Pedro Guedes, 18 de Abril de 2014

O sorriso de um “megalómano”

texto Rui Eduardo Paes

A Orquestra Jazz de Matosinhos começou o ano com um novo disco, “Jazz Composers Forum – Today’s European – American Big Band Writing”, que é o fruto da série de concertos em Matosinhos que, no ano passado, realizou com convidados de luxo como Ohad Talmor, Pierre Bertrand, Darcy James Argue, Steven Bernstein, Guillermo Klein, Florian Ross, Julian Arguelles e Frank Vaganée, figuras de topo no que respeita ao actual “bigbandismo”.

No CD, a orquestra interpreta peças inéditas (encomendadas pela própria OJM) destes compositores com uma entrega e um refinamento que confirmam a dimensão internacional do projecto coordenado por Pedro Guedes e Carlos Azevedo. É um disco de antologia, daqueles que ficam para a história e que são como que a cereja no topo de um bolo constituído por múltiplas aventuras com nomes como Carla Bley, John Hollenbeck, Maria Schneider e Kurt Rosenwinkel. Nas linhas que se seguem, Guedes explica como tudo aconteceu e faz o ponto da situação daquele que é o projecto mais ambicioso alguma vez existente no jazz português…

 

O que é o “Jazz Composers Forum”, essa série de concertos que se tornou num disco?

O Jazz Composers Forum foi um ciclo de concertos que realizámos no Teatro Constantino Nery em Abril e Julho de 2013, com oito compositores, quatro da Europa e quatro das Américas, em que interpretámos a música já escrita pelos nossos convidados, e simultaneamente encomendámos uma peça nova que foi estreada no concerto. A iniciativa foi nossa e contou com o apoio dos nossos habituais parceiros (Câmara Municipal de Matosinhos e Direcção-Geral das Artes), bem como o apoio financeiro de fundos comunitários através do QREN/ON2.

O grande objectivo deste ciclo de concertos é estarmos em contacto com os compositores que escrevem para este tipo de formação. É nossa pretensão que este ciclo não se esgote neste momento, já que pretendemos repetir no futuro e desta forma continuar a disponibilizar o instrumento OJM aos compositores/músicos.

 

Para uma actividade como o Jazz Composers Forum, a concepção deste “Today’s European-American Big Band Writing” e o próprio trabalho diário da Orquestra Jazz de Matosinhos é necessário ter uma definição concreta daquilo a que se vai chamando “bigbandismo”. Qual é a sua e de Carlos Azevedo?

A minha noção de “bigbandismo” é alargada, e está expressa no historial de colaborações e projectos que temos tido. Já tocámos repertórios que estão na génese das orquestras de jazz, já tocámos repertórios contemporâneos e experimentais e temos uma preocupação continuada de apoiar a criação de novos repertórios para “big band” através da encomenda a compositores portugueses e estrangeiros. Essa visão alargada originou também que a OJM já tivesse colaborado com formações de outros géneros musicais (Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, Remix Ensemble e Drumming), tivesse tocado com outra “big band” (WDR Big Band) e já tivesse feito concertos com cantoras de outra áreas musicais como Maria Rita e Mayra Andrade.

 

Há quem entenda o jazz para big band quase como um subgénero dentro de um género, com regras e características à parte e, designadamente, uma diferente noção da história: reproduzir fórmulas próprias do orquestralismo do swing, por exemplo, não é considerado “demodé”. O que pensa sobre isto?

Não creio que o jazz para “big band” seja um subgénero dentro de um género. É acima de tudo uma parte do todo! Vejo essa reprodução das “fórmulas próprias do orquestralismo do swing” da mesma forma que vejo outros músicos, sejam eles mais tradicionais ou mais de vanguarda, a explorarem ideias já anteriormente utilizadas, isto é, sem nenhum tipo de preconceito.  

Fazer um caminho 

Tem havido uma adaptação de propósitos da OJM relativamente aos objectivos que levaram à sua criação. A orquestra é entendida, ela própria, como um “fórum de compositores” e o resultado está em evidência: colaborações com vários compositores de jazz, com intervenção destes como condutores e instrumentistas, culminando precisamente no Jazz Composers Forum. É tempo de fazer o ponto da situação. Quer referir-me os pontos mais altos deste trajecto, destacando os momentos (e os nomes que os providenciaram) mais gratificantes?

Mais do que uma adaptação de propósitos, houve a necessidade de fazer um caminho que passava por criar uma orquestra de jazz de topo em Portugal. A OJM começou como Heritage Big Band (Janeiro de 1997) e nasceu de uma proposta que fiz ao dono do Heritage Café, João Vilhena, para criar uma orquestra de jazz residente no bar. O meu objectivo foi criar uma orquestra de autor à semelhança de outras vocacionadas para interpretar a música original e os arranjos originais dos seus directores. Durante este período, tive uma bolsa para fazer uma pós-graduação em Los Angeles e sugeri a Carlos Azevedo que ficasse à frente da orquestra durante a minha ausência. De facto, o fórum de compositores começou logo aqui. Em Dezembro de 1999, alterámos o nome para Orquestra Jazz de Matosinhos. Este foi um passo decisivo porque começámos a contar com o apoio financeiro da Câmara Municipal de Matosinhos, que desde então, é o nosso mais importante parceiro. Durante este período, à excepção do concerto na Porto 2001 para o qual fizemos encomendas a músicos nacionais com o intuito de criar um repertório português para “big band”, interpretávamos música original minha e de Carlos Azevedo.

Outro dos factores que moldaram a OJM foi o protocolo de colaboração que estabelecemos com a Casa da Música em 2005. Além de usarmos a Casa da Música como espaço de ensaios regulares, tivemos de apresentar três programas diferentes por ano, dando origem às colaborações com outros músicos/compositores. Tivemos de alargar o espectro da nossa vocação: para além de orquestra de autor tornámo-nos numa orquestra de repertório. Essa dualidade ainda se mantém hoje em dia.

Devo referir que todas as nossas colaborações têm sido oportunidades fantásticas, permitindo que a orquestra crescesse enquanto intérprete, e constato também uma evolução individual dos músicos, por trabalharem neste ambiente de “workshops” de topo. No entanto, destaco alguns momentos que eu acho que foram mais marcantes: os concertos com Lee Konitz em Nova Iorque no Carnegie Hall (2007) e a semana de concertos no Jazz Standard (2009). Além de termos podido partilhar o palco com um dos mais importantes músicos da história do jazz, alargámos o fórum de compositores a Ohad Talmor, o que mudou a mentalidade dos músicos, que começaram a acreditar que era possível ter uma orquestra de jazz de topo europeu/mundial em Portugal. Para além de deixarem de me chamar megalómano!

O nosso disco com Kurt Rosenwinkel, que nos possibilitou chegar a um público mais extenso, e o ciclo de concertos Uma Viagem pelos Tempos do Jazz, guiados por Manuel Jorge Veloso, pela aprendizagem de um vasto repertório fundamental para “big band”, foram também momentos marcantes.

 

A série de concertos do Jazz Composers Forum, e este disco de compilação do trabalho que se desenvolveu, contou com compositores de características muito diversificadas. Quais foram os vossos critérios de escolha? Caso a caso, diga-me por favor porque foram estes os convidados...

Aquilo que combinei com Carlos Azevedo foi que eu seleccionaria os compositores das Américas e o Carlos escolheria os compositores europeus. Os critérios que utilizei para seleccionar os nomes foram a importância dos compositores no contexto actual da composição para “big band” e a diversidade estética.

Darcy James Argue é um dos “novos” compositores mais interessantes. Escolhi Steven Bernstein porque achei que era importante trabalharmos com um músico que pertence ao movimento “downtown” nova-iorquino. Guillermo Klein foi incluído porque mistura elementos da música argentina e jazz com um forte cunho pessoal. Ohad Talmor porque representa a simbiose da Europa e da América. Infelizmente, e devido à sua morte, já não foi possível ter Butch Morris connosco, o que teria sido, certamente, uma experiência única para a orquestra.

Os critérios do Carlos foram em tudo semelhantes aos meus. O reconhecimento da qualidade da escrita, a diversidade estética e o facto de possuírem uma grande experiência de ensaio e direcção de orquestras de jazz. 

Orquestra nacional de jazz

 

A OJM tem uma imagem de orquestra “mainstream”, mas depois aconteceram colaborações com figuras como John Hollenbeck, Jason Moran, Steven Bernstein e Darcy James Argue, que entram por domínios digamos mais “vanguardistas”. Esta é uma falsa dicotomia?

Essa percepção da dicotomia, que a meu ver não existe, resulta do facto de a OJM desempenhar o papel de orquestra nacional de jazz. Acredito que na Península Ibérica deve existir uma orquestra de jazz que faça este trabalho de divulgação de repertórios de orquestra e que simultaneamente estimule a criação de nova música para “big band”.

 

A OJM ganhou uma dimensão internacional que não é comum na maior parte do jazz que se faz em Portugal. A que se deve isso, na sua opinião: às ligações estabelecidas com grandes nomes do jazz mundial, à qualidade do trabalho desenvolvido (tendo em consideração que há um jazz português de grande qualidade que não consegue exportar-se), a um bem-sucedido esforço de “marketing” ou tudo isso em combinação?

A dimensão internacional que já atingimos e que vamos ampliando resulta da combinação das parcerias com grandes nomes do jazz e com a qualidade do trabalho que desenvolvemos. O melhor “marketing” que temos é, de facto, o resultado desta soma.

 

Na génese da OJM parece haver uma forte ligação com o ensino jazz do Porto, ou do Norte em geral, com alguns dos músicos da “big band” vindo da ESMAE e os próprios directores leccionando nessa escola. Virá daí a perspectiva de que a OJM é uma plataforma académica, uma espécie de laboratório de pesquisa dos estudos universitários de jazz? Se assim for, que aspectos positivos e negativos pode ter essa condição, vendo os dois lados da questão?

É lógico que existe uma relação de proximidade entre a OJM e a ESMAE que creio que é benéfica para ambas as partes. Numa primeira fase, muitos dos músicos que faziam parte da OJM foram alunos do curso da ESMAE, sobretudo músicos que já tinham actividade profissional mas que lhes faltava o grau académico, e que ajudaram a estabelecer o patamar de qualidade que a ESMAE já atingiu. Posteriormente, a OJM foi integrando alguns antigos alunos na sua formação, beneficiando da qualidade dos músicos que iam emergindo do curso. Faz todo o sentido que exista uma orquestra que está no topo da pirâmide e que absorve os melhores alunos do ensino superior, à semelhança do que existe na música clássica.

A orquestra foi, e ainda é, uma espécie de laboratório de pesquisa de jazz. Relembro que, quando a OJM começou, não havia orquestras de jazz com actividade regular em Portugal e não havia muitos músicos que tivessem experiência de tocar em “big bands”, o que levou a que fosse necessário fazer um intenso trabalho de aprendizagem. Algumas das escolhas artísticas dos repertórios que tocámos visaram suprimir essa lacuna.  

Em nome individual 

A imagem do músico e compositor Pedro Guedes (tal como, de resto, a de Carlos Azevedo) dissolve-se na actividade da OJM. Sei que isso não corresponde ao que se passa na realidade, e daí a pergunta: quem é Pedro Guedes? Que outro trabalho tem desenvolvido independentemente e em nome pessoal?

A OJM é mais do que uma orquestra; é uma instituição cultural que não esgota a sua actividade nos projectos que culminam nos concertos da orquestra. Desenvolve uma actividade pedagógica junto das escolas do ensino secundário do concelho de Matosinhos, tem uma orquestra júnior, integrou a editora TOAP na sua actividade e concorre a diversas fontes de financiamento para sustentar a sua actividade.

Apesar de contar com apoios para a gestão administrativa (Jorge Coelho) e para a direcção musical (Carlos Azevedo), a orientação artística do projecto é minha, o que me toma bastante tempo. Não sobra por isso muito espaço para desenvolver projectos musicais em nome pessoal. Espero em breve poder voltar ao activo e ser um membro da comunidade jazzística, em nome individual, mais activo.

 

Porque se manteve a fórmula bipartida de direcção da OJM, partilhada entre si e Carlos Azevedo? O que a caracteriza e a alimenta: o facto de pensarem da mesma maneira ou de formas diferentes? Que vantagens e inconvenientes tem?

A direcção musical bipartida resulta do histórico da actividade da orquestra. Somos diferentes, pensamos de forma diferente e isso é positivo. Por outro lado, a OJM funciona num registo familiar e nós “alimentamos” essa proximidade.

 

Pode adiantar-me quais serão os próximos passos da OJM? Que projectos estão na calha?

O nosso grande desfio é termos um espaço nosso, que sirva de sala de ensaio e de gravação, que seja um laboratório onde se estuda e melhora a performance da orquestra, que investigue a improvisação musical como fenómeno de interacção em tempo real com músicos ou com meios informáticos e outros “media”. Em suma, um Centro de Alto Rendimento Artístico a que daremos o nome de CARA.

Queremos também apostar na internacionalização, tentando ter uma presença mais assídua no estrangeiro. Temos um protocolo que começámos a pôr em prática com o Voll-Damm – Festival Internacional de Jazz de Barcelona, no qual já garantimos uma presença mais assídua em Espanha nos próximos anos.

 

Para saber mais

http://www.ojm.pt/PT/

 

Discografia

Orquestra Jazz de Matosinhos: “Jazz Composers Forum – Today’s European – American Big Band Writing” (TOAP, 2014)

Orquestra Jazz de Matosinhos & João Paulo Esteves da Silva: “Bela Senão Sem” (TOAP, 2013)

Orquestra Jazz de Matosinhos & Maria João: “Amoras e Framboesas” (Universal, 2011)

Orquestra Jazz de Matosinhos & Kurt Rosenwinkel: “Our Secret World” (Wommusic, 2010)

Orquestra Jazz de Matosinhos & Lee Konitz / Ohad Talmor: “Portology” (Omnitone, 2007)

Orquestra Jazz de Matosinhos & Chris Cheek: “OJM Invites Chris Cheek” (Fresh Sound New Talent, 2006)

Orquestra Jazz de Matosinhos: “#0” (Edição de autor, 2005)