Marc Ducret, 14 de Julho de 2014

Ada e as coisas reais

texto António Branco

Marc Ducret (fotografado em cima por Maarit Kytharju) é um dos grandes nomes europeus da guitarra na música improvisada, apesar de ela não lhe interessar tanto assim enquanto instrumento. Avesso a catalogações, tão pouco gosta da expressão “música improvisada”. O francês vem à capital portuguesa com o sexteto Real Thing #3 – de inusitada instrumentação: três trombones e uma seção rítmica (guitarra, piano e percussão) – trazer música inspirada no romance “Ada”, de Vladimir Nabokov.

Ducret nasceu em Paris, em 1957. Aprendeu a tocar guitarra de forma autodidata, embora tivesse preferido ser baterista. Antes de completar 20 anos já tocava com vários grupos. A sua abordagem – muito percussiva – à guitarra é impregnada pelas linguagens do rock e do bebop. Depois de outras experiências com formações mais alargadas, integrou, em 1986, uma primeira National Jazz Orchestra francesa. No final dos anos 1980, começou a liderar os seus próprios grupos.

Em 1991, iniciou uma frutuosa colaboração com o saxofonista Tim Berne em projetos tão relevantes como Science Friction, Big Satan, Bloodcount e Caos Totale. No final dessa década formou o decateto Seven Songs, com o propósito de explorar a música dos sessentas.

O guitarrista tem vindo a explorar, de uma forma muito pessoal, as sonoridades avançadas, combinando complexidade e urgência, nas formas elétrica e acústica, e registando importantes gravações a solo. Atualmente, para além de tocar com nomes como François Corneloup, Christophe Monniot e Vincent Courtois, também desenvolve atividade com o seu trio – que se completa com o contrabaixista Bruno Chevillon e o baterista Éric Échampard – e com o Marc Ducret Grand Ensemble de Marc Ducret.

O grupo que trará ao Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian no dia 4 de agosto é apenas um dos ramos do mais alargado projeto Tower – já documentado em vários discos –, completando-se com Fidel Fourneyron, Matthias Mahler e Alexis Persigan (trombones), Antonin Rayon (piano) e Sylvain Lemêtre (vibrafone, marimba, percussão).

Antecipando a sua vinda a Lisboa para um evento particularmente consagrado a guitarristas e baixistas relevantes da contemporaneidade, estivemos à conversa com o músico francês.

 

Com o projeto Tower procura expressar a sua própria visão musical sobre um capítulo retirado do romance “Ada”, de Vladimir Nabokov, no qual o autor estabelece um labirinto complexo de memórias e referências. Qual a origem de todo este processo?

Em projetos anteriores tentei justapor texto e música de diversas formas. Neste escolhi tentar transpor algumas técnicas literárias utilizadas por Nabokov para a composição musical. No capítulo 12, a complexidade chegou a um certo pico. Tentei “espelhar” o que estava escrito, da forma como está escrito, a interação no enredo, a interação com outros livros e obras, etc..

 

Neste capítulo, Nabokov faz um conjunto de intrincadas relações e correspondências entre as suas próprias emoções e preocupações permanentes. É também esta a forma como concebe a sua abordagem à música, uma rede de trocas, reflexões, influências, regressos?

Sim, estou muito interessado em questões relacionadas com a memória e na forma como ela afeta a nossa perceção e também a música, que é um meio em geral abstrato, em constante reconstrução nesse jogo de influências e reflexões. A música parece ser a forma de arte na qual a passagem do tempo se expressa de maneira mais significativa… 

Atitudes e questões

Foto de Maarit Kytharju 

Sem recorrer a excertos ou a citações do livro, usou três diferentes formações para este projeto: Real Thing #1, Real Thing #2 e Real Thing #3, com diferentes músicos e instrumentação. Qual foi a sua intenção? Poderia ter utilizado sempre o mesmo grupo, mas não o fez…

Tentei espelhar várias ideias. Neste capítulo, Ada fala sobre os seus conceitos de vida em relação às palavras que usa para descrever as emoções: “coisas reais” são os eventos felizes da vida. Três “coisas reais” seguidas fazem uma “torre”, daqui o título do projeto, o nome das bandas e das peças. Cada formação representa uma “coisa” diferente com sabor e som próprios. Mas também teve a ver com as três personagens do livro e com a tríade que está sempre presente e que lhe dá significado e forma. Por último, tentei veicular as minhas próprias emoções, permitindo a cada grupo expressar as minhas “atitudes” e questões sobre música.

 

Quais foram os seus critérios no processo de escolha dos músicos que consigo colaboraram em cada uma das três formações? Afinidade musical? Como Ellington, Mingus e Ra, entre outros, escreve música a pensar especificamente nesses músicos ou, por outro lado, as suas ideias musicais neste projeto seriam as mesmas independentemente das características dos músicos que a tocam?

Escrevo sempre especificamente para os músicos que vão tocar essa música. Um instrumento, por si próprio, não é nada. É a pessoa que toca que lhe dá alma ou não. Independentemente das capacidades ou da técnica. Ellington, Mingus ou Ra, mas também Mozart, Boulez ou Berio.

 

Para os primeiros dois destes grupos, escreveu música propositadamente – “Sur l´Electricité”, “Real Thing #1, 2 et 3” e “Softly Her Tower Crumbled in the Sweet Silent Sun” –, mas no terceiro a formação toca “comentários” à música antes escrita, através de um trabalho sobre fragmentos e do desenvolvimento de alguns extratos. Qual é a sua ideia? Olhar para os diferentes elementos, motivos e para os interstícios da sua própria música e explorá-los?

Sim, essa foi uma das razões. Outra foi a de o sexteto ser uma espécie de “súmula” do projeto, que vê o que está a faltar no princípio do livro, a busca por algo que está no centro do trabalho de Nabokov. Também porque os outros dois grupos tocavam arranjos com apenas um “ponto de vista" de cada vez, enquanto o sexteto revela todas as combinações rítmicas e harmónicas.

 

Pensa na “fusão” destas três formações para aumentar e alargar as possibilidades sonoras? Considera promover a interação entre músicos ao tocar um repertório comum, mas com abordagens distintas?

Em novembro de 2013 fizemos uma digressão com uma formação alargada chamada Tower-Bridge, que reúne os três grupos. Foi este grupo que propusemos para o concerto de Lisboa, o que não foi aceite, suponho que por motivos financeiros. O duplo CD gravado ao vivo durante a digressão será lançado no próximo outono na Ayler Records.

 

No sexteto Real Thing #3 utiliza guitarra, piano, percussão e três trombones, uma instrumentação pouco habitual… Por que razão optou por esta configuração?

Pensei que me dava a oportunidade de ter um som mais claro, de que necessitava se quisesse que fossem ouvidos os intrincados jogos estruturais. Também quis que a “tríade” estivesse presente, daí que esta formação possa ser escutada por vezes como três trombones contra três instrumentos de percussão ou dividida em três unidades mais pequenas (trombone/piano, trombone/percussão, trombone/guitarra).

 

Será então “apenas” o sexteto Real Thing #3 que trará a Lisboa em agosto. O que poderá o público português esperar deste concerto?

Música, claro!

 

A edição de 2014 do Jazz em Agosto será especialmente dedicada a notáveis guitarristas e baixistas do jazz contemporâneo: para além de si, Marc Ribot, Fred Frith, James “Blood” Ulmer, Bill Laswell… Algum destes nomes é-lhe particularmente inspirador?

Sou há décadas um grande apreciador do trabalho do Fred. Mas não estou especialmente interessado na guitarra como instrumento.

 

Quem também irá tocar é o guitarrista português Luís Lopes, com o seu trio Lisbon-Berlin. Já ouviu falar dele?

Não.

Baterista frustrado

 

É interessante o facto de encarar a guitarra como um instrumento de percussão… Em determinado momento da sua vida, escolheu a guitarra e começou de forma autodidata. Este processo foi, presumo, essencial para o músico que é hoje e para esta abordagem “percussiva” …

Não “escolhi”, realmente, a guitarra – era apenas o que se tocava nessa altura se se quisesse fazer canções pop! Não tenho preferências particulares pela guitarra em si própria. Preferia ter tocado bateria, mas eram caras, volumosas e barulhentas para um pequeno apartamento suburbano. O aspeto percussivo da minha maneira de tocar vem provavelmente de ser um baterista frustrado! Mas vem também do meu interesse precoce por Bartók e pela música russa ou balcânica.

 

Nascido em Paris no final dos anos 1950, cresceu certamente num ambiente musical dominado por grupos pop ingleses como os Beatles e os Rolling Stones... Fale-nos desses tempos. Absorveu, de alguma forma, a sua música?

Alguns dos grupos ingleses foram a razão pela qual eu quis tocar, claro. E ainda os continuo a ouvir bastante. Eles são uma enorme parte da minha inspiração musical.

 

Começou a tocar profissionalmente quando era adolescente em meados dos anos 1970, trabalhando em diversos grupos, alguns de folk, quer em concerto quer em estúdio… Consegue precisar o momento e em que circunstâncias se interessou pelo jazz e pela música improvisada?

Sempre tentei tocar tudo o que ouvia, sempre quis aprender novos sons. “Jazz” ou outros rótulos não têm significado para mim. E o que as pessoas chamam música “improvisada” é apenas uma forma de tocar, entre muitas outras, todas igualmente interessantes.

 

Já percebi que a palavra “jazz” não lhe diz grande coisa. Calculo, assim, que não se considere um músico de jazz. Esta definição é demasiado estreita para o vasto trabalho que desenvolve?

“Jazz”, “clássica”, “free”, “bebop”, “avant-garde”, etc…: muito boas razões para começar uma luta. A música é som e não palavras.

 

Em 1986-87 integrava a National Jazz Orchestra. Como foi a experiência com esta formação alargada?

A mesma do que quando toquei com outras grandes formações desde 1984/85. Adorei tocar a música de outros compositores num grande “ensemble”. Isso fez com que eu compensasse a minha falta de experiência a tocar em “big bands”.

 

A sua música parece estar a meio caminho entre a complexidade de Boulez e o fogo de Hendrix…

E que tal entre a complexidade de Hendrix e o fogo de Boulez?

 

Isso leva-me a perguntar-lhe quais são as suas principais influências e a pedir-lhe que me indique alguns músicos e discos de referência. Por exemplo, Wes Montgomery é importante para si?

Essa lista seria imensa, incluiria toneladas de músicos, discos, concertos…

 

Na sua forma de tocar utiliza elementos dos blues, ainda que processados. Qual é a sua relação com a chamada “tradição” do género?

Enquanto toco utilizo todos os sons que ouço. Mas… “tradição”? É difícil dizer qual tradição, para quem, onde? Cada pessoa exprime os seus sentimentos de uma forma própria e distinta. 

Desafios, problemas, dores, jogos

 

A guitarra é um instrumento, como todos os outros, com limitações e possibilidades. Como as encara? Como um desafio?

Como um desafio, um problema, uma dor e como um jogo.

 

Como se relaciona com as eletrónicas? Utiliza-as como um instrumento “orgânico” ou procura com elas introduzir diferentes “inputs” na música que desenvolve?

Sei muito pouco sobre eletrónica e uso-a como posso. Procuro um som mais “orgânico”, deixando a guitarra – quando é elétrica – transmitir tanta vida “acústica” quanto consiga.

 

Tem vindo a desenvolver uma frutuosa relação musical com o saxofonista Tim Berne, desde 1991, em projetos marcantes como Big Satan, Science Friction, Bloodcount, Caos Totale… Que química especial existe entre vós? Há planos para novas gravações?

Julgo que deva haver alguma coisa musicalmente interessante na nossa colaboração, de outra forma não teria durado tanto. O Tim faz parte do quarteto Real Thing #2 e do “ensemble” Tower-Bridge.

 

Qual o tipo de ambiente musical que prefere? Pequenas, médias formações? Também toca a solo, num formato acústico…

Não tenho preferência, gosto de contrastes e da variedade dos sons, formatos, trocas… Mas devido a questões financeiras, na música não-comercial temos de nos quedar por pequenos grupos, uma vez que produzo a minha própria música.

 

Como descreve o seu processo criativo? É meticuloso, ou, pelo contrário, imprevisível? Precisa de garantir algumas condições especiais para desencadear a transformação de ideias em composições?

Sou meticuloso e interessado em formas e estruturas. Levo algum tempo a trabalhar até que surja alguma coisa que me atreva a mostrar aos músicos.

 

É influenciado por outras formas de arte para além da literatura? Gosta de explorar as diferenças e complementaridades entre elas? Procura trazer elementos de outros territórios artísticos para o seu próprio universo musical?

Sim. Apesar de a literatura ser a minha primeira paixão, retiro muitas ideias do teatro, do cinema, da pintura, do instalacionismo, da vídeo-arte. Basicamente, de tudo a que estou exposto.

 

Tem um trio baseado em Paris com o contrabaixista Bruno Chevillon e o baterista Éric Échampard. E também um decateto. O que poderemos esperar de si num futuro próximo?

O trio francês gravará um conjunto de peças novas até ao final deste ano. Estreei em fevereiro passado “Chroniques de la Mer Gelée”, um sexteto acústico com voz soprano, violoncelo, flauta, piano e trombone. Estou atualmente a escrever música para “Paysage, avec bruits” para um quarteto comigo, Fred Gastard no saxofone baixo, Sylvain Bardiau no trompete e Matthias Mahler no trombone – e a trabalhar em muitos outros projetos.

 

Conhecendo a diversidade e a qualidade do seu trabalho, o que procura com a sua música?

Exprimir-me.

 

Para saber mais

http://www.marcducret.com/

 

Discografia selecionada

Como líder:

“Tower-Bridge” (Ayler Records, 2014)

“Tower, Vol. 4” (Ayler Records, 2013)

“Tower, Vol. 3” (Ayler Records, 2012)

“Tower, Vol. 2” (Ayler Records, 2011)

“Tower, vol. 1” (Ayler Records, 2011)

“Le Sens de la Marche” (Illusions, 2009)

“Qui Parle?” (Sketch, 2003)

“L' Ombra di Verdi” (Screwgun, 1999)

“Un Certain Malaise” (Screwgun, 1998)

“Détail” (Winter & Winter, 1997)

“News From the Front” (JMT, 1992, reeditado em 2004 pela Winter & Winter)

“Gris” (Label Bleu, 1990)

“Le Kodo” (Label Bleu, 1989)

“La Théorie du Pilier” (Label Bleu, 1987)

 

Como co-líder:

L. Mockūnas/ M. Ducret: “Silent Vociferation” (NoBusiness, 2009)

H. Roberts/ M. Ducret/ J. Black: “Green” (Winter & Winter, 2008)

D. Humair/ M. Ducret/ B. Chevillon/ E. Eskelin: “Liberté Surveillée” (Sketch, 2001)

M. Ducret/ D. Pifarély/ V. Courtois: “The Fitting Room” (Enja, 2001)

M. Ducret/ B. Previte: “In The Grass” (Enja, 1998)

L. Sclavis/ D. Pifarély/ M. Ducret/ B. Chevillon: “Acoustic Quartet” (ECM, 1994)

 

Com Tim Berne:

Big Satan: “Livein Cognito” (Screwgun, 2007)

Big Satan: “Souls Saved Hear” (Screwgun, 2004)

Big Satan: “I Think They Liked It, Honey” (Winter & Winter, 1997)

Science Friction: “Live: The Sublime And” (Thirsty Ear, 2003)

Science Friction: “Science Friction” (Screwgun, 2002)

The Sevens: “The Sevens” (New World, 2002)

Bloodcount: “Memory Select” (JMT, 1995)

Bloodcount: “Poisoned Minds” (JMT, 1995)

Bloodcount: “Lowlife” (JMT, 1995)

Caos Totale: “Nice View” (JMT, 1994)

Diminutive Mysteries: “Mostly Hemphill” (JMT, 1993)

Caos Totale: “Pace Yourself” (JMT, 1991)

 

Com Samuel Blaser Quartet:

“As The Sea” (hatoLOGY, 2012)

“Boundless” (hatoLOGY, 2011)