Agustí Fernández. , 3 de Novembro de 2014

O Durruti da improvisação

texto Pedro Tavares e Mafalda Costa

O decano da música improvisada e do jazz criativo de Barcelona é hoje, talvez, a melhor referência de como um músico das regiões periféricas do planeta pode chegar ao centro das atenções. Agustí Fernández é parceiro regular de figuras como Evan Parker, Barry Guy, Mats Gustafsson, Joe Morris, Peter Evans, John Edwards ou Nate Wooley e conta no seu percurso com um disco português, “El Laberint de la Memoria”, lançado pela Mbari. Fomos à Catalunha conversar com o Buenaventura Durruti da improvisação…

 

Em 2013 foste eleito Artista do Ano pela "Cuadernos de Jazz" e lançaste mais uma série de discos, de "A Trace of Light", a solo, a colaborações com Mats Gustafsson e Marco Colonna, mas gostaria de começar esta conversa com um disco teu editado em Portugal, em 2011, com selo da Mbari, "El Laberint de la Memòria", de piano solo. Como é que surgiu essa edição?

Este disco, "El Laberint de la Memòria", foi uma encomenda do João Santos, da Mbari. Foi ele quem me contactou com a proposta de fazer um disco de piano solo. Disse-me que queria que me inspirasse na música clássica espanhola do século XX para piano. E enviou-me dois CDs com muita música: Isaac Albéniz, Federic Mompou, Manuel de Falla, Xavier Montsalvatge… Música que, em geral, eu já conhecia, ou porque a tivesse tocado ou porque a tivesse ouvido. Não era, em todo o caso, um universo estranho para mim. Então, quando acabei de ouvir os discos, contactei o João e perguntei-lhe: «O que posso fazer com esta música? Não me sinto capaz de lhe acrescentar alguma coisa ou de fazer versões.» Não se pode fazer versões de um tema de Falla ou de Mompou. Ou se toca tal e qual é, ou não se toca. E ele respondeu-me que não era esse o seu objectivo. O que queria é que aquela música fosse uma referência para mim e que eu fizesse a música que quisesse a partir daquelas obras. A música que te enviei, disse-me, é música de que gosto, mas deve ser para ti como o papel de parede de uma casa - servirá como inspiração.

Então ouvi os discos, várias vezes, e a pouco-e-pouco foram-me surgindo ideias de acordes. Coisas que não estavam ligadas entre si. Tomava notas e depois sentava-me ao piano com esses apontamentos. Às vezes surgiam pequenas frases, detalhes, melodias da música daqueles discos, mas que eu já não sabia de quem eram. Ficava só com aquilo na minha cabeça. E pronto, fui trabalhando. Demorei muito tempo a acabar o disco por duas razões: por um lado, porque tenho muito trabalho, viajo muito, e por outro porque não estava contente com o resultado. Até que, ao fim de dois ou três anos consegui acabar o disco. Viajava e quando voltava, compunha, depois tinha outra ideia… mas foi um processo muito lento. Por fim gravei o disco e entreguei-o ao João: «Aqui está o que pediste, se gostares muito bem, se não, não sei o que mais posso fazer, é o que eu pude compreender do piano clássico espanhol.» E ele respondeu-me: é perfeito. Eu não me sentia muito confiante em relação ao disco, porque ele tinha-me pedido uma coisa específica e o que eu lhe entreguei… não sabia se havia realmente uma relação com o que ele me tinha pedido. Mas ele achou que estava bem.

 

Não estava à espera dessa insegurança em relação ao teu trabalho…

Senti-me inseguro porque nunca tinha feito um disco a partir de uma encomenda. Não sabia muito bem o que ele me estava a pedir. Todos os outros discos foram da minha própria iniciativa e nesses casos sei bem o que quero. Sei o que quero gravar e com quem. Ainda por cima, tratava-se do piano clássico espanhol. Venho mais da tradição de Cecil Taylor, de Alexander von Schlippenbach e de outro tipo de música… Daí a minha insegurança.

 

Fala-me um pouco da tua colaboração com o violinista Carlos "Zíngaro"…

(risos) O "Zíngaro" é um craque do violino e eu gosto muito dele. Na verdade tocamos juntos há muito tempo, 15 anos ou mais. E, bom, sou um grande fã dele. Lembro-me de ouvir um disco dele, a solo, de há muito tempo, talvez 20 anos, com um som fantástico. E quando quis tocar com um violinista, foi com ele. Foi assim que nos conhecemos. Há algum tempo que não tocamos juntos, mas agora temos um projecto com um violetista de Braga, Tiago Morais Morgado.

 

E será um trabalho para gravar?

Um dos concertos será gravado, sim. Depois de tanto tempo, será um prazer tocar com Carlos "Zíngaro".

 

Tiveste um projecto em volta das canções da Guerra Civil Espanhola. Do que se tratava?

Esse projecto estreou-se em Girona, no Outono de 2006, e depois apresentámo-lo também aqui, em Barcelona. Foi difícil. Éramos cinco músicos, com bateria, saxofone, contrabaixo, piano…

 

Com Joan Saura…

Com Joan Saura, sim, que infelizmente morreu… E havia um coro de 20 pessoas. Era muito dífícil movimentar tudo isto. Foi difícil ensaiar e montar o espectáculo, mas em Girona o trabalho foi relativamente mais fácil. Com o coro, no entanto, ficava tudo muito mais complicado. Mas era um projecto de que gostava muito. Era simplesmente a minha visão de algumas das canções da Guerra Civil Espanhola, tratadas de uma maneira mais livre. Havia improvisação e melodias, mas não havia letras. 

Coisa complicada 

E sobre o projecto dedicado a Durruti, podes falar um pouco?

(sorriso) Sim, era um projecto sobre o anarquista espanhol Buenaventura Durruti. Participavam Evan Parker, Joan Saura, Carlos “Zíngaro”, Wolfgang Reisinger, Peter Kowald e Lê Quan Ninh. Foi em meados da década de 1990, por ocasião do centenário do nascimento de Durruti. Coisa complicada, porque a sociedade espanhola contemporânea não quer falar dos anarquistas do tempo da Guerra Civil. E essa é uma questão muito importante para mim. O anarquismo espanhol é uma referência de mudança social, de uma forma de ver a vida, de nos relacionarmos, que penso estar muito próxima de uma música como o free jazz ou a improvisação livre. Quis fazer uma homenagem a Durruti e apresentei a proposta a um festival de Verão. Correu muito bem, teve boa aceitação.

Mas estes foram projectos com poucos concertos, poucas apresentações. O mercado está muito condicionado pela inércia e pelas ofertas dos agentes norte-americanos. Pelo que se "vende" em cada ano. Um ano "vende-se" Sonny Rollins, noutro vende-se outro nome qualquer. Fica difícil competir com eles.

 

Dependes assim tanto dos promotores norte-americanos?

Não, não. O que quero dizer é que eles marcam uma determinada tendência. Então o que se promove é o que corresponde àquela tendência. Sobra um espaço muito pequeno para outros projectos, que não correspondam a essa inclinação…

 

Fazes parte do Electro-Acoustic Ensemble de Evan Parker, que tem tido várias formações. Quando é que integraste o colectivo?

Estou no Electro-Acoustic Ensemble desde 2002 e desde essa altura gravámos "Memory / Vision", "The Eleventh Hour", "The Moment's Energy" para a ECM e "Hasselt" para a Psi, a editora do Evan. É um projecto que começou em meados da década de 1990 com um duo, que rapidamente evoluiu para um quarteto, e o objectivo é que haja músicos que toquem instrumentos acústicos e outros que toquem instrumentos electrónicos e processem, em tempo real, o que se está a tocar. Ou seja, há uma interacção. No princípio eram só Lawrence Casserley e Joel Ryan, depois o grupo foi crescendo. Cheguei em 2002 e… bom, para um grupo tão grande, que já chegou aos 18 elementos num concerto do Jazz em Agosto de 2010, temos feito bastantes concertos.

Depois dessa actuação em Lisboa fizemos uma digressão pela Europa, sobretudo por Alemanha, Bélgica e Holanda, e tocámos no Queen Elizabeth Hall, em Londres. A ideia é sempre a mesma: que os músicos acústicos e electrónicos interajam continuamente. É como o mar, acontece sempre qualquer coisa.

 

E como é trabalhar assim?

O Evan marca as partes. Não indica o que quer que aconteça, mas escolhe quem quer que toque em determinado momento. Por exemplo, diz-nos: na primeira parte tocas tu e mais três, mas quando entrar a percussão mudamos para outra configuração e passam a ser outros tantos a tocar. É assim que funciona.

 

Como um todo…

Exacto. Antes, quando éramos menos, estas indicações não faziam falta. Agora, como é muita gente, é importante delimitar quem toca e quando. Para criar alguma variedade.

 

E a colaboração com a Barry Guy New Orchestra, como é que surgiu?

Conheci Evan Parker em 1992 e colaboramos desde 94. No princípio convidei-o a vir a Barcelona e tocámos em várias salas. Fizemos já vários discos e participei nos seus grupos, em duo, trio, quarteto, octeto e no Electro-Acoustic Ensemble. E foi através do Evan que conheci Barry Guy, que pertence ao trio do Evan com Paul Lytton. Formámos um quarteto, portanto. Temos um disco, "Topos", gravado em Barcelona em 2006.

O Barry tinha formado a New Orchestra no ano 2000 e a pianista, naquela altura, era Marilyn Crispell. Mas a Marilyn vive nos Estados Unidos e não é muito fácil trazê-la para um só concerto na Europa. Foi ela que sugeriu ao Barry que trabalhasse comigo, porque vivo na Europa. Entrei na orquestra em 2002. Gosto muito do trabalho na orquestra, muito. É uma formação completamente diferente do Electro-Acoustic Ensemble: é uma orquestra acústica, na tradição do free jazz e da música contemporânea. De certa forma, está na fronteira entre uma e a outra. Os últimos discos que gravámos foram "Mad Dogs" e "Amphi.Radio Rondo" e temos feito muitos concertos por toda a Europa e em Vancouver, no Canadá, com bastante êxito. Todos os nomes da orquestra são grandes músicos.

 

Um dos teus companheiros na Barry Guy New Orchestra é Mats Gustafsson, com quem tens vários discos gravados. Existe um entendimento fácil entre os dois?

É muito fácil trabalhar com o Mats (risos). Conheço-o desde 1998. Toquei em duo com ele em Estocolmo e acabámos por tocar juntos na orquestra de Barry Guy. Fizemos um disco juntos em 2005, "Critical Mass", e essa gravação foi o detonador de uma série de concertos que demos pela Europa. Enfim, só posso dizer coisas boas sobre ele. É um grande amigo e um fenómeno, um músico fora de série. Como nos conhecemos bem, é muito fácil chegarmos a um entendimento musical. Esse duo com o Mats transformou-se num trio, de há três anos para cá, e já temos um registo, "Kopros Lithos", com Peter Evans.

 

Também conheceste Peter Evans no Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble?

Não, por acaso conheci-o antes. O Peter é um trompetista extraordinário. Tem tanta facilidade e é tão flexível no que faz que é muito fácil trabalhar com ele. É bom trabalhar com alguém que está sempre contigo. É como correr: podes acelerar, parar, seguir, que ele está sempre contigo. 

É um luxo

 

E a Banda d'Improvisadors de Barcelona, que projecto é?

A BIB é uma formação dirigida pelo guitarrista galego Pablo Rega. Um dia convidaram-me a tocar com eles, como solista convidado. Não pertenço à Banda d'Improvisadors de Barcelona, participei apenas como solista. O Pablo dirige a orquestra segundo os ensinamentos de "condução" de "Butch" Morris, e como eu também já dirigi ensembles tornou-se muito fácil, para mim, juntar-me ao grupo e cumprir o que me pediam.

 

Como é que chegaste ao contacto com eles?

Bom, eles são todos improvisadores e são de Barcelona… Colaboro em projectos idênticos em Londres, em Amesterdão e em Berlim, mas em Barcelona não havia uma orquestra assim. Então é um luxo poder improvisar com músicos que se conhecem bem, como Tom Chant, o Pablo e todos os que fazem parte da BIB. Temos confiança no resultado das improvisações. Já conhecia cerca de metade dos músicos antes da minha participação. Alfonso Muñoz, Ramón Prats, Olga Ávalos, Marc Egea, todos eles já eram meus conhecidos. Os outros não, mas se fazem parte da orquestra é porque sabem o que fazem.

 

E o Free Art Ensemble, com o qual gravaste já dois discos?

O Free Art Ensemble foi criado em finais de 2010 e é um grupo de 10 músicos andaluzes e catalães, liderado pelo trompetista Julián Sánchez. Têm uma estética semelhante ao Art Ensemble of Chicago. Assim como os da BIB, são todos músicos improvisadores que também praticam a "condução". O objectivo do Free Art Ensemble era partir do jazz das décadas de 1960 e 70, do free jazz, e criar a sua própria música, com um som, digamos, espanhol. Têm dois projectos, um com a bailarina de flamenco Sonia Sanchez e o "cantaor" Carles Dénia, e outro comigo. Pediram-me para fazer algumas composições, mas no decorrer do trabalho fomos chegando também à "condução". Nos concertos misturamos partes conduzidas e partes que estão escritas. É uma mistura entre free jazz e improvisação livre. Saiu um disco, não há muito tempo, pela Discordian Records que foi gravado em Barcelona, "Live at Jamboree". É um disco mais actual e mais real do que o primeiro, que servia como apresentação do Free Art Ensemble.

 

Estás envolvido em tantos projectos que é importante falar de alguns deles. O Liquid Trio, por exemplo, que também se alarga a quinteto, como surgiu? 

O Liquid Trio surgiu porque eu queria tocar com Ramón Prats e Albert Cirera, que têm um duo a que chamaram Duot. Foi assim que começaram. Licenciaram-se ambos na Escola Superior de Música da Catalunha, em Barcelona, e fizeram um percurso muito interessante na música improvisada. Eu tinha muita vontade de trabalhar com eles porque têm uma visão diferente da minha, são de uma geração posterior à minha. E chegaram a uma maturidade musical que para mim era muito interessante. É uma coisa que não existia, antes, em Barcelona. Não havia um grupo de músicos que improvisassem com conhecimento do que estavam a fazer e com muita experiência na improvisação. E eles eram assim. São um exemplo de um percurso feito de formação e de trabalho. Tocar, tocar, tocar muito, que é o que permite aos músicos ganhar identidade. E seriedade. Vi-os ao vivo e depois ouvi o seu primeiro disco e percebi que gostaria de trabalhar com eles regularmente, porque nos iríamos entender bem.

Fiz alguns concertos com eles, gravámos um disco ("Primer Dia y Última Nit" (2013) e, um dia, o contrabaixista Johannes Nastejo, que é sueco, escreveu-me a dizer que vinha viver para Barcelona e a perguntar-me se poderíamos tocar juntos. Então apresentei-o aos Duot e percebemos que tínhamos uma estética e uma linguagem comuns. A partir daqui surgiu o Liquid Quintet, que integra também o trompetista Julián Sánchez, oriundo de Granada, e que faz parte do Free Art Ensemble. Já estivemos em minha casa, a gravar, e há um disco no qual estou a trabalhar. O Liquid, basicamente, é o meu nome de guerra para os projectos que tenho em Barcelona. Tenho o Trio e o Quinteto, e em breve poderá surgir um septeto, um octeto ou até um ensemble maior. Tudo porque há músicos em Barcelona com os quais quero trabalhar.

 

Tiveste também o célebre Trio Local, com Joan Saura e Liba Villavecchia…

O Trio Local já não existe, mas era o meu trio de sempre. O Joan e o Liba são dois músicos da minha geração, conhecemo-nos desde sempre, e embora trabalhássemos em vertentes diferentes da música sempre nos interessou a todos a questão da improvisação. Juntávamo-nos para tocar e criámos o IBA, Collectiu d'Improvisadors de Barcelona, com o bailarino Andrés Corchero. Era o meu grupo.

 

Na década de 1990 tiveste uma colaboração com William Parker e com Susie Ibarra, da qual resultou o disco "Live at the Joan Miró Foundation", que foi um dos mais aclamados, na época, pela crítica. Na altura escreveu-se que foram vários os concertos magníficos que se perderam para sempre e que este disco é uma memória única para as pessoas que os presenciaram. Era o trio com que tinhas sonhado, como referiram os críticos?

Não (risos). As minhas razões são muito mais prosaicas. Eu tinha tocado com o William e a Susie em Nova Iorque, num festival, e depois surgiu a possibilidade de vir a Espanha com o trio. Estivemos no Festival de Vitoria, em Sevilha e em Barcelona. Já os conhecia bem a ambos, tínhamos tocado várias vezes juntos em Nova Iorque, quer em duo, em trio e mesmo em quarteto. Naquela época éramos bastante próximos e esse disco é um documento desses momentos. Desde aí não voltámos a tocar porque cada um deles seguiu o seu caminho. Dou-me muito bem com os dois, mas já não são muito próximos. Tenho uma grande admiração pelo William e por tudo o que faz. De vez em quando encontramo-nos em festivais e falamos sempre. Para mim é uma pessoa íntegra, um grande músico e alguém que fez muito por esta música em Nova Iorque.

 

Um trio importante que manténs é o Aurora, com Barry Guy e Ramón López, que já existe há dez anos e tem tido excelente acolhimento da crítica. Sabes explicar porquê?

A reacção das pessoas é algo que nunca podemos adivinhar. Dedicamos o mesmo trabalho e o mesmo carinho a todos os grupos, mas há um que as pessoas aceitam melhor do que os outros. O Aurora lançou não há muito tempo o seu terceiro disco, "A Moment's Liberty", e fizemos uma digressão para apresentar o álbum que começou em Moscovo e passou por Zurique, Dachau e outras cidades da Europa Central. 

Uma responsabilidade 

Em conversa com Ramón Prats perguntei-lhe se não sentia que há uma distância grande entre ti, que és o músico catalão com maior projecção internacional na área da música improvisada, e os outros músicos, que ainda têm de conquistar o seu espaço. Ao mesmo tempo, pareces ter a consciência de que Espanha não é um país fácil para as músicas criativas e que, portanto, se os músicos se juntarem, chegarão mais longe de forma mais rápida…

(risos) Sabes qual é o problema? É que, para mim, isso é uma responsabilidade. Na verdade não posso ajudar, mas posso tocar com eles.

 

Justamente, o Ramón disse que tu és uma inspiração enorme de cada vez que tocas e uma referência para uma série de músicos locais. Achas que é possível ensinar a improvisação?

Bom, eu dou aulas de improvisação e vivo disso, por isso, se digo que não… (risos). A resposta que eu dava antes é que não se pode ensinar improvisação, mas pode-se aprender. O que é muito diferente. O que posso dizer é o que tens de fazer ou não. No fim, és tu que tomas as decisões. Se seguires esse caminho vais aprender a improvisar. Não posso dizer: «muda aqui, muda ali», etc. As decisões sobre o que fazer quando estás a tocar são tuas. Só assim aprenderás a improvisar. Enganando-te, procurando e encontrando o teu caminho.

 

E achas que a improvisação é um estilo de vida?

Sim, definitivamente. É uma maneira de compreender a vida. De compreender o mundo, de te relacionares com ele e com as pessoas.

 

És docente na Escola Superior de Música da Catalunha. Por que razão achas que os músicos ortodoxos do jazz e da clássica defendem que não há uma escola para o ensino da música de vanguarda?

Por desconhecimento. Se desconheces uma coisa dificilmente a poderás defender, explicar ou tentar ensiná-la. Porque não sabes que existe. É pura ignorância. E também porque a tradição, no jazz e na música clássica, é muito forte. Tem séculos. Mas a partir daí há outras formas de fazer música.

 

Por exemplo?

A música improvisada… O problema é que o jazz - e dizê-lo para uma revista de jazz pode parecer estranho - é uma música antiga. O jazz é a música clássica do século XX. E nós já estamos no século XXI. A música define uma época. Tal como Brahms ou Schubert definiram o século XIX, também Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong e Charlie Parker definiram o século XX. Quem define o século XXI é quem está a tocar agora. Mats Gustafsson, por exemplo.

 

E tu?

(risos) Sim, porque estou vivo. Compreendes? Charlie Parker não pode definir o que se passa hoje. No tempo dele não havia Internet, etc… Todos temos ideias que recebemos destes músicos, Sonny Rollins, Charlie Parker, mas agora há outros músicos com outros discursos, que devem ser ouvidos. Muitas vezes não os ouvimos. Ou, quando ouvimos, não queremos compreender o que estão a dizer. Por isso digo que a tradição tem um peso muito grande no jazz. Mas eu gosto muito de jazz e há muitos festivais de jazz que me contratam. Eu não renego o jazz. O que digo é que o jazz definiu uma época, um século. Com os seus ícones, os seus grandes momentos, os seus grandes discos, como a Nona Sinfonia de Beethoven ou as Fugas de Bach. É como a Música Antiga. É música antiga do século XX. Agora estamos no século XXI e é preciso inventar aquela que será a música antiga do século XXII. Temos de a inventar agora.

 

Quais são as tuas influências e referências conceptuais e de estilo no piano e como compositor e improvisador?

No mundo do jazz, a minha grande influência é Cecil Taylor, que tive a sorte de conhecer e que me impressionou em 1973, quando o ouvi pela primeira vez. Lembro-me muito bem porque me transformou completamente. Fascinou-me, ao ouvi-lo, o que se podia fazer com um piano no jazz. Outra influência é Paul Bley. Há outros nomes, mais conhecidos, que nada me dizem.

 

Ornette Coleman é uma influência?

Sim, claro. Até há 10 anos, em Espanha, ninguém falava de Ornette Coleman. Então decidi fazer um disco de homenagem ("Lonely Woman", 2004) a essa grande personalidade do mundo do jazz, embora ele seja considerado um “outsider” pelo universo do jazz mais conservador. O Ornette para mim não é um “outsider”, como não o são o Art Ensemble of Chicago, Cecil Taylor ou Albert Ayler. São as minhas referências e a minha tradição. E há três pianistas catalães que também são grandes influências na minha forma de tocar e de entender o piano: um é, evidentemente, Federico Mompou, pelo que representa no diálogo com os impressionistas, com Debussy e Ravel… Outro é Tete Montoliu, pela ligação à tradição norte-americana. Não toco como ele, mas é uma referência para mim. Por fim, outro pianista em que me referencio é Carles Santos. Trabalhei muito com ele, é um amigo muito próximo e admiro-o imenso. Não o imito, antes pelo contrário, aprendi com ele a ser responsável pelas minhas próprias decisões. E a ser consequente nas decisões que tomo. Sou este que aqui está. Não sou norte-americano, lamento. Não sou grego, nem sou chinês. Sou o Agustí Fernández e defendo-o. Tenho de me orgulhar disso.

 

Há quem encontre, no teu trabalho, uma certa tendência para o minimalismo e o neoclassicismo. Concordas?

Tendência para o neoclassicismo, não me parece. Em relação ao minimalismo, a verdade é que trabalhei muito com Carles Santos e ele tem essa influência. Mas não é uma coisa consciente ou procurada, sequer, da minha parte. Mais do que o minimalismo, a mim agrada-me despojar as ideias até chegar ao essencial. O que não é essencial para mim, deito fora. O que procuro é a essência. 

Vazio histórico

 

Como caracterizas a cena do jazz e da música improvisada em Barcelona?

Está muito viva. Com muitas direcções diferentes e muitos músicos.

 

O que te parece mais importante sublinhar nessas áreas musicais, ao longo da última década, em Barcelona? 

Para mim, desde logo, o desenvolvimento ao nível dos improvisadores. Há uma geração com menos de 30 anos que floresceu e toca, agora, na BIB, no Free Art Ensemble, no Duot…

 

Desde há três anos existe, em Barcelona, a editora Discordian Records, que tem divulgado a música feita na região. Tem tido um papel importante, na tua opinião?

Tem tido um papel importantíssimo na difusão do que se passa no “underground” de Barcelona. É uma sorte termos esta editora. Já só nos falta um clube. Não precisamos de uma sala muito grande, só de uma sala de concertos onde se possam apresentar todos os projectos que existem neste momento em Barcelona.

 

Em que projectos estás a trabalhar actualmente?

Em muitos (risos). Mas os mais importantes são o Trio Aurora, porque tem 10 anos, muitos concertos e reconhecimento. É o meu trio, digamos, um trio muito especial. Gosto particularmente das colaborações em duo. Porque num duo não te podes esconder. Estás mais exposto mas, ao mesmo tempo, é uma situação íntima. Tenho trabalhado muito em duo e é a formação, com o trio, de que mais gosto.

 

Que visão tens do jazz e das músicas criativas em Espanha, nesta altura? Parece-me, pelos concertos a que assisti, que há falta de público. É uma questão de formação, de mentalidade?

São músicas que não têm tradição aqui. Há um vazio histórico em Espanha. Nos anos 1970 e 80, quando estas músicas apareceram e se começaram a desenvolver no resto da Europa e no mundo, aqui ninguém sabia de nada.

 

Porquê?

Porque não havia trocas políticas. Na época de Franco nada disto existia. Não havia comunicação com o exterior. Era muito difícil saber que existia, por exemplo, um Derek Bailey ou um Evan Parker. Não havia contacto. Depois, quando finalmente se começou a fazer alguma coisa, a música a que se deu mais impulso foi a música de raiz popular. A pop, a folk, o rock. Sobretudo no anos 1980. E foi nessa altura que em toda a Europa surgiram os clubes, as editoras, os músicos, foi o momento em que se criaram circuitos. E em Espanha não aconteceu isso. Agora, sim, as coisas estão a mudar. Com os músicos mais jovens, a Discordian Records, dois ou três espaços… Sim, agora a cena está a mudar.

 

Para saber mais

http://www.agustifernandez.com/

 

Discografia seleccionada

Agustí Fernández: “A Trace of Light” (Sirulita, 2013)

Liquid Trio: “Primer Dia I Última Nit” (Sirulita, 2013)

Ken Vandermark / Agustí Fernández: “Interacting Fields” (Discordian Records, 2013)

Agustí Fernández / Barry Guy / Ramón López: “A Moment’s Liberty” (Maya Recordings, 2013)

Mats Gustafsson / Agustí Fernández / Ramón Prats: “Breakin the Lab” (Discordian Records, 2013)

Evan Parker / Agustí Fernández: “The Voice is One” (NotTwo Records, 2012)

Nate Wooley / Joe Morris / Agustí Fernández: “From the Discrete to the Particular” (Relative Pitch, 2012)

Agustí Fernández: “El Laberint de la Memoria” (Mbari, 2011)

Peter Evans / Mats Gustafsson / Agustí Fernández: “Kopros Lithos” (Multikulti, 2011)

Joe Morris / Agustí Fernández: “Ambrosia” (RITI, 2011)

Agustí Fernández / Joan Saura: “Vents” (Psi Records, 2011)

Agustí Fernández / Baldo Martinez / Ramón López: “Trioz” (Universal, 2010)

Trio Local: “Vitralis” (Agartha Music, 2010)

Agustí Fernández / Barry Guy: “Some Other Place” (Maya Recordings, 2009)

Agustí Fernández / Derek Bailey: “A Silent Dance” (Incus, 2009)

Agustí Fernández / John Edwards / Mark Sanders: “Un Llamp que No s’Acaba Mai” (Psi Records, 2009)