João Mortágua, 23 de Junho de 2018

Ritmo e contraponto

texto Nuno Catarino fotografia Márcia Lessa

Natural de Estarreja, João Mortágua conseguiu afirmar-se como um dos mais notáveis saxofonistas da cena jazz nacional. Músico ligado à Porta-Jazz, teve a sua estreia discográfica com “Janela”, em 2014. Desde então vem explorando o jazz de diferentes perspectivas: editou em 2017 dois discos, “Mirrors” e “Axes”, e apresentou recentemente o seu projecto a solo, “Holi”. Na qualidade de “sideman” colabora com músicos como Carlos Bica, André Fernandes e Bruno Pernadas, entre outros. Em 2017 recebeu a distinção de “Músico do Ano” nos Prémios RTP / Festa do Jazz, mas promete não ficar por aqui.

 

Como começaste a tocar? Como chegaste ao saxofone?

Em Estarreja havia uma escola de música na Casa do Pessoal da CIRES, que foi a minha porta de entrada na música, quando tinha 7 anos. O meu professor tinha uma orquestra numa freguesia limítrofe, a Orquestra do Clube Cultural e Desportivo de Veiros, e foi aí que iniciei a prática colectiva. Ao mesmo tempo estava também a aprender piano e o primeiro instrumento em que ingressei no conservatório foi precisamente o piano, aos 9 anos de idade. No ano seguinte, foi o saxofone. Depois fiz um exame de acumulação e consegui levar os dois em paralelo, sendo que o piano foi até ao quinto grau e o saxofone até ao oitavo, até ao final. Isto foi tudo no Conservatório de Aveiro, entre os 9 e os 17 anos: foi lá que tive os meus estudos, foi lá que comecei a ter os primeiros contactos com o jazz. Tinha um professor super-aberto, João Figueiredo, que tinha estudado em Amesterdão e havia sido aluno de uma figura mítica de Estarreja que teve uma morte trágica, o saxofonista Fernando Valente. O João mostrava-me discos de jazz, sobretudo a partir dos meus 14 anos, altura em que percebeu que eu estava realmente interessado em jazz. Sempre me abriu as portas, de certa forma deu-me as minhas primeiras aulas de jazz.

 

Consegues identificar alguns momentos mais importantes nessa aprendizagem?

Aos 15 anos comecei a tocar, num bar na praia da Torreira e, “sem saber ler nem escrever”, ia experimentar os “standards”… Momento importante foi um “workshop” com a Orquestra Juvenil do Centro, conduzido por Paulo Perfeito. Aos 17 tive aulas privadas com Pedro Barreiros, e essa foi a minha preparação para o que se seguiria. Vim para Lisboa a fim de estudar Ciências da Comunicação e fui também para a escola do Hot. Esse foi o ano mais inspirador, porque tive aulas com Jorge Reis. Foi nessa altura que passei o primeiro recibo verde, que tive o primeiro “gig” pago, com um quinteto de saxofones no Hot Clube. Fiz um semestre do curso de Comunicação na Nova e estava no Hot ao mesmo tempo; foi aí que percebi que ia ser músico. E depois fui parar à ESMAE, para fazer a licenciatura de jazz, que na altura era a única. Na ESMAE, o professor que mais me marcou foi Nuno Ferreira.

 

Que outras experiências foram importantes para a tua formação?

Estive dois verões no Siena Jazz, em Itália. Fui na edição de 2010 e depois deram-me uma bolsa para ir também no ano seguinte. Foi aí que estive com os gajos que mais me marcaram, George Garzone, Miguel Zenón, Avishai Cohen…  Mais recentemente, fui a um “workshop” de Jorge Rossy, no Begues Jazz Camp, na zona de Girona. E também houve os “workshops” do Guimarães Jazz, onde estive com John Ellis, Marcus Strickland, Orrin Evans, entre outros.

 

Quais foram os discos que mais te marcaram?

Comecei por ouvir aquilo que estava a ser feito. Lembro-me de comprar o “Introducing Brad Mehldau”, a conselho de João Figueiredo, e também um disco de Joshua Redman, “Beyond”. Lembro-me de comprar o “Standard of Language” de Kenny Garrett… Ou seja, ouvia aquilo que estava a acontecer. Antes disso tinha comprado um disco de Michel Portal e achava um piadão àquilo… E tinha os discos do meu pai. Não eram muitos, mas tinha uma selecção variada. Um dos que mais me marcaram foi o “Return to Forever” de Chick Corea. E depois também muita música brasileira, Chico Buarque, Milton Nascimento… E havia ainda António Pinho Vargas, que foi muito provavelmente a minha primeira incursão pelo jazz português. Do Coltrane, o primeiro que ouvi foi o “Coltrane Sound”, embora hoje em dia o meu preferido seja “Africa Brass”. Nessa altura mostravam-me discos e discos, tanto ouvia coisas mais clássicas como discos de fusão, discos da ECM… Do Shorter, o primeiro talvez tenha sido o “The Soothsayer”. Porém, os primeiros foram mesmo os daquela malta nova, Kenny Garrett, Branford Marsalis. Depois veio o percurso de ouvir Charlie Parker, Hank Mobley, Dexter Gordon, as coisas todas da tradição… 

Altas referências

 

E saxofonistas actuais, quais são os que mais te têm marcado?

Em termos composicionais adoro David Binney. Gosto muito da malta nova, Lars Dietrich, Ben Van Gelder… São rapazes da minha idade e atrai-me a frescura que eles trazem. Também Soweto Kinch, esta onda meio “groove” com uma forma superlivre de tocar. Miguel Zenón, obviamente. Há um tipo novo que toca com Petter Eldh, que é Wanja Slavin. Toda essa vertente mais free também me atrai muito. Tim Berne. Houve uma altura em que o ouvia muito, porque é um tipo “over the ground”. John Zorn, sobretudo composicionalmente: faz muita coisa diferente e é uma inspiração. Acho que só falei de altos, mas também gosto de tenores, claro. Walter Smith III, por exemplo. É alta referência…

 

Tocas os saxofones alto e soprano. Como tem sido a tua relação com estes e outros saxofones?

Experimentei quatro… O tenor nunca foi o meu instrumento de eleição. Tenho um tenor em casa. Numa banda de afrobeat tocava tenor de forma descomprometida, mas não me sinto completo com ele, nem sinto que seja um bom tenor. Do barítono gosto muito: o meu primeiro concerto no Hot Clube foi num quinteto de saxofones a tocar barítono e quando fui para a ESMAE continuei a tocar barítono na “big band”. É numa “big band” que dá uma especial sensação de “power”! Mas os meus saxofones são mesmo o alto e o soprano, são estes que toco regularmente.

 

Em 2014 editaste o teu primeiro disco, “Janela”. Que ideias quiseste apresentar nesse álbum de estreia?

A minha ideia principal no “Janela” era juntar a minha vertente de poeta com a música. A ideia de ter letras, a polémica decisão de ser eu a cantar (com as minhas limitações). Se fosse hoje o processo não se desenrolaria da mesma maneira, porque na altura escrevi as letras depois da música. Se fosse ao contrário poderia ter ganho outras coisas… Hoje faria de forma diferente. Foi um disco porreiro naquela altura, porque foi uma súmula das canções que andava a escrever. Acabei a ESMAE em 2009, toquei com imensa gente, fiz-me à vida, dei aulas, andei por todo o lado, e passados esses cinco anos peguei nas canções que tinha e decidi compilá-las num disco. Foi importante nessa fase porque ficou registado. Desde então tenho optado por compor de outra forma.

 

Depois chegou o segundo disco, “Mirrors”, em 2017. Como chegaste a esta música, muito diferente do primeiro disco?

O “Mirrors” foi muito importante, primeiro porque tive a sorte de ser convidado pela Porta-Jazz para fazer o projecto em parceria com o Guimarães Jazz. Ao proporem tocar com músicos estrangeiros, pensei automaticamente na malta com quem já costumava tocar na Galiza. Acabei por escolher um trio de músicos de jazz que também tocam stoner - Virxilio da Silva, Felix Barth e Iago Fernandez - e sobrepus a isso o saxofone e o trompete. O processo de composição foi todo esse: pensar em “riffs” de rock e pôr saxofone e trompete a pairar por cima, a fazer contrapontos, e daí voei para outras coisas. Aventurei-me noutros espectros, passei a pensar a música de forma mais abrangente. Eles são todos músicos incríveis e espero poder voltar a trabalhar com eles, porque adoro esta banda.

 

Quase ao mesmo tempo editaste um outro projecto, “Axes”, também numa configuração pouco habitual. Como surgiu?

Nasceu de uma ideia já antiga, a de fazer um quarteto de saxofones, e de uma outra ideia, a de ter um grupo com duas baterias. Resolvi juntar esses dois mundos. De alguma forma a música soava toda mais fresca, porque é uma situação pouco habitual. Tens o World Saxophone Quartet e pouco mais. Comecei a escrever para esta formação e fiquei viciado. Vou fazer outro disco com eles porque é mesmo uma formação aliciante para um saxofonista.

 

Quais são as ideias que mais valorizas no processo de composição?

Ultimamente, ideias de ritmo e contraponto. Tenho explorado cada vez mais, por exemplo no grupo Janela, o contraponto, as texturas… Muito contraponto e ritmo, cada vez mais.

 

Para o teu processo de composição, onde vais buscar inspiração, para além da música?

Vou, sobretudo, buscar inspiração à fotografia, à pintura… por vezes ao cinema. Mas sobretudo às imagens, às pessoas e à natureza.

Um “upgrade”

 

Acabaste de apresentar ao vivo, no Serralves em Festa, o teu projecto a solo, chamado Holi. Como surgiu?

Estou a experimentar a performance a solo com pedais de efeitos e tudo o mais. Acho que houve um “upgrade”. Estive relutante durante muito tempo - com aquela ideia da pureza -, mas percebi que esta é uma outra forma de criar, é uma inspiração. Estava a precisar de uma lufada de ar fresco. A par desse projecto a solo estou a desenvolver um outro, as “Duo Sessions”, para gravar duos, sempre na perspectiva da improvisação. Isto está ligado a uma associação que é a Ato Imediato, da qual sou presidente e que conta com músicos de Coimbra, e no seio da qual iremos trabalhar outras ideias em breve.

 

Tens um projecto recente, um trio com Carlos Bica e André Santos. Como surgiu?

O grupo surgiu primeiro com eles; eu só me juntei depois. O André fez um “gig” comigo na SMUP, um quarteto com Marco Franco na bateria, e o Bica estava lá a ver. O André queria tocar com ele e começaram por um duo. Nesse tal concerto, Carlos Bica viu-me a tocar e disse: «Temos de chamar o Mortágua.» E lá fui eu todo contente: é alta inspiração tocar com o Bica. Assim tem sido. Tocamos música dele e do André, e eles têm tanta música boa… Entretanto, surgiu também um outro trio, com o Bica e Luís Figueiredo. Para mim, é uma grande inspiração tocar nestes dois grupos.

 

Há ideia de gravar estes dois trios?

Gravámos os “gigs” que fizemos no Hot Clube, com o Bica e o André. Para já vamos tocar, não há grande pressa, mas adorava que fossem ambos para estúdio, claro!

 

Estás também a tocar no projecto Centauri de André Fernandes. Como entraste no grupo?

Foi um convite do André, que aconteceu há cerca de um ano. Foi numa altura em que tinha tocado com o Zé Pedro [Coelho] na Festa do Jazz, integrando-o no meu grupo Janela, e passei a tocar também com ele no grupo do Fernandes. Foi algo fluido e natural, e agradou-me saber que o André ia chamar o [Francisco] Brito e o [João] Pereira, a nova geração em peso! Juntando músicos do Norte e do Sul, o que também é fixe.

 

Participas ainda no grupo de Bruno Pernadas que lançou “Worst Summer Ever”. Como tem sido esta experiência?

Tem sido muito boa; constitui uma oportunidade de tocar com o Desidério [Lázaro], que é um saxofonista que também admiro. Este grupo do Pernadas proporcionou isso: é o primeiro grupo em que me cruzo com o “Dizzy”. Toda a banda é incrível. A música do Pernadas é boa, ele escreve muito bem.

 

Tens aparecido igualmente em vários outros projectos. Em que grupos estás envolvido neste momento?

Neste momento há os Racing Mackarels de Nuno Ferreira, vamos gravar agora. Há também os pLoo, banda de Paulo Costa, um percussionista do Porto, e o trio do contrabaixista Filipe Teixeira. Há o Alexandre Coelho Quarteto, que ensaia em Coimbra. É um grupo porreiro, porque o Alexandre explora muito a vertente do “swing”. É fixe, dá-me alta pica. 

Com bons olhos

 

Já falaste de Desidério Lázaro e de José Pedro Coelho, dois dos muitos saxofonistas que têm aparecido em cena. Como tens encarado o surgimento desta nova geração de músicos, particularmente os saxofonistas?

Com bons olhos, porque isto está cada vez melhor! Gajos com o nível de Ricardo Toscano nunca houve e isso é óptimo! Temos de nos puxar uns aos outros para cima. Se assim não for a malta estagna. Também vejo com muito bons olhos a malta mais nova, os meus alunos por exemplo. Preocupa-me o futuro deles, vamos ser muitos para poucas oportunidades, a menos que isto mude radicalmente. Aquilo que tento é aconselhá-los a irem para fora, a concorrerem às escolas europeias ou a irem para a América.

 

De facto, em paralelo com a actividade musical também dás aulas, no Conservatório de Coimbra. Como concilias as duas actividades?
A verdade é que os dias que passo em Coimbra acabam por ser os dias em que mais componho. Vou ao Porto para ensaiar e tocar. Houve um período em que dava sobretudo aulas de combo, agora estou só a dar aulas de saxofone. Deixa-me a mente mais livre para o resto.

 

Em 2017 ganhaste o Prémio RTP / Festa do Jazz de “Músico do Ano”. O que representou para ti?

É sempre um privilégio, uma honra enorme, receber um prémio destes. Mais prémios houvessem, mais gente seria premiada. Este ano foi Rita Maria e fiquei muito contente, porque adoro a Rita. Venham mais! É um mimo muito simpático para a malta que anda por aí a fazer projectos, a trabalhar.

 

Tens estado ligado a vários projectos da Porta-Jazz. Como vês a sua importância?

Para mim a Porta-Jazz é um projecto único. Sou suspeito para falar, mas tenho noção de que é algo que não existe em mais lado nenhum, mesmo na Europa... Há associações parecidas, mas com tanta produção de discos, produção independente agregada na Carimbo Porta-Jazz, a quantidade de ciclos e concertos que são promovidos… Esta malta é inigualável! Nunca tiveste um festival como o de Dezembro de 2017, com uma representação tão grande de músicos portugueses e europeus… Isso para mim é um orgulho e sou muito grato a João Pedro Brandão e à sua equipa, que têm dado o litro pela associação... Muito orgulho na Porta-Jazz!

 

Quais são os projectos que tens planeados para os próximos tempos?

Tenho dois na manga, que vou gravar em breve. Um deles é o Math Trio, com Diogo Dinis e Pedro Vasconcelos. O outro é o MAZAM, com Carlos Azevedo, Miguel Ângelo e Mário Costa. Estou a escrever música para este projecto e está a ser muito fixe, porque eles tocam mesmo bem os três juntos – são também a secção rítmica do Ensemble Super Moderne. Para breve está previsto o segundo disco de Janela. E para o ano será editado o segundo disco dos Axes.

 

Para saber mais

https://portajazz.com/carimbo/joao-mortagua/

https://nischo.com/portfolio-items/joao-mortagua/