Rodrigo Pinheiro, 17 de Junho de 2015

Retrato de um pianista

texto Rui Eduardo Paes

Discreto e de personalidade reservada, Rodrigo Pinheiro tem nos últimos anos conquistado um lugar entre os melhores pianistas nacionais em actividade na área do jazz e da música improvisada, ombreando com figuras como João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha e Júlio Resende. Se o seu nome é imediatamente identificado com o Red Trio, encontramo-lo hoje igualmente em grupos como Earnear e Clocks & Clouds ou colaborando com músicos nacionais e estrangeiros, de Ernesto Rodrigues e André Gonçalves a Lotte Anker e Thomas Lehn. Estivemos à conversa com ele (foto acima de Boris Lulinsky)…

 

Tens estudos clássicos. Até que ponto é isso determinante para a música que tocas hoje?

Aprende-se muito quando todas as notas, a articulação, a dinâmica e a estrutura de uma peça musical são pensadas e reflectidas. Este trabalho tem-me ajudado tecnicamente na minha abordagem ao piano e também na própria improvisação. Por outro lado, estar consciente desta formação permite-me também fugir dela.

 

A tua descoberta da improvisação e do jazz deu-se quando e como? O que significou e o que implicou, no teu desenvolvimento como músico? Tiveste que tipo de formação nesta área?

Os meus pais tinham alguns discos de jazz que comecei a ouvir quando era miúdo e lembro-me de ter ficado fascinado quando descobri que a música era improvisada. Desde sempre que me lembro de procurar ouvir tudo o que conseguia encontrar de jazz, o que não era muito fácil: sou da Covilhã e nos anos 1970 e 80 a interioridade fazia-se sentir de forma muito forte e era muito difícil ter acesso a discos ou a concertos. De qualquer maneira, estando perto da fronteira com Espanha, lembro-me que via frequentemente programas de jazz e clássica na TVE2 (a RTP2 ainda não transmitia na zona…) e aproveitava sempre que havia um concerto por perto.

Trocava também com os meus amigos cassetes que gravávamos de programas de rádio ou de discos que comprávamos. No conservatório tinha também um grupo de amigos interessados em outras músicas. Fazíamos experiências, trocávamos livros e tocávamos também muito. Mais tarde, formou-se uma associação na Covilhã, a Ofmubi, que trazia frequentemente vários músicos à região para fazerem “worskshops” e darem aulas, nas quais participei frequentemente.

De qualquer maneira, posso dizer que, na improvisação, sou um autodidacta. Quase tudo o que tenho aprendido tem sido através do contacto directo com outros músicos, lendo, ouvindo muita música, transcrevendo música de outros e, especialmente, tocando.

 

Nunca quiseste ser um mero intérprete de peças escritas e também nunca esteve nas tuas perspectivas seres um compositor. Assumes-te como um improvisador por inteiro? Qual é o teu conceito de improvisação entendes esta como uma forma de composição ou interessa-te nela o que vai para lá da ideia de compor, de estruturar?

Para mim, composição e improvisação são processos muito semelhantes. Em ambos há a preocupação de desenvolver ao máximo as ideias musicais através de vários métodos e transformações. A grande diferença está no tempo disponível existente para se fazer a tomada de decisão: na composição tudo pode (e deve) ser ponderado e analisado e na improvisação as decisões surgem mais espontaneamente. No entanto, esta espontaneidade na improvisação surge sempre a partir de uma reflexão e de um trabalho anteriores. 

Coisas em comum

Foto de Vera Marmelo 

Foto de Vera Marmelo

Costumas apontar como tuas principais referências Olivier Messiaen, Gyorgy Ligeti, Thelonious Monk e Cecil Taylor. Como é que elas se jogam entre si? Sentiste ou sentes que essas influências eram ou são conflituais, ou apareceram na tua música de maneira natural?

Bem, há muitos outros compositores e músicos de que gosto, mas descobrir a música dos nomes que referes deu-me um enorme prazer. Oiço todo o tipo de música e é para mim difícil compartimentá-la. Nesse sentido, não tenho qualquer tipo de conflito quando trago para a minha música influências dos mais variados tipos. Curiosamente, nos nomes que referes há, para mim, mais coisas em comum do que diferenças: todos eles têm um trabalho extremamente original na música para piano, partindo da tradição e transformando-a por completo.

 

És conhecido, sobretudo, pelo trabalho que desenvolves no Red Trio. Como tem sido essa aventura e o que significa para ti? Projectou o teu nome além-fronteiras, associando-te a músicos como John Butcher, Nate Wooley, Mattias Stahl e Jason Stein, e é cada vez mais frequente fazeres digressões noutros países

Trabalhar com Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini nos últimos oito anos tem sido uma experiência incrível que me tem ensinado muito. Começámos a tocar a partir da ideia de formar um grupo de improvisação livre, quando na altura o normal cá em Portugal era a improvisação estar limitada a situações “ad-hoc”. Foi o primeiro projecto em que participei na improvisação em que foi possível fazer um trabalho colectivo com continuidade.

Este trabalho em continuidade poderia ter o risco de criar rotinas e de estagnar a música do grupo, mas desde o início que criámos entre nós um espaço que nos permitiu sempre ter uma forma de poder explorar ideias novas, de arriscar, de poder falar e reflectir nos nossos erros e sucessos. Desde o início que nos preocupámos sempre em tocar ao vivo, porque é nestas situações que mais se aprende e se evolui. O facto de termos começado a tocar fora de Portugal acabou por ser um processo natural. Tem sido uma experiência muito positiva apresentar a nossa música noutros países, para público que muita das vezes nunca nos ouviu.

 

Além do Red Trio, estás envolvido em outros projectos, como Clocks and Clouds e o recém-estreado Earnear. Falas-me dessas experiências e do que vieram acrescentar ao que já fazias?

Clocks & Clouds é um projecto em que participo com Luís Vicente no trompete, Hernâni Faustino no contrabaixo e Marco Franco na bateria. Foi formado há dois anos e temos um disco que foi editado no ano passado na editora inglesa FMR. Com os Earnear toco com João Camões na viola de arco e com Miguel Mira no violoncelo. Tem uma sonoridade mais próxima da música de câmara e o facto de não existir uma bateria faz-nos pensar na música de modo diferente. Acabámos de lançar um disco na editora canadiana Tour de Bras. Em ambos os casos a música é muito diferente da que faço no Red Trio. Ter estes projectos permite-me também conseguir explorar outras abordagens à improvisação.

 

Tens tido também alguns encontros circunstanciais com outros músicos ou inserido em outros projectos. Lembro-me do duo electroacústico com Thomas Lehn e das colaborações como convidado especial do Motion Trio de Rodrigo Amado. Que situações dessas gostarias de destacar no teu percurso?

Colaborar e conhecer Thomas Lehn foi incrível. O Thomas processou em tempo real o som do piano, e durante o concerto tive a sensação estranha e agradável de estar a reagir à minha própria música, ainda que alterada. Apesar de ele trabalhar com electrónica analógica, é pianista clássico e foram muito agradáveis as horas que passámos a falar sobre o piano.

Nos últimos anos tenho colaborado regularmente também com o Motion Trio, e numa das ocasiões tendo o trombonista Jeb Bishop como o outro convidado. Neste caso a experiência é inversa ao que estou habituado com o Red Trio: toco igualmente com músicos que conheço, mas neste caso no contexto de um grupo com uma linguagem muito bem definida. Conseguir adaptar-me e integrar-me numa formação em que existe uma cumplicidade muito forte entre os seus elementos tem sido um desafio estimulante.

Estou também a lembrar-me da colaboração que eu e Hernâni Faustino fizemos com Lotte Anker, uma saxofonista que admiro desde que ouvi os álbuns do trio que ela tem com Craig Taborn e Gerald Cleaver. Apesar de ter resultado no lançamento de um disco pela Clean Feed, fizemos apenas um concerto num festival em Sibiu, na Roménia. Espero poder retomar esta colaboração brevemente.

 

Tens surgido ocasionalmente a tocar outros instrumentos para além do piano. O Fender Rhodes e o MiniMoog na versão eléctrica do Red Trio, órgão de igreja a solo e está marcada para breve uma actuação tua em cravo, juntamente com André Gonçalves. Também já te ouvi a tocar música electrónica com um simples iPod. O que te motiva nesta troca de ferramentas? Acontecerá isso porque a tua relação com o piano não é especificamente a de um pianista, entendendo o instrumento como apenas uma fonte sonora, não um absoluto?

Assumo-me como um pianista e é esse o instrumento com que me sinto mais confortável e que me interessa desenvolver. No entanto, é complicado conseguir-se em Portugal ter salas com piano, e nas salas que o têm nem sempre há abertura por parte dos programadores à improvisação livre. Estes constrangimentos fizeram com que tivesse a necessidade de explorar outras soluções, especialmente com o Fender Rhodes.

Tirando o aspecto prático, tenho também curiosidade em explorar outros instrumentos de tecla como o órgão (que estudei dois anos, quando estava no conservatório) e o cravo, de que sempre gostei muito. Como não são habituais em contextos de improvisação livre, achei muito interessante aproveitar algumas oportunidades que me foram surgindo de os poder experimentar.

 

Para saber mais

http://rodrigo-pinheiro.com/

http://www.redtrio.info/

https://soundcloud.com/ametade

 

Discografia

Earnear: “Earnear” (Tour de Bras, 2015)

Red Trio: “Live in Munich” (Astral Spirits, 2015)

Red Trio & Gerard Lebik / Piotr Damasiewicz: “Mineral” (Bocian Records, 2015)

Clocks & Clouds: “Clocks & Clouds” (FMR Records, 2014)

Red Trio & Mattias Stahl: “North and the Red Stream” (NoBusiness, 2014)

IKB Ensemble: “Dracaena Draco” (Creative Sources, 2014)

IKB Ensemble: “Anthropométrie Sans Titre” (Creative Sources, 2014)

Red Trio: “Rebento” (NoBusiness, 2013)

Lotte Anker / Rodrigo Pinheiro / Hernâni Faustino: “Birthmark” (Clean Feed, 2013)

Red Trio & Nate Wooley: “Stem” (Clean Feed, 2012)

Nobuyasu Furuya Quintet: “The Major” (NoBusiness, 2012)

Red Trio & John Butcher: “Empire” (NoBusiness, 2011)

Red Trio: “Red Trio” (Clean Feed, 2010)

Variable Geometry Orchestra: “Stills” (Creative Sources, 2007)