Matthew Shipp, 24 de Maio de 2014

Solista em trio

texto Rui Eduardo Paes

É um dos mais importantes pianistas das últimas décadas, tendo antecedido uma vaga de outros que, curiosamente, mais têm chamado a atenção. Talvez porque a música o preocupa mais do que a imagem, ou talvez porque se tornou na “má consciência” da cena jazz, desmistificando ideias feitas tanto no “mainstream” como na chamada “vanguarda” e denunciando situações que considera moralmente inadmissíveis. Conversámos com ele nas vésperas da partida para Portugal, onde tocará a solo no Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra (30 de Maio) e no Serralves em Festa (Porto, 31 de Maio). Foi uma conversa apressada, entre aviões, com cada resposta a valer mais do que as poucas palavras…

 

Sei que aprecia muito especialmente o formato solo. Considerando que a improvisação tem uma importância central na sua música, e que a mesma é geralmente concebida como uma abordagem colectiva, como é que entende a improvisação a solo? A audiência torna-se mesmo no “outro”, como se estivessem mais músicos no palco?

Um solo sou eu a relacionar-me directamente com o instrumento. O público não é esse outro, é parte do ambiente, mas na verdade uma actuação a solo faz-se em trio, envolvendo o instrumentista, o instrumento e a audiência.

 

Suponho que nesta vinda a Portugal vai trazer o repertório do seu mais recente disco a solo, “Piano Sutras”. Por que motivo acha que este álbum está a ter mais repercussão do que os seus anteriores títulos a solo? A explicação passa pela aplicação do princípio da sutra (estilo literário indiano baseado em aforismos) ao piano? 

Evoluí e continuo a evoluir e julgo que as pessoas estão finalmente a começar a ouvir o que faço. As minhas sutras são como que orações ao deus do piano, se bem que a inteligência do instrumento tenha sido formulada por nós e não por uma divindade. Terei um novo CD a solo em Setembro, intitulado “I’ve Been to Many Places”, e esse é que considero ser o meu disco a solo mais desenvolvido.

 

O modo como desconstrói composições de terceiros, tornando-as na sua própria música, é o mesmo quando lida com a sua escrita? Faz sempre questão que o processo improvisativo transforme uma peça em outra coisa? 

Sim. A ideia é pegar na linguagem de uma peça e modificá-la até fazer parte do meu próprio organismo. De certa forma é, de facto, um trabalho de recomposição. Quando interpreto as músicas de outros estou a recompô-las e é isso que faço também com as minhas partituras. 

Uma questão de ADN

Matthew Shipp por Peter Gannushkin 

Alguns críticos, entre os quais me incluo, vêm afirmando que você é o elo que faltava entre Bill Evans e Cecil Taylor. Concorda com esta perspectiva? 

Não sei se concordo, mas gosto de saber isso. São dois pianistas que adoro e faz-me sentir bem haver alguém que me veja assim. São músicos muito diferentes, mas o que fizeram tinha de ser feito daquelas maneiras nos anos 1960.

 

Trabalha frequentemente com electrónica, mas regressa sempre à música acústica e ao primeiro dos instrumentos de tecla. Porquê?

Porque sou um pianista de jazz primeiro que tudo. É o meu ADN. É isto que eu sou e isto que faço.

 

O que significa para si, hoje, o rótulo “jazz”, tendo em conta as muitas influências idiomáticas de outras proveniências que estão na sua música? E como entende o rótulo “free jazz” na actualidade? 

Nenhumas catalogações têm significado para mim. São convenções de linguagem. O que tento fazer é “música de Matthew Shipp”, seja o que isso for. Procuro ser autêntico com o idioma chamado jazz da forma como o entendo e sem me preocupar com o que as pessoas lhe chamam. Trata-se de vibrações e ondas cósmicas no universo. “Jazz” é um termo político.

 

É conhecido pela dimensão espiritual que dá à sua música, o que hoje não é muito comum. Trata-se de uma necessidade pessoal ou é o modo como se liga a uma tradição que vem do jazz criativo da década de 1960? 

Sempre houve uma dimensão espiritual na música. No caso de Sun Ra, foi muito antes dos Sixties que ele trouxe um factor mítico para o jazz. De qualquer modo, inscrevo-me na tradição de alguém como John Coltrane, que por essa altura procurava a dimensão espiritual do som.

 

O que permanece hoje do Matthew Shipp que tocou com David S. Ware e Roscoe Mitchell?

Essa é difícil. Esses genes estão ainda no meu subconsciente, mas o que estou a explorar à superfície é diferente. Espero só que as raízes sejam profundas para que a planta continue a crescer. 

Conversa retomada

 

Alguns pianistas seguiram as suas pisadas na renovação da linguagem do piano jazz, como Vijay Iyer, Craig Taborn, Jason Moran, Angelica Sanchez, Kris Davis e alguns outros. Qual é, na sua perspectiva, o “estado-da-arte” no que concerne ao piano? 

O Craig e o Jason são meus amigos e são grandes, grandes artistas. Aprecio-os imenso. Só muito recentemente conheci a Kris e ela é, de facto, um dos pianistas mais talentosos que andam por aí. Quanto a Angelica e Vijay, nunca os ouvi, acredite ou não.

 

No festival Jazz ao Centro está programado outro solo de piano, pelo alemão Joachim Kuhn. Tem acompanhado o que acontece na Europa com o piano jazz? Que pianistas europeus distingue? 

O Joachim é um dos melhores pianistas que já ouvi, e também gosto de Bobo Stenson. Joachim e Bobo são os meus favoritos na cena europeia.

 

Vai tocar no Jazz em Agosto, em Lisboa, com Evan Parker, que curiosamente teve antes um outro duo de saxofone e piano, com Misha Mengelberg, no mesmo festival. O que podemos esperar?

Evan e eu temos tocado muito juntos. Contamos já com dois CDs em duo e o último saiu recentemente pela RogueArt. É como se retomássemos a conversa de cada vez que nos encontramos.

 

Você é um dos poucos músicos que vão pensando sobre a música que praticam e que falam publicamente sobre o que pensam, como aconteceu há pouco quando denunciou as atitudes de Keith Jarrett, e designadamente as suas birras com o público. O que explica a ausência de uma reflexão por parte dos músicos? 

É o medo que explica isso. O receio de perderem concertos e oportunidades de editar se falarem. Mas olhe que eu habitualmente também não falo muito, sou tão humano como os outros. O triste comportamento de Jarrett é que me obrigou a intervir.

 

Para saber mais

http://www.matthewshipp.com/

 

Discografia seleccionada

Matthew Shipp: “The Root of Things” (Relative Pitch, 2014)

Matthew Shipp: “Piano Sutras” (Thirsty Ear, 2014)

John Butcher / Matthew Shipp: “John Butcher / Matthew Shipp” (Fataka 2, 2013)

Ivo Perelman / Matthew Shipp: “The Art of the Duet Vol. 1” (Leo Records, 2013)

Matthew Shipp / Michael Bisio / Whit Dickey: “Elastic Aspects” (Thirsty Ear, 2012)

Matthew Shipp / Michael Bisio / Whit Dickey: “The Art of the Improvisor” (Thirsty Ear, 2011)

Matthew Shipp: “4d” (Thirsty Ear, 2010)

Matthew Shipp / Joe Morris / Whit Dickey: “Harmonic Disorder” (Thirsty Ear, 2009)

Daniel Carter / Matthew Shipp / Joe Morris / Whit Dickey: “Cosmic Suite” (Not Two, 2009)

Matthew Shipp / Guillermo Brown: “Telephone Popcorn” (NuBop, 2009)

Rob Brown / Matthew Shipp / Joe Morris / Whit Dickey: “Right Hemisphere” (RogueArt, 2009)

Matthew Shipp / Joe Morris / Whit Dickey: “Piano Vortex” (Thirsty Ear, 2007)

Matthew Shipp: “One” (Thirsty Ear, 2006)