com eles, mas eu tenho um problema: chego ali e é o desconhecido. Preciso de criar uma empatia com eles. Com alguns consigo isso. Estou a fotografar e há uma troca de olhares, o que ajuda muito o meu trabalho.

 

Nuno Martins – O pior é quando nos aparece um que é antipático...

 

Hervé Hette – Às vezes é o inimigo. Uma das últimas fotografias que fiz com Bernardo Sassetti, que se tornou meu amigo, quase entrei dentro do piano. Senti que a música estava a pedir isso. Estava concentradíssimo. Ele compreendeu bem a situação, aliás não se importava nada de me ver por ali, a rondar. Tinha a noção de que a minha presença fazia parte da coisa. Quando as pessoas que estamos a fotografar compreendem o nosso trabalho, isso facilita muito. Há outros que não querem mesmo, parece que somos o inimigo.

 

Rosa Reis – Mas o Bernardo era diferente. Ele próprio fazia fotografia. Quando o fotografava na Culturgest, perguntava-lhe: «Bernardo, não te importas que eu me chegue?» E ele dizia-me sempre: «Chega-te, chega-te, não te preocupes.» Tenho uma fotografia dele que nunca mostrei, mas vou fazê-lo: uma macacada que ele faz quando estou a focá-lo. Mas há outros que temos de fotografar de longe. Há de tudo. A maioria colabora, comunica e deixa-nos fazer um bom trabalho.

 

Como é que vocês situam a fotografia de jazz? Trata-se de fotojornalismo, de simples documentação ou entra-se pelos domínios da fotografia de arte?

Vera Marmelo – Nem sequer penso sobre o assunto. Vejo os dossiês com os negativos e os discos externos e encaro aquilo só como trabalho documental, mais nada. Estou a documentar a música. Tenho passado muito tempo no Estúdio Namouche e o que me pedem é «vem ter connosco para termos isto documentado». Não entendo esta actividade como arte e não conto histórias como no fotojornalismo. São memórias visuais, e são de músicos como poderiam ser se pessoas com qualquer outra actividade. Tenho até a impressão de que não faço as coisas como devia – nunca levo lentes para substituir. Fotografo sempre com a mesma e a 50 não dá para apanhar toda a gente que está a tocar. Regra geral foco numa só pessoa.

 

António Júlio Duarte – Não sei, faço as fotografias que me dá gozo fazer. Tenho a preocupação de fazer imagens que possam ser úteis para os músicos, como documentação dos concertos. Tocou-se aqui, tocou-se ali, naquela sala, mas não compartimento as coisas. Faz tudo parte de um projecto pessoal e essas fotografias podem transitar, posso juntá-las a outras imagens. Ou eles podem estar a tocar e eu estou a fotografar os cabos do chão. É uma interacção. Esses nomes todos, essas definições, se é fotografia artística, se é fotojornalismo, se é fotografia documental, são todas muito pesadas e quanto a mim não fazem muito sentido. Geralmente, quando se fala de fotojornalismo versus fotografia de autor, está-se a desprezar o factor jornalismo. O fotojornalismo é um dos campos em que mais se revelam autores, portanto, há uma mistura. É estar a criar hierarquias onde elas não deveriam existir.

Tudo depende da atitude com que se vai para o trabalho. Se eu tivesse de trabalhar para um jornal e me dissessem «agora tens de ir fotografar um grupo», a minha atitude poderia ser a de encher chouriço. Se estou a ter gozo, se estou a interagir com as pessoas que fotografo, é trabalho pessoal que desenvolvo. Se esse trabalho é útil para mim e para eles, óptimo. Mas não o compartimento, pois nesse caso estaria a fazê-lo por obrigação, quando o faço por espírito de comunhão com os músicos.

Nuno Martins no uso da palavra 

Nuno, essa perspectiva documental é importante para ti, dado seres historiador?

Nuno Martins – Não me preocupo com isso, quando fotografo limito-me a ir registando momentos. É óbvio que, quando a jazz.pt me pede para ir fotografar determinado concerto, tenho a preocupação de registar o líder do grupo ou seja quem for que esteja mais em destaque, mas as fotografias mais espontâneas que me saem são aquelas com que não estou com essa preocupação de fotografar o músico “a” ou “b”.

Mas notem que estamos a falar de fotografia jazz e não chegámos à conclusão se tal existe de facto. Aliás, o jazz é um gavetão onde cabem muitas coisas e eu nem me preocupo em saber se é jazz ou não. É música que é transgressiva, que não encaixa num sítio ou noutro, e na fotografia isso também acontece: não é documental nem artística. Talvez tenha um pouco de tudo, mas o importante para mim são os momentos. 

Dez entre 100

Rosa Reis fotografando Yaw Tembe 

Carlos Paes – No meu caso tem que ver também com as condicionantes daquilo que vamos fotografar. Dou um exemplo: quando a jazz.pt me pede para ir fazer fotografias de um concerto no Grande Auditório do CCB, sei à partida que aquilo vai ser muito mau. Impõem-nos que fotografemos nos primeiros cinco minutos e lá de trás. Em 100 fotografias que possa tirar, vou aproveitar 10. Vou com o espírito de fazer uma foto-reportagem, tento apanhar os músicos o melhor possível e entrego o trabalho, sem meter a alma no processo. Se está bem enquadrado e bem iluminado, segue caminho. Se noutro espaço mais favorável consigo uma relação comigo e com os músicos, em que consigo estar perto do palco e tenho mais tempo para fotografar, então já tento levar a coisa para outro lado. Já não estou a fazer uma foto-reportagem, tento captar expressões, que é algo que gosto muito de fazer. Nesse nível começa a ser um trabalho de autor.

 

Rosa Reis – Faço assumidamente fotografia documental e de autor. E tenho sempre preocupações estéticas com os meus trabalhos, como aconteceu com as encomendas documentais que fiz para museus. O meu trabalho de autor tem objectivos de publicação, de apresentação em exposições ou pura e simplesmente para meu prazer. Em algumas residências artísticas consegui fazer as duas coisas. A última foi no Carpe Diem durante um ano: quis mostrar o que faziam os jovens artistas que se tinham cruzado comigo. É isso que me interessa, a vivência dos espaços. Realizei igualmente um projecto na área mais autoral em que praticamente não há pessoas – elas aparecem na penumbra, não se sabe quem são. Quando estou no jazz, é um trabalho de autor, também, que quero realizar.  

 

Hervé Hette – Quando me pedem um trabalho para publicação a primeira coisa que faço é: tiro o líder, tiro a banda, depois tiro uma fotografia de cada um e está feito. O editor não me vai chatear, já tem o que queria. Depois começo a fazer fotografia mais de autor. Não se trata de fotojornalismo. Há mestres em Portugal que o fazem bem melhor do que eu poderia fazer, como Luís Carvalho.

Hervé Hette fotografando Ricardo Ribeiro 

Nuno Martins – Tenho estado a colocar umas fotos no Google+ e a que pus ontem foi uma dos pés da cantora de um grupo. Se eu tivesse enviado essa fotografia ao editor da jazz.pt ele com certeza iria gostar da imagem, mas não lhe serviria para os objectivos editoriais da revista. É esta a diferença entre fotografia de autor e fotojornalismo.

 

Pergunta do público – Achei estranho que três de vocês ponham em causa as “gavetas” e que não reconheºam a importância que um cânone tem para um bom artista. Quando se entende uma foto-reportagem e um poema fotográfico da mesma maneira, algo está errado. Nada tenho contra uma pessoa que usa sempre o mesmo estilo, o que acho é que deve ter consciência das limitações que isso traz. Não reconhecer os cânones pode ser prejudicial. Saber em que campo se está a fazer algo não ajuda o fotógrafo a ser melhor?

Vera Marmelo – É uma sorte minha poder dar-me ao luxo de fotografar as coisas que me aparecem sem ter de pensar «isto é um trabalho para um jornal» ou «isto é para uma campanha de promoção». Ou seja, a questão das “gavetas” não se me coloca. O certo é que quando olham para uma fotografia minha as pessoas identificam a sua autoria. Pode ser a foto do filho de um amigo meu com quem estive a lanchar não sei onde ou o retrato de um músico conhecido. Sento-me à frente de uma criança com 2 anos da mesma maneira como me sentei à frente de Thurston Moore. Não consigo sequer fazer essa separação na minha cabeça. Mas também é verdade que não sou fotógrafa profissional e que não tenho de cumprir com as regras. Prefiro essa liberdade. É a minha abordagem, a minha maneira de fazer.

Nuno Martins fotografando Yaw Tembe 

Pergunta do público – Mas o que é que fica melhor numa revista? Quando não posso ir a um concerto, procuro depois por fotografias que me mostrem o ambiente, o espaço onde aconteceu, a intensidade que se viveu. Mas também gosto de ver fotografias de pormenores, aquelas que já não são propriamente “jornalísticas”. Julgo que não se trata de uma questão de profissionalismo – simplesmente, há pessoas que têm uma maneira especial de olhar e de escutar, de estar e de fotografar o silêncio. Sim, porque uma fotografia não é som, não é possível fotografar o som…

Nuno Martins – Acho que tudo isto tem que ver com o tema da autonomia da imagem. Muitas vezes, a fotografia é encarada como um complemento do texto escrito, e eu acho que isso é errado. A fotografia deve ser entendida autonomamente. Pode estar associada a um texto, mas não tem necessariamente de assumir um carácter ilustrativo. Deve falar por si própria. Deve ser um texto visual. É por isso que eu defendo que faz todo o sentido incluir a tal foto dos pés da cantora.