Gonçalo Almeida, 28 de Dezembro de 2022

Explorar, explorar e explorar

texto: António Branco / fotografia: Nuno Martins e Vera Marmelo

O contrabaixista, baixista, compositor e improvisador Gonçalo Almeida acaba de lançar na Shhpuma (subsdiária da Clean Feed) “Improvisations on Amplified and Prepared Double Bass”) e já tem outro disco de contrabaixo solo prestes a sair, “Compositions for Double Bass”, na sua própria editora, a Cylinder Recordings, fundada em 2015 e com um catálogo que importa desbravar. No passado já havia lançado no formato solitário “Monólogos a Dois” (2021) e “Monologues Under Sea Level” (2015).

No seu álbum mais recente questiona o futuro da abordagem ao contrabaixo, apontando novos caminhos. O músico português apresenta-se com um instrumento amplificado e preparado, explorando o equilíbrio entre um lado orgânico e a eletricidade que acopla, geradora de feedback e distorção. A música é feita de detalhes; com uma peculiar utilização do arco, e o amplificador e o pedal de volume a criarem atmosferas sonoras desafiantes. Tudo isto requer mais criatividade do que equipamento: «O meu setup é simples», diz, «apenas um amplificador e um pedal de volume.»

Gonçalo Almeida é conhecido pela sua atividade frenética, entre discos e digressões das várias formações de que faz parte, em vários tabuleiros sónicos, como Albatre, The Selva, Ritual Habitual, o trio The Attic (com o saxofonista Rodrigo Amado e o baterista Onno Govaert, que este ano nos ofereceu o excelente “Love Ghosts” na lituana NoBusiness ou Spinifex (o novo “Spinifex Sings” (Trytone) foi recenseando na jazz.pt aqui). Lá atrás ficaram os inesquecíveis Lama, com a trompetista Susana Santos Silva e o baterista (e manipulador de eletrónicas) Greg Smith, em álbuns como “Oneiros” (2012), “Lamaçal” (com o convidado Chris Speed, 2013), “The Elephant's Journey” (2015) e “Metamorphosis” (2017), os dois últimos com a participação do clarinetista belga Joachim Badenhorst.

Nascido em Lisboa em 1978, Gonçalo Almeida estudou na Escola Luís Villas-Boas do Hot Clube de Portugal antes de em 2002 rumar a Roterdão, Países Baixos, para prosseguir estudos de música no Departamento de Jazz do Conservatório daquela cidade, por não existirem na altura em Portugal programas de ensino de jazz nas escolas superiores de música. Faz hoje parte do fervilhante hub criativo da cidade e do país, a partir do qual se desdobra em múltiplos projetos, combinando free jazz, jazzcore, improvisação livre e explorações eletroacústicas.

Ao longo do seu percurso, e para além dos mencionados, já colaborou, em disco ou em concerto, com improvisadores como Ab Baars, Balasz Pandi, Carlos “Zíngaro”, Fred Lonberg-Holm, Jasper Stadhouders, Jorrit Dijkstra, Martin van Duynhoven, Tobias Klein ou Wilbert de Joode. Tem vindo também a trabalhar com gente de outros campos artísticos – multimédia, dança, poesia e teatro – como Arnold Dreyblatt, Julyen Hamilton e Rita Vilhena.

Estará em Portugal no início de 2023 com The Monkious – projeto assente na música de Thelonious Monk –, que partilha com o guitarrista Marcelo dos Reis e o baterista alemão Philipp Ernsting. Em mãos tem outros projetos que aguçam expetativas, como Sonitus Missarum com os bateristas Pedro Melo Alves e João Valinho e João Almeida nas eletrónicas, e o Misanthrope Trio, com o guitarrista Luís Lopes e o mesmo Ernsting na bateria.

Preparados?

 

“Improvisations on Amplified and Prepared Double Bass” é o teu novo álbum a solo para a Shhpuma, selo subsidário da Clean Feed. Como o caracterizas?

Este é um trabalho de exploração sonora a par de improvisação livre, criado ainda dentro do panorama da pandemia e resultado de uma gravação que fiz no atelier de um artista amigo (Gilbert van Drunnen) perto de minha casa em Roterdão. A improvisação e uso de técnicas alternativas no contrabaixo é algo que exploro bastante em situações acústicas, mas neste caso decidi desenvolver em paralelo com a possibilidade assumida do uso de amplificação. É um álbum que caracterizo como bastante experimental e que reflete a minha procura por matérias tímbricas, texturais, ruidosas e abstratas, que são resultado de improvisações entre a ressonância do instrumento e o amplificador.

Este não é o teu primeiro álbum neste contexto desacompanhado: há também “Monólogos a Dois” (2021) e “Monologues Under Sea Level” (2015). O que aproxima e afasta estes registos?

O que aproxima estes registos é o facto de serem improvisações livres no contrabaixo e de terem uma linha condutora exploratória, com a procura constante de novas sonoridades, texturas, timbres e sempre com a experimentação como plano de fundo. O que os afasta é também no fundo essa procura pessoal, que leva a resultados bastante diferentes e diversos, uns mais ruidosos, outros mais harmoniosos. Por exemplo no álbum “Monólogos a Dois” a improvisação interage com o espaço arquitetónico (uma antiga igreja no sul de Roterdão) e naturalmente assume uma sonoridade de câmara, muitas vezes “cantada” com uso do eco do lugar, enquanto no álbum “Improvisations on Amplified and Prepared Double Bass” as improvisações tornam se mais ruidosas, sujas, num tom rude e assumidamente mais anárquico, resultado da interação sonora com o amplificador.

Parece então claro que é um formato que te desafia. O que buscas com estas indagações solitárias?

Acho que o contrabaixo é um instrumento com um potencial tímbrico incrível e com um espectro sonoro muito alargado, pelo qual tenho enorme curiosidade e interesse. As minhas incursões a solo, devem se a essa necessidade de procurar um lugar intimista nas improvisações, como monólogos pessoais. É óbvio que também posso encontrar essa intimidade ao tocar em diferentes formatos de ensemble, a improvisação vive do diálogo, contudo o formato a solo permite certas subtilezas e minúcias técnicas que acho pessoalmente muito interessantes explorar, às quais tenho dedicado muito a investigar.

Como o título deixa claro o que aqui escutamos são improvisações. Ainda assim, houve algum tipo de trabalho prévio específico ou tudo foi absolutamente criado em tempo real?

Este trabalho reflete a minha inquietação e necessidade de agitação, de procura constante de novas formas, novos caminhos pessoais em que o processo de criação não tem limites, aberto a novas abordagens e novos desafios. O resultado foi este, poderia ter sido diferente, a música foi totalmente improvisada e o único trabalho prévio que tive, foi pensar no tipo de setup que iria utilizar e como o fazer. Tudo se modelou no local, na hora de tocar e interagir com o som, as improvisações tomaram forma no espaço, na ação táctil, na construção vs. desconstrução, na composição e transformação momentânea.

Escutando o álbum e analisando os caminhos que nele trilhas, ressalta evidente que continua a haver na tua abordagem uma confluência de distintos universos sonoros, dos jazzes ao rock mais duro, passando pela música de câmara contemporânea e pela livre improvisação, que destilas numa abordagem muito particular, sempre muito imagética...

O desafio de tocar improvisações ad hoc, tocar material estritamente escrito, tanto totalmente acústico quanto totalmente elétrico ou a combinação de ambos, é algo que sempre me intriga. Não estou muito interessado em definir fórmulas puras e convencionais, ou assentar numa única abordagem idiomática. Tudo é possível e procuro sempre ser criativo, porém o experimentalismo é o elo e um dos principais pontos comuns em todos eles. Gosto de explorar constantemente diferentes constelações musicais, é uma necessidade pessoal e criativa. Interagir com diferentes músicos/instrumentos e procurar sinergias que levem a resultados variados dá me imenso gozo. É também uma forma de estar constantemente ativo e explorar a música de várias formas, sempre com a experimentação como plano de fundo.

De que forma concebes a prática da improvisação?

A música improvisada é para mim uma forma fundamental de interação com outros músicos para criar música no momento, ou chamada de composição instantânea. O que acho tão interessante neste tipo de abordagem é que não há limites para explorar a criatividade e abordar elementos não funcionais nos instrumentos. Essa abordagem não idiomática é definitivamente uma forma universal de comunicação que eu acho incrível.

O que te levou a enveredar por caminhos mais arriscados e experimentais?

A constante necessidade de procura criativa, o gosto pelas sonoridades alternativas da cultura underground, da sua agitação e contraste com os estereótipos e formas mais conservadoras. Na minha criação musical, não me seduzem os conformismos, muitas vezes ligados à dificuldade da tradição se reinventar. Todavia isto não quer dizer que não goste de ouvir, entenda ou respeite formatos tradicionais, é simplesmente uma escolha pessoal.

Questionado sobre se há muito mais a explorar no contrabaixo, Barre Phillips respondeu acreditar que sim, porque é assim que a vida é...

Palavras sábias de um mestre do contrabaixo. Um dos meus favoritos... Nada muito a acrescentar, explorar, explorar e explorar, com isso procurar um lugar pessoal no uso do instrumento.

Quais são as tuas principais referências no que diz respeito a álbuns de contrabaixo solo?

Eu tenho uma coleção vasta de discos a solo, em que poderia destacar Joëlle Léandre, Stefano Scodanibbio, Carlos Bica, Wilbert de Joode, etc., todos figuras inspiradoras para mim. Barre Phillips, acho que é um “mágico” do contrabaixo, com uma musicalidade incrível, o último disco pela ECM, “End to End”, é uma receita de música e sabedoria. Destaco ainda Dave Holland “Emerald Tears”, Fernando Grillo “Fluvine”, Joëlle Léandre “Sincerely”, Kent Carter “Solo”, John Lindberg “Coming and Going”, Maarten Van Regteren Altena “Handicaps”; “Tuning the Bass”, são alguns dos álbuns que posso referenciar como inspiradores e de músicos distintos no uso do instrumento. Mas destaco Peter Kowald “Open Secrets” e “Was Da Ist”, sendo este último o disco que abriu uma porta muito importante na minha vida como músico, o contrabaixo na improvisação livre.

 Gonçalo Almeida

 

Caos, densidade e devoção

Recordas-te dos teus primeiros contactos com o a música? E porquê a opção pelo contrabaixo?

Desde cedo tive gosto por música, embora o jazz tenha aparecido mais tarde quando decidi ir estudar música para a Escola Luís Villas-Boas (Hot Clube) levava já dos tempos da escola secundária um enorme interesse em música alternativa do metal ao rock progressivo, etc... foi essa a razão que me levou a pegar de forma autodidata, no baixo elétrico e tirar enorme satisfação a tocar em bandas de garagem e constantemente trocar discos com amigos.

O jazz surgiu de forma paulatina ou foi uma epifania mais ou menos inesperada?

Cresci a ouvir rock e metal, essas raízes, essa energia e gostos ficaram sempre comigo e obviamente têm influência na minha música. Mais tarde um amigo apresentou me uns discos de jazz e comecei a ter interesse e a ficar curioso por esse género musical e a sua história, como que descobri um novo mundo. O passo seguinte foi estudar formalmente música, comecei os meus estudos na escola do Hot Clube de Portugal (Luís Villas-Boas) e foi nesse momento que comecei a estudar contrabaixo.

Hoje repartes-te entre o contrabaixo e o baixo elétrico, que utilizas nos vários projetos e formações que integras… Tens preferência por algum destes instrumentos?

Esta é uma pergunta que me colocam várias vezes, e à qual eu respondo de que é a pergunta do yin e yang, os dois instrumentos permitem me abordagens e formas de estar na música distintas , um pelo sentido sensorial mais delicado e acústico, o outro pela forma mais visceral e pesada. É o equilíbrio dos dois que acabam por fazer a minha forma de estar na música e têm como linha condutora o experimentalismo. Ainda assim confesso que o contrabaixo é o instrumento que mais procuro explorar e com o qual sinto um afeto especial.

Quais as razões que te levaram a radicar-te nos Países Baixos? Como foi o processo de integração numa cena tão vibrante?

Em 2002 fui viver para Roterdão para seguir os meus estudos de música no departamento de jazz do conservatório daquela cidade. Na altura o ensino do jazz em Portugal, não existia nos programas de ensino das escolas superiores de música, (algo que mudou desde em então), razão que me levou a procurar alternativas, as quais encontrei na Holanda, onde os departamentos de jazz nos conservatórios das várias cidades, existiam fazia mais de 25 anos. A integração foi ótima, com exposição a novas culturas, novas tendências e colegas de todos os cantos do mundo, embora o ensino tivesse um cunho bastante tradicional, foi fora da academia, em contacto com outros músicos, que encontrei formas e abordagens mais “fora da caixa”, pelas quais me interessei um pouco após a chegada e que ainda hoje me identifico.

Há alguns momentos marcantes no teu processo evolutivo que gostarias de assinalar? Que referências, musicais e outras, consideras essenciais para hoje seres quem és enquanto músico?

Acho difícil identificar e reduzir a momentos específicos esta questão. Acredito que tudo o que sou como músico é pelo caminho que percorri num todo, desde o mais académico ao mais alternativo, onde tudo acaba por ser resultado das muitas influências criadas, pelos músicos que oiço, ou com quem toco, pelas tours, pelas diversas culturas, etc... Todo o ambiente em torno da música acaba por ser o gesto que me leva sempre a procurar novos desafios , novas ideias e assim evoluir de alguma forma. Sempre tentei ouvir o máximo de géneros e estilos possíveis e descobrir novas influências com eles. Cresci a ouvir rock e metal, e essa energia e som sempre terão impacto na minha música. Recordo a oportunidade de ver o trio Carlos Bica Azul (1996) em Lisboa, e que isso influenciou o meu interesse de saber mais sobre jazz e especificamente contrabaixo, acabando por a eleição do instrumento ser natural, o que me fez querer estudar na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal. Em termos de jazz identifico me com grandes mestres, Chambers, LaFaro, Haden, etc… Mas definitivamente lembro-me de abrir o meu espectro musical na primeira vez que ouvi Peter Kowald.

Fazes parte do trio The Attic, de configuração “clássica” saxofone-contrabaixo-bateria, com Rodrigo Amado e Onno Govaert. Depois de um homónimo álbum de estreia em 2017 e do registo ao vivo “Summer Bummer”, de 2019, chegou há pouco o notável “Love Ghosts”. É uma geometria sonora ao mesmo tempo íntima e vasta e que concede grande espaço de intervenção aos músicos. Um desafio permanente?

Este é um trio que desenvolve a sua linguagem dentro do espetro da improvisação livre e do free jazz, sem qualquer preparação de estrutura prévia, não existindo nenhum tipo de elementos pré determinados ou combinados, surgindo as escolhas individuais de cada músico de forma espontânea. O desafio neste encontro assenta sobre a interação musical, que revela ter uma fluidez bastante natural e grande equilíbrio dinâmico por parte dos três.

Integras o trio The Selva, com o violoncelista Ricardo Jacinto e o baterista e percussionista Nuno Morão, uma inusitada arquitetura instrumental que nos tem oferecido álbuns magníficos e esteticamente inclassificáveis. O que está nos vossas planos?

Os The Selva são um trio muito especial para mim, pois é um projeto em que a música está sempre em evolução e mutação, algo que me atraí muito a nível sonoro e criativo. A improvisação tem-se tornado um utensílio de composição, em que a procura de novas sonoridades eletrónicas, a par do trabalho acústico, tem sido constante e que acaba por revelar abordagens “multienzimáticas”. Algo que se traduz bem no nosso próximo disco “Camarão Girafa” que irá ser publicado no próximo ano pela editora Clean Feed.

Também tens colaborado com Hugo Costa, outro músico português – saxofonista – que escolheu os Países Baixos para viver e trabalhar. Como tem sido esta parceria?

Com o saxofonista Hugo Costa e o baterista Philipp Ernsting, ambos com base em Roterdão, criei o trio Albatre para algo explosivo de alta energia e volume. Desde o inicio foi sempre o nosso mote, música de uma linha a rasgar, um grito, uma exclamação, focada num volume alto e que tivesse um impacto físico. A música tem ambos os lados que tanto vão beber ao free jazz como ao prog rock noise, mas que têm acima de tudo um fio condutor o volume e peso metálico. Sem dúvida o projeto mais pujante e desenfreado de que faço parte, com três discos lançados na editora Shhpuma, e com o qual já fizemos extensas tours pela Europa e uma visita ao Japão. Neste momento estamos a trabalhar novo disco que esperamos lançar no próximo ano.

E os Lama, em que pé estão? Ou não estão?

Este trio que foi o inicio de muitos caminhos e com o qual tenho muito boas memórias, pós vários anos de existência e quatro discos editados, chegou naturalmente ao seu fim. Foi um desfecho natural, em que os três membros tomaram caminhos ativos com muitos outros projetos.

Estarás em Portugal no início de janeiro com os The Monkious, que partilhas com o guitarrista Marcelo dos Reis e o baterista Philipp Ernsting. Que projeto é este?

Como o nome indica é um projeto com base na música de Thelonious Monk, são abordagens a temas de Monk com o espírito da improvisação livre, em que as melodias são desconstruídas e as estruturas harmónicas abertas, levando sempre a resultados e soluções diferentes. Creio que a música de Thelonious Monk é totalmente contemporânea e única, com a qual é fácil assumir uma natureza vanguardista intemporal.

Há também Sonitus Missarum com os bateristas Pedro Melo Alves e João Valinho e João Almeida nas eletrónicas, e o Misanthrope Trio, com o guitarrista Luís Lopes e o mesmo Ernsting na bateria, e outros projetos...

Ambos os projetos (assim como Ikizukuri, que conta com Julius Gabriel no saxofone e Gustavo Costa na bateria, Cement Shoes com Giovanni diDomenico no Rhodes e electrónica, Balaz Pandi na bateria, Low Vertigo, com Diego Caicedo na guitarra e Vasco Trilla na bateria, e Roji com o baterista Jorg Scheneider) são projetos que a improvisação caminha lado a lado com sonoridades metálicas, frenéticas, noise com efeitos de busca de um lado mais forte e psicadélico. Sonitus Missarum é um projeto que criei a par com os bateristas Pedro Melo Alves e João Valinho, e conta com João Almeida, este a assumir o controle das eletrónicas com utilização de no input mixer. Focado em três grandes atos de congregação: caos, densidade pulsante e uma devoção implacável para impulsionar a criação, baseia-se em disciplinas musicais como punk, jazz, death metal e improvisação livre, o que resulta numa expressão sonora de uma existência turbulenta, porém unitária. O concerto de estreia será no próximo dia 14 de janeiro na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Misanthrope Trio é uma colaboração que surgiu por ter apresentado o guitarrista Luís Lopes, ligado à música improvisada e experimental, ao baterista Philipp Ernsting, com quem toco em projetos como Albatre, Ritual Habitual e The Monkious. E que resultou em música de combustão instantânea, experimental, com dinâmicas fortes e pouco ortodoxa, e que foi lançado em disco o ano passado, na Subcontinental Records. Para fevereiro de 2023 estão programadas datas no Benelux.

E há os Spinifex...

Os Spinifex são um projeto com base em Amsterdão do qual faço parte há mais de dez anos, que conta com um leque internacional de músicos (Tobias Klein no saxofone alto, Bart Maris no trompete, John Dikeman no saxofone tenor, Jasper Stadhouders na guitarra e Philipp Moser na bateria) que produziu sete álbuns na editora Trytone, com extensas tours internacionais. No passado verão fizemos uma tour em Portugal, em colaboração com as cantoras Priya Purushothaman e Björk Níelsdóttir, que resultou no último trabalho “Spinifex Sings” gravado nos estúdios Namouche.

Estás envolvido noutros projetos que queiras destacar?

Em 2020 criei um novo ensemble com base em Roterdão de seu nome Hydra Ensemble, na procura de utilizar sonoridades mais relacionadas com música de câmara, com paisagens sonoras mais tranquilas e com o toque de abstração da música contemporânea, a par da improvisação. Este projeto, em que utilizo o contrabaixo, conta com as violoncelistas Nina Hitz e Lucija Gregov e na eletrónica Rutger Zuydervelt (aka Machinefabriek, o qual teve colaboração com os The Selva, num disco editado pela Shhpuma). Os Hydra Ensemble contam com dois discos: “Voltas” (Inexhaustible Edition, 2021) e “Vistas” (New Wave of Jazz, 2021).

Também tens trabalhado na interface com outras expressões artísticas, como a dança, a poesia, o teatro, o vídeo e multimédia... Interessa-te continuar a explorar estas zonas de interseção?

Sim, pontualmente surgem projetos em parceria com outras disciplinas artísticas, algo que sempre me seduziu e acho fascinante interagir. No passado recente , ajudei a criar os Rotterdam Kinematic Ensemble, um ensemble de geometria variável que compõe em tempo real a banda sonora de vários filmes de cinema mudo do início do século. Essa interação de som imagem é muito interessante e o resultado sonoro muitas vezes surpreendente, quando escutado posteriormente.

Vens regularmente a Portugal. Estás atento ao que se vai fazendo por cá? Queres nomear alguém que te tenha impressionado especialmente nos últimos tempos?

Prefiro não fazer nomeações, até porque não conheço muitos músicos da nova geração, que creio ter muito para dar e com alguns dos quais gosto imenso de fazer música.  Por isso destaco o facto de admirar e achar muito positivo, de que muitos dos novos e talentosos jovens músicos nacionais, quebrem as barreiras dos estereótipos académicos do jazz e música improvisada e estejam interessados em criar música transversal a todos esses e outros géneros, assumindo com curiosidade a mistura de estilos e a diluição de modelos conservadores na contemporaneidade e experimentalismo da música atual.

O que poderemos esperar do teu trabalho a breve e médio prazo?

Para além do disco a solo, fecho o ano com outro disco a solo editado na minha própria editora (Cylinder Recordings), “Compositions for Double Bass”. Enquanto um é um trabalho exploratório sonoro de improvisações, este outro é um disco de composições para contrabaixo, de quatro colegas músicos/compositores (Thanos Polymeneas-Liontiris, Michał Osowski, Pedro Melo Alves e Friso van Wijck) e que conta com quatro peças que são resultado de um trabalho de interação entre compositor-músico, que fiz ao longo dos anos e é registado neste disco. Para além de alguns dos projetos que já mencionei, irei apresentar novos discos durante o ano, alguns novos trabalhos vão estar em destaque, como é o caso de novo disco com o trio de Luís Vicente, que gravámos em Belgrado no final de outubro. Este trio do Vicente (trompete e composição), que conta com Pedro Melo Alves na bateria, é um projeto que vai beber bastante ao lado do jazz espiritual, com raízes rítmicas e melódicas nas suas composições com as quais me identifico bastante, a par do espaço para improvisação livre e flexibilidade na interpretação. Um trio que em 2023 vai dar cartas.

Mas há mais...

Pela editora belga Futura Resistenza, a meio do ano apresento o disco “Dialogues and Shadows”, resultado de um trabalho apresentado ao vivo em Roterdão com o músico, artista sonoro, sonoplasta francês Pierre Bastien, com o qual tenho tido a oportunidade de colaborar nos últimos anos. Almeida & Bastien é um duo de explorações de música não idiomática em contrabaixo e trompete juntamente com vários objetos de arte sonora, que cria uma metamorfose entre os instrumentos acústicos e vários dispositivos mecânicos. A colaboração AL!, com o trompetista João Almeida, que esperamos conseguir em 2023 ter o disco de apresentação, assim como concertos em Portugal e além fronteiras. Na segunda metade do ano procuro lançar na Cylinder Recordings, novo trabalho a solo (em vinil e CD) de nome “Ciclos”. Acabado de gravar numa capela na cidade de Brecht, na Bélgica, é composto por duas peças estruturadas de minha autoria. Isto tudo a par de inúmeras tours na Europa, já delineadas, destaco a ida já em janeiro ao Festival de Saalfelden na Áustria com os Spinifex e a ida ao conceituado Moers Festival, na Alemanha, com Hydra Ensemble.

Para saber mais:

https://gonzobass.wixsite.com

 Gonçalo Almeida

Agenda

23 Setembro

Quarteto de Desidério Lázaro

Jardim Botânico - Lisboa

23 Setembro

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Igor C. Silva, João M. Braga Simões e José Soares

Arquipelago – Centro de Artes Contemporâneas - Ribeira Grande

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Rodrigo Santos / Pedro Lopes

Jardim Luís Ferreira - Lisboa

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Al-Jiçç

Centro Cultural da Malaposta - Odivelas

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José Lencastre, João Hasselberg, João Carreiro e Kresten Osgood

Cossoul - Lisboa

23 Setembro

Ricardo Jacinto "Atraso"

Centro Cultural de Belém - Lisboa

23 Setembro

Tcheka & Mário Laginha

Teatro Municipal Joaquim Benite - Almada

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