John Abercrombie, 30 de Dezembro de 2013

Operário guitarrista

texto Gonçalo Falcão

Ficará para sempre conhecido como um dos guitarristas maiores do jazz, mas vê-se a si mesmo como um «trabalhador da guitarra». Apesar de uma gripe, John Abercrombie conversou com a jazz.pt sobre a sua música, o seu novo disco hitchcockiano, “39 Steps”, a sua carreira e as suas guitarras. Entrevista com um casaco quente e um Brufen.

 

Começo por lhe perguntar sobre o seu som de guitarra: ao ouvir com cuidado o novo disco - “39 Steps” - fiquei com a sensação de que é a gravação em que o som da sua guitarra está mais “limpo”. Soa inquestionavelmente ao estilo Abercrombie, mas não há acidez, saturação, distorção... Isso tem vindo a acontecer gradualmente nos seus últimos discos. Está mais clássico.

Sim, sem dúvida…

 

É um processo pensado? Algo que planeou?

Sim, é uma coisa pensada. Sabe, eu estou a ficar velho, pelo que regressei a um som mais simples, a uma forma mais simples de fazer as coisas. Gosto de tudo o que fiz antes, dos efeitos, mas agora prefiro um som mais redondo, mais quente, mais claro. Quero estar mais claro. Ainda uso um bocadinho de reverberação e alguma distorção de vez em quando, mas... O novo disco não tem distorção absolutamente nenhuma. Gosto disso.

Não preciso de distorção. A distorção é boa, mas é mais uma maneira de nos expressarmos, de construirmos um som expressivo, mas acho que, se conseguir um som expressivo, não preciso de lhe adicionar efeitos. Ainda necessito de um bocadinho de “reverb”, porque não gosto do som seco do amplificador. Só “reverb”. Já não preciso de mais nada.

 

O novo disco, “39 Steps”, tem referências ao cineasta Alfred Hitchcock. De que maneira é que o realizador foi importante? É uma questão de imagens, da forma como conta a história?

O único tema em que realmente pensei nisso foi o “39 Steps”, porque quando escrevi a música verifiquei que ela tinha exactamente 39 compassos (risos)…

Contei-os... Eram 39.... Então lembrei-me do filme “39 Steps” e achei que era um bom título. E pensei que o Hitchcock tinha imensos títulos bons! Então chamei a uma outra composição “Vertigo”, porque o andamento muda de um 4/4 para um 6/4. Não é uma explicação muito glamorosa, mas foi assim. Marc Copland chamou a outra de “Spellbound”. Outra peça é uma improvisação total a que chamámos “Shadow of a Doubt”, que também é uma película do Hitchcock. A outra chamámos “Greenstreet”, que nada tem que ver com o realizador, mas porque a escrevi para um actor inglês chamado Sydney Greenstreet, que fez filmes como o “Maltese Falcon”, de John Huston. É um actor antigo, de quem gosto bastante. É só isso. Não há outros motivos para além de gostar de Hitchcock…

 

Mas não é um fã...

Não fico doido com os filmes dele, mas vi o “Psycho” vezes sem conta. E gosto imenso do “39 Steps”, que é um filme extraordinário.

Sabe bem

 

Falou em Marc Copland. O trabalho que desenvolveu com ele parece a união perfeita, dada a sua forma actual de tocar guitarra. Pode falar-nos da sua relação com Copland?

Conheço o Marc desde 1970, quando me mudei para Nova Iorque e ficámos amigos. Dividimos um apartamento e tocámos imenso na altura. Naquele tempo ele tocava saxofone. Íamos a “jam sessions”juntose depois começámos a trabalhar ambos com Chico Hamilton. Em determinada altura o Marc decidiu que já não queria tocar saxofone e que o seu som estava no piano. Mudou para o piano e mudou de cidade, foi-se embora de Nova Iorque. Eu fiquei e deixei de o ver, porque ele foi para Washington e depois mudou-se para a Califórnia. Quando finalmente regressou para a Costa Este, voltámos a tocar juntos novamente e estabelecemos uma óptima relação entre a guitarra e o piano. Temos um óptimo som juntos. Não é tanto a questão das harmonias, mas o facto de os nossos sons se incorporarem de uma forma bem interessante. Quando ele toca sabe-me bem, soa-me bem. E gostamos do mesmo tipo de músicas.

 

No Guimarães Jazz deste ano tocou com uma orquestra, a WDR, dirigida por Jim McNeely, mas julgo que os trios e quartetos são o contexto que mais aprecia…

Gosto imenso de trios e quartetos, e mesmo duos, não só porque são situações mais íntimas, mas também porque me dão mais espaço para tocar. Com uma orquestra toca-se um pouco e pára-se, depois toca-se mais um pouco e pára-se novamente. Nesses contextos, toco a melodia como quero. Lá porque está escrita num papel não significa que tenho de a tocar daquela maneira. Eu nunca o faço! É por isso que isto de tocar com uma orquestra é tão difícil para mim. E foi mais difícil neste caso porque era a minha música, que já conheço tão bem e estou habituado a tocá-la de formas tão diferentes. Nesse concerto tive de estar superconcentrado, para não tocar mal a minha própria música (risos)…

O Jim fez um óptimo trabalho e simplificou-me as coisas ao máximo, mas mesmo assim tinha de contar os compassos e entrar nas alturas certas... A maior parte das vezes olhava para ele para me dar as entradas: ele mandava e eu tocava (risos).

 

O terceiro quarteto, com Mark Feldman no violino – em vez de um piano – pareceu-me um enquadramento natural. Foi uma surpresa a sua inclusão num grupo seu. Qual foi o seu plano?

Bem, eu sempre quis tocar com um violino... Gosto imenso do som do instrumento e gosto particularmente da forma como o Mark toca. Ele é o único que eu conheço que toca bem as minhas músicas e que improvisa com elas. São músicas complicadas. Tecnicamente complicadas e harmonicamente complicadas. Não são bebop.

Antes, eu tocava com o órgão de Dan Wall e fiz um álbum chamado “Open Land” que incluiu o Mark, Kenny Wheeler e Joe Lovano. Na altura pensei que queria continuar com o Feldman, mas sem os teclados. Foi essa a razão: queria ouvir a minha música em quarteto com o Mark. Dava-me a oportunidade de improvisar livremente num quarteto de música de câmara. Pareceu-me ser mais fácil neste contexto de quarteto de cordas, sem saxofones e teclados.

 

Mas não procura permanentemente situações novas e enquadramentos instrumentais estranhos. Prefere grupos estáveis e tocar em ambientes muito controlados.

Tento manter as bandas. Já é muito difícil ter uma banda, fazer com que ela funcione e tentar obter concertos e fazer digressões. Então, porque é que hei-de ter duas ou três? Se – paralelamente – alguém vier ter comigo e me disser que quer tocar, eu alinho. Se me disser que toca gaita-de-foles e que quer tocar comigo e com uma bateria e a sua música me interessar, eu toco. Mas tem razão, prefiro situações muito mais controladas. Ou melhor: eu não quero controlar as outras pessoas da banda, de todo, mas quero estar num contexto confortável em que me possa expressar, e o certo é que de vez em quando isso não acontece. As pessoas querem que eu toque com distorções e que entre em loucura e eu não quero fazer isso. 

40 anos mais velho

 

Outros guitarristas, como Pat Metheny, editam pontualmente discos fora do seu terreno. No caso dele o “Sign of Four”, com Derek Bailey, ou “Zero Tolerance”, só com distorções. Não tem estes desvios na sua carreira.

Gosto de manter uma banda o maior tempo possível, desenvolvendo tudo o que pode dar e depois encontrar outra. E nos intervalos fazer outras coisas. Para a ECM fiz o “Animato” com Vince Mendonza e todos aqueles sons sintetizados: esse disco foi bastante experimental. Muito ECM, muito lírico, mas mesmo assim muito diferente das minhas bandas. Depois fiz um projecto com Jan Hammer, Michael Brecker e Jack DeJohnette que nunca foi para a estrada. De vez em quando faço projectos que não se transformam em bandas. Mesmo assim não são projectos loucos ou completamente diferentes do que faço. Nunca faria um projecto totalmente free, deixando cair moedas nas cordas, porque já há muitos tipos bons a fazer isso...

Algumas pessoas ainda acham que toco da maneira que tocava quando gravei o “Timeless” em 1974. Dizem-me: «Adoro o “Timeless”. Podes tocar como tocavas no “Timeless”?» E eu respondo-lhes: «Estou 40 anos mais velho...». Eu era um miúdo na altura. Já não sou aquela pessoa: mudei. Ou espero ter mudado! Faço questão de mudar, ainda que muito devagar. O que faço a seguir não precisa de ser diferente.

O “feeling” que tenho com o grupo do Copland é o de não ser diferente do que eu normalmente faço. Dizem-me que funciona bem e eu concordo. Quando inseri o violino perguntaram-me: «Porquê um violino?» E porque não um violino? Não quero uma flauta, quero um violino. Gosto de mudar devagar, de desenvolver as coisas e de fazer com que as frases saiam melhor, sendo um guitarrista melhor. Não é ser mais rápido e subir e descer o braço da guitarra mais depressa, mas tocar melhor, tentar tocar o melhor que consigo.

 

Ouve guitarristas como Derek Bailey? É um mundo da guitarra que lhe interessa?

Aprecio... Depende. Já estive nessas situações e já toquei bastante assim... É um dichote antigo, mas verdadeiro: é mais divertido tocar assim do que ouvir. Eu não consigo ouvi-lo durante muito tempo. Ouvi várias pessoas tocar aquilo a que se chama música experimental, mas não sei se é tão experimental assim. Não é o que eu faço, mas… E se a minha música também for experimental? Eu acho que a minha música é experimental. Só porque alguém está a fazer coisas com electrónica ou porque está a tocar a guitarra de forma não tradicional não quer dizer que seja mais experimental do que eu. Ou sequer que esteja a descobrir coisas novas: pode estar só a fazer aquilo que outras pessoas fazem nesse campo. Todos nós temos os nossos campos. As pessoas que tocam free music desenvolvem uma linguagem que eles compreendem, mas nem toda a gente o consegue fazer.

 

Disse: «Sou 40 anos mais velho do que no “Timeless”.» Queria aproveitar para lhe perguntar sobre o rock que se ouve nessa gravação e no “Gateway”. Já não ouve rock?

Não, já não ouço rock. Não é que não goste, nada tem que ver com gostar ou desgostar. Quer dizer… se for ao Youtube, sou capaz de ver um “clip” de Eric Clapton a tocar quando ele era novo. Acho que ele é bom. Quando eu era jovem e alguém me punha um disco dos Cream eu pedia-lhe para tirar. Agora, acho que eles até eram bons. Quando ouvi Jimi Hendrix pela primeira vez, queria era tomar LSD: ele era perfeito, ele era o céu. Era um músico a sério. Não era jazz, mas não me importava, era o que eu gostaria de ser. Claro que a sua música me influenciou, mas eu não comecei no rock. Correcção: comecei a tocar rock dos anos 1950 – Chuck Berry, Elvis Presley – para tentar conhecer raparigas, mas tratava-se dos anos 50 e as coisas eram muito diferentes. Depois, fui aprender jazz.

Ouvi Dave Brubeck, ouvi Barney Kessel, ouvi o Miles inicial e não havia ninguém para me ensinar jazz na cidade onde vivia: cresci numa cidade pequena. Então fui para a Berkeley  School of Music. E assim que entrei lá não me podiam falar mais em rock ’n’ roll, porque me tornei um “snob” jazzístico, com o nariz levantado. Rock ’n’ roll era pffffff... Eu era um músico de jazz! Alguns anos mais tarde, quando apareceu a fusão, quando o Jimi e os Cream e os Beatles, toda essa gente, entraram numa consciência mais global, as coisas uniram-se e as pessoas começaram a formar bandas e eu comecei a ouvir tudo. Fez sentido para mim, tal como fazia John Coltrane.

Mas já não ouço. Só de vez em quando no Youtube. Quando me sento em casa e decido ouvir alguma coisa, normalmente ouço coisas que já ouvi. Acho que faz parte do processo de envelhecer. Quero evoluir e ficar sempre melhor e olhar para o futuro, mas também gosto de olhar para trás e ver o que as pessoas faziam. Por isso, se estou em casa ponho Bill Evans, por exemplo, algum Miles ou Glenn Gould a tocar Bach. Não ponho um tipo a bater com uma guitarra na parede. Mas se entrar numa sala de concertos e estiver alguém a tocar dessa forma, possivelmente interessa-me. Ouço, não sou contra. É como ir àquele restaurante onde sei que têm aquele prato que é mesmo o que eu gosto. É mesmo isso de que preciso, aquela salada, aquele vinho... Satisfação, preciso de satisfação. É essa a forma como consumo música actualmente: procuro música que sei que me satisfaz, mas se as pessoas me apresentam alguma coisa nova eu ouço. 

Como ser actor

 

O seu trabalho musical está profundamente associado à ECM. Grava para a editora há muitos anos, mas recentemente também para a Pirouet de Marc Copland e para a SteepleChase. É por ter contextos musicais que não encaixam no perfil ECM?

Sim, normalmente é por essa razão. Porque sei que não posso depender da ECM e de Manfred Eicher para a minha vida e também porque há outras coisas que também quero fazer. Porém, se vir bem, a maior parte dos CDs que gravei não foram para a ECM. Tenho uns 200 editados por todo o lado. Alguns são francamente maus e outros realmente muito bons. Em alguns toco um jazz clássico. Faço estas diversas gravações por vários motivos: porque não encaixam na estética da ECM ou porque não são projectos meus, são de outros músicos que me convidam para tocar. Há quem venha ter comigo a dizer que aquilo não é ECM. Eu digo-lhes que toco outras coisas para além da ECM. É como ser actor e só fazer o papel do mau – caminha-se na rua e as pessoas olham para nós com ódio, como se fossemos um assassino. Um dia vêem-nos numa comédia ou a fazer um papel diferente e comentam: «não pode ser o mesmo gajo, ele não encaixa naquele papel». Mas talvez esse gajo seja como eu, que gosto de fazer outras coisas que não encaixam no perfil da ECM.

 

Quando penso na ECM, penso sempre em Keith Jarrett, Jan Garbarek e em si. É um dos pilares da empresa, um daqueles que está indelevelmente associado ao som e ao tipo de música da editora. Sente esse peso, essa presença? Ao contrário do rock, no jazz as pessoas seguem as editoras que acham que transportam uma determinada corrente musical: a Impulse, a Blue Note, a ECM...

Não me vejo dessa forma. Sei que as pessoas o fazem, porque é a principal etiqueta para a qual gravo. Creio que a maior parte do meu melhor trabalho foi lá editada, mas não me vejo como parte da empresa ou membro do seu património. Dizem-me que eu defino o som de guitarra da ECM, mas nem sei o que isso é! Se ouvir os guitarristas que gravaram para a ECM percebe que isso não existe: há um Ralph Towner, um Terje Rypdal, um Pat Metheny, um Bill Friesel…

 

Derek Bailey no início...

Derek Bailey no início, sim. Não me sinto como parte de uma grande festa ECM, em que nos juntamos todos numa mesa e está lá o Keith e o Garbarek e bebemos todos vinho a celebrar a ECM. Eu nem os conheço! Não funciona assim.

 

Para o público, para o ouvinte, é um dos pilares da ECM...

Sim, eu sei e faz sentido, mas não sei se os músicos... O meu caso é diferente. Keith Jarrett e Jan Garbarek nunca gravam para outras editoras. Terje Rypdal também não. Esse não é o meu caso: se vir uma discografia minha, há uns 200 discos que vão dos blues e da fusão até aos “standards”. Pelo menos 60% deles são maus. Vejo-me como um “working guitar player”. Sou um guitarrista. Sim, eu tenho uma maneira própria de tocar e algumas pessoas reconhecem-me, mas...

 

...tem um som próprio e único...

Talvez, sim, mas não tenho essa consciência. Sou um “working guitar player”, sou como um operário. Comecei a tocar em grupos de espirituais porque era o que havia. Quando fui para Nova Iorque, comecei a tocar com Chico Hamilton. Depois conheci o Mike e o Randy Brecker e eles tinham a banda Dreams. Comprei um pedal wah-wah e comecei a tocar com eles, porque eles me pediram. Não tinha um estilo, era demasiado novo. Tinha influências e usava-as. Aceitava qualquer concerto. Diziam-me que havia uma “jam” num determinado sítio e eu ia, estava lá. Depois pediram-me para gravar e eu ia para o estúdio tocar guitarra. Lembro-me de uma sessão de Gato Barbieri e de estarem lá Roy Haynes, Stanley Clarke, Airto Moreira, toda esta gente famosa. Eu era um zé-ninguém. Era o guitarrista: «Muito prazer, chamo-me John...» Ninguém sabia de mim. Fazia isto porque eu era um operário guitarrista e precisava de ganhar dinheiro e de conhecer músicos, de tocar com gente boa.

 

Pergunto-lhe agora sobre a sua técnica e em particular sobre a palheta. Houve uma altura em que deixou de usar palheta e passou a tocar só com o polegar…

Já não me lembro quando - exactamente – isso aconteceu. O que sei é que os guitarristas, em casa ou no quarto de hotel, pegam na guitarra descontraidamente e tocam com os dedos. Cada vez que eu fazia isso sabia-me bem. Uma noite decidi tentar isso num concerto. Pensei que não viria mal ao mundo, que ninguém sairia da audiência revoltado a reclamar: «Hey! É melhor utilizares a palheta que eu não gosto desse teu polegar. Quem é que pensas que és, Wes Montgomery?». Decidi continuar a fazê-lo e hoje em dia já nem consigo usar a palheta.

 

Qual é a sua relação com as guitarras? É daquele tipo de guitarristas que tem uma guitarra especial e só toca com essa ou gosta de variar e trocar de guitarras?

Mudo imenso de guitarras. Durante muitos anos tive só uma guitarra. Uma das grandes razões para só usar aquela era ser a única que pude comprar. Não tinha dinheiro para mais. Tinha uma Gibson L7, que foi a minha primeira boa guitarra. Era como a L5, a de Wes Montgomery, mas mais barata. O anúncio dizia que a L7 era a “workingman’s L5”, pelo que era perfeita para mim. A L5 estava reservada para estrelas como o Wes ou Tal Farlow, mas toda a gente podia comprar uma L7. Um dia, um amigo guitarrista que estava a tocar comigo emprestou-me uma Les Paul preta e eu adorei. Tocava alto e não havia “feedback”, era incrível. Então comprei uma Les Paul e mais tarde uma segunda Les Paul. Deixei uma com um amigo e ele divorciou-se, a mulher ficou em casa e a guitarra desapareceu. Fiquei novamente só com uma Les Paul preta. E ainda tenho uma em casa, adoro o som quente da Les Paul.

 

Só uma pergunta final. Eu sei que é aborrecida e ainda por cima já é tarde e está cansado, mas não resisto a fazer-lha mesmo assim... Tem uma marca favorita? Aquela guitarra que acha mesmo fantástica? E o amplificador perfeito? Os pedais perfeitos? Quais são os seus “tops”, as suas marcas de eleição...

Não tenho. Amplificadores, definitivamente não. Cada noite toco com o amplificador que houver na casa. Hoje toquei com um Rolands Jazz Chorus, que é muito bom. Um pouco brilhante, mas bom. Sei o que faz, conheço-o bem. Os amplificadores não me interessam. Desde que não estejam partidos e dêem som, está tudo bem para mim (risos).

Não tenho preferência entre válvulas ou transístores, isso não me interessa. A única coisa de que gosto é de “reverb” e prefiro o digital ao de mola. O de mola tem sempre aquele som metálico que irrita - doing-doing-doing. Ouve-se a coisa lá dentro. Detesto aquilo.

Nas guitarras... nem por isso. A guitarra que estou a tocar agora foi feita à mão por um tipo de Nova Iorque chamado Rick McCurdy. É uma Les Paul intermédia com uma ponte de madeira e abertura acústica. É uma espécie de “archtop Les Paul”.. É estranha, mas gosto dela. Não tenho uma favorita, mas gosto de guitarras que tenham som de guitarra. Tenho medo de tocar uma “archtop” grande, porque não se pode tocar alto, faz “feedback”... E é demasiado grande para os aviões, uma chatice. É boa para ter em casa e mostrar aos amigos: «Queres ver a minha belíssima D’Angelico?» ou «preferes a minha famosa Benedetto?», mas são para ficar em casa. São demasiado frágeis e demasiado grandes e têm demasiados problemas...

 

Não são para operários...

Não são para operários e gosto de guitarras intermédias. Como esta “archtop”. Quando tocamos soam como “archtops”, mas são mais pequenas. Ando sempre à procura de boas guitarras intermédias. As grandes não são boas, as pequenas não soam a guitarra, as intermédias são as minhas. As Les Paul são demasiado pesadas... As Fender... Bem, gosto das Telecasters e tenho algumas. As Stratocasters são demasiado rockeiras. Nunca encontrei uma em que conseguisse tirar o meu som. Gosto delas, mas não são para mim. Ainda não encontrei a minha guitarra perfeita, mas desta gosto. E é linda.

 

Para saber mais

http://www.johnabercrombie.com/

 

Discografia seleccionada

John Abercrombie: “Timeless” (ECM, 1974)

John Abercrombie / Ralph Towner: “Sargasso Sea” (ECM, 1976)

John Abercrombie: “Characters” (ECM, 1977)

John Abercrombie Quartet: “Arcade” (ECM, 1978)

John Abercrombie Quartet: “Abercrombie Quartet” (ECM, 1979)

John Abercrombie Quartet: “M” (ECM, 1980)

John Abercrombie / Ralph Towner: “Five Years Later” (ECM, 1981)

John Abercrombie / Mike Brecker / Jan Hammer / Jack  DeJohnette: “Night” (ECM, 1984)

John Abercrombie / Marc Johnson / Peter Erskine: “Current Events”  (ECM, 1985)

John Abercrombie / Mike Brecker / Marc Johnson 7 Peter Erskine: “Getting There”  (ECM, 1987)

John Abercrombie / Vince Mendoza / Jon Christensen / Judd Miller: “Animato” (ECM, 1989)

John Abercrombie / Dan Wall / Adam Nussbaum: “While We’re Young” (ECM, 1992)

John Abercrombie / John Surman / Marc Johnson / Peter Erskine: “November”  ECM, 1992)

John Abercrombie / Dan Wall / Adam Nussbaum: “Speak of the Devil” (ECM, 1994)

John Abercrombie / Kenny Wheeler / Joe Lovano / Mark Feldman / Dan Wall / Adam Nussbaum: “Open Land” (ECM, 1999)

John Abercrombie / Mark Feldman / Marc Johnson / Joey Baron: “Class Trip” (ECM, 2003)

John Abercrombie / Mark Feldman / Marc Johnson / Joey Baron: “The Third Quartet” (ECM, 2006)

John Abercrombie / Mark Feldman / Thomas Morgan / Joey Baron: “Wait Till You See Her” (ECM, 2009)

John Abercrombie / Joe Lovano / Drew Gress / Joey Baron: “Within a Song” (ECM, 2012)

John Abercrombie / Marc Copland / Drew Gress / Joey Baron: “39 Steps” (ECM, 2013)