Ivo Perelman, 2 de Maio de 2015

Obsessão Callas

texto Fabricio Vieira

Em meio a um período bastante produtivo, o saxofonista brasileiro radicado em Nova Iorque, Ivo Perelman, lançará neste mês novos discos pelo selo Leo Records. Entre as novidades, merece especial atenção “Callas”, álbum duplo registado ao lado do pianista Matthew Shipp em homenagem à mais celebrada das cantoras líricas. «A Callas se tornou uma obsessão nos últimos tempos», disse Perelman, nesta entrevista feita por telefone.    

 

Você vai lançar neste mês dois novos álbuns pelo selo Leo Records...

Sim, são dois duos, um com o pianista Matthew Shipp, chamado “Callas”, e outro com o baterista Whit Dickey, “Tenorhood”.

 

O título “Callas” tem algo a ver com a cantora lírica Maria Callas?

Isso, é uma homenagem a ela. A Callas se tornou uma obsessão nos últimos tempos, é uma história longa, relacionada a um problema de saúde que tive.

  

É aquele antigo problema no braço com o qual você sofreu alguns anos atrás?

Não, dessa vez foi a garganta. Começou há mais ou menos um ano, algo assim. Eu estava tendo muitas dores no pescoço, especialmente após tocar. Mas o que começou a me preocupar mesmo foi quando passei a notar um sangramento na garganta, era uma época em que estava fazendo intensos estudos focados nos agudos... Isso me levou ao médico, que constatou uma lesão similar às que os cantores líricos têm. Descobri assim que a resposta fisiológica dos saxofonistas está próxima da dos cantores. E acabei me tratando como se fosse um cantor e, no final, decidi fazer aulas de canto, o que acabou ajudando a aperfeiçoar minha técnica de respiração. Saí dessa crise com um bônus, um controle extra da respiração.

 

E como a Callas entra nessa história?

Enquanto estudava canto, passei a ouvir ópera com maior atenção e acabei me focando no trabalho da Maria Callas. Passei a ouvi-la cantando o tempo todo, surgiu uma inesperada paixão pelo trabalho dela, essa artista que em seu auge dava tudo que podia pela música, uma entrega total. Tenho colocado os discos dela e improvisado em cima, estudo seus andamentos, vibrato... Tem sido um fator de crescimento enorme, comprei partituras de árias, me concentro muito na respiração dela, é incrível.

 

Daí veio o disco...

Exatamente. Entrei no estúdio com o Matthew Shipp, faz pouco tempo, isso foi em março, começamos a improvisar e ele disse que sentiu que algo mudou na minha maneira de tocar, sem saber como tinham sido meus últimos meses. O álbum será duplo, com uns 40 minutos cada, não é muito extenso. Virou duplo mais por uma questão de coerência: cada um traz uma sessão, que ficaram bem diferentes. E o nome do disco não poderia ser outro, “Callas”.

 

O outro álbum, o duo com o Dickey, também é uma homenagem?

Sim, a saxofonistas que foram importantes para mim.  Por isso o nome “Tenorhood”. Cada faixa é dedicada a um deles: Albert Ayler, John Coltrane, Sonny Rollins, Hank Mobley... Acabaram sendo dois discos tributo, mas foi uma coincidência, nada planejado, um soa bem diferente do outro. É curioso que o problema de saúde que tive tenha ficado exatamente no período entre as duas gravações, então realmente devo estar soando diferente em cada um dos discos. 

Coincidência mesmo

 

Se olharmos seus últimos álbuns, há outros duos. Além desses que estão para sair, no ano passado você lançou um duo com o Mat Maneri (“Two Men Walking”) e outro com o Karl Berger (“Reverie”). O formato tem interessado você especialmente?

É verdade, não sei dizer, acho que é coincidência mesmo. Mas é interessante notar que os duos surgem para mim sempre em momentos de mudanças e pesquisas mais intensas. Esse formato se mostra muito interessante, sou apenas eu e o outro músico, o diálogo fica mais escancarado, aberto, talvez seja esse o motivo de tantos duos recentes.

 

E há algum outro trabalho pronto para sair?

Sim, tem ainda um terceiro disco, “Counterpoint”, com Joe Morris na guitarra e Mat  Maneri  na viola. Como aponta o título, há uma interação contrapontística intensa ocorrendo o tempo  todo, mesmo nas  faixas  mais  tranquilas. Já havia gravado com o Joe na guitarra em dois trabalhos anteriores, um com Gerald  Cleaver, “Living Jelly”,  e outro no qual eu toco  violoncelo, "Strings". E essa formação de sax/guitarra/viola já havia  sido  explorada  por Joe e Mat juntos ao grande  Joe  Maneri no  estupendo "Three  Men Walking". Mas "Counterpoint" vai surpreender muita gente, pois oferece soluções estéticas muito interessantes.

 

Você já tocou com muitos músicos fundamentais da free music, tanto da sua geração quanto de anteriores. Há alguém com quem ainda não teve a oportunidade de gravar e realmente gostaria de fazer algo junto?

Deixa eu pensar... Cecil Taylor seria um deles. Já trabalhei com a maioria dos pianistas que mais admiro, Marilyn Crispell, Paul Bley, Matthew Shipp, Don Pullen, Borah Bergman, Agustí Fernandez, mas com o Cecil Taylor acabou não acontecendo. Outro com quem queria muito já ter gravado é o Evan Parker.

 

E você chegou até a estudar com o Evan Parker, não é?

Sim, ele é uma pessoa incrível, tenho uma admiração enorme por ele. Eu o conheci nos anos 1980, quando tinha uns vinte e poucos anos, ainda não tinha gravado nem meu primeiro disco. Eu estava na Europa naquele momento e consegui, não lembro como, o telefone dele, de quem já admirava muito o trabalho. Resolvi ligar. E ele atendeu, me apresentei, conversamos um pouco e ele disse que quando eu estivesse em Londres que o procurasse, me deu o endereço de sua casa... E pouco tempo depois lá estava eu batendo na sua porta. O Evan, mesmo sem me conhecer, me hospedou na casa dele e passou a me dar aulas. Foi um momento incrível. Imagina você acordar na casa de um ídolo, tomar café com ele e depois ainda ter aulas particulares o dia todo... No fim desse período que fiquei com ele, o Evan me levou para uma gig com alguns músicos da cena londrina. Lembro que quem estava lá também na ocasião era o trombonista Paul Rutherford... Enfim, foi uma experiência excepcional.  

 

Como anda seu trabalho como pintor?

Tenho pintado bastante, acho que estou entrando em um momento de intensificação do meu lado de artista plástico, isso acontece de tempos em tempos. Essa relação com outro campo artístico sempre acaba trazendo novas perspectivas para meu trabalho como saxofonista. Eu devo apresentar uma exposição de quadros meus no Brasil no fim do ano, lá para novembro.  

 

E turnês, alguma visita programada para a Europa?

Faz tempo que não toco na Europa. Estou tentando organizar uma turnê na região, mas ainda não tem nada certo. A Portugal não vou há alguns anos... A última vez que visitei o país foi quando gravei o “Soulstorm”, pela Clean Feed, acho que isso foi em 2009, já faz algum tempo. Mas estou sempre aberto a convites...